Em poucos dias, mais de 13 mil assinaturas. O feito da carta aberta contra António José Seguro, partilhada em grande medida por apoiantes de André Ventura e estruturas do Chega, parece assinalável, mas há algumas dúvidas que pairam sobre o documento digital. Desde logo, o facto de incluir assinaturas falsas e que corresponderiam a declarações contra Seguro irrealistas — até por supostamente serem subscritas por apoiantes públicos do antigo líder do PS.
Numa pesquisa pelas 52 páginas em que é possível consultar a lista de subscritores da carta, encontram-se assinaturas inventadas ou no mínimo improváveis, como as de Marcelo Rebelo de Sousa, Aníbal Cavaco Silva, o próprio António José Seguro, Pedro Passos Coelho ou Francisco Rodrigues dos Santos, na área da política. Também há quem use as assinaturas para fazer pouco do líder do Chega, partido que tem promovido ativamente a assinatura da carta, assinando como “André Populista Ventura” ou “Facho Ventura”.
O Observador passou a pente fino a lista de subscritores e questionou alguns dos mais reconhecíveis sobre o assunto. “A Presidência da República confirma que o signatário Marcelo Rebelo de Sousa na Carta Aberta “Eu digo não ao socialismo” não é o Presidente da República”, respondeu fonte oficial da Presidência da República, confirmando assim que alguém se registou indevidamente com o nome do Presidente e a ocupação “cargo político”.
Também o ex-líder do CDS Francisco Rodrigues dos Santos respondeu ao Observador, recordando que foi “das primeiras figuras do centro democrático” a manifestar apoio a Seguro, pelo que é “inconcebível” que o seu nome conste desta lista. É uma falsidade, “como quase tudo o que envolve o Chega; o abaixo assinado foi transformado em abaixo não assinado”, atira, acusando o partido de promover a carta para disfarçar o facto de “não ter apoios” públicos — Ventura tem garantido dispensar o apoio dos “notáveis” que se têm colocado ao lado do socialista.
Aníbal Cavaco Silva é outro dos nomes que aparecem como se tivessem assinado a carta, embora o antigo primeiro-ministro e Presidente da República já tenha vindo esclarecer que votará em Seguro, uma pessoa “honesta e educada”: “Estas eleições são muito importantes para o futuro do país. Num tempo de tantas incertezas e de graves ameaças, Portugal precisa de um Presidente da República de bom senso e credível na cena internacional que contribua para a defesa dos interesses nacionais”, afirmou esta semana, numa nota enviada à Lusa.
Já Pedro Passos Coelho aparece como signatário, mas já tinha esclarecido que não iria pronunciar-se nem declarar apoios nestas eleições: “Não desejo fazer qualquer comentário ou declaração sobre as eleições presidenciais”, disse numa nota enviada à Lusa, a propósito desta segunda volta.
O Observador questionou vários dos deputados do Chega que assinaram e partilharam a carta nas redes sociais, mas estes disseram não conhecer a origem da iniciativa nem quem escreveu o texto que apresenta esta segunda volta como um “julgamento político a décadas de socialismo que empobreceram o país”. Na página online, não é possível perceber quem começou por lançar esta iniciativa.
O que é possível constatar é, desde logo, que quem quer assinar o documento tem de revelar o seu nome, profissão e, opcionalmente, o seu email, sendo que aparece também um aviso que informa que não é possível (ou não deveria ser) inserir os dados de outras pessoas: “Este sistema de assinaturas procede à recolha do meu endereço IP e da minha localização, confirmando que todos os dados inseridos são da minha exclusiva titularidade. A inserção de dados de terceiros poderá acarretar consequências legais”, lê-se.
Além das assinaturas já referidas, encontram-se também outras repetidas, que levantam dúvidas ou são falsas, como as da influencer e antiga atriz pornográfica de origem libanesa Mia Khalifa, nomes da área do futebol como José Mourinho (aqui apresentado como “desempregado”), Américo Tomás (se se lesse Thomaz seria o nome do último Presidente da ditadura em Portugal) ou “CNN Socialismo”.
Outra dúvida que tem sido colocada nas redes sociais tem a ver com o rápido crescimento do número de assinaturas: durante a tarde e noite desta terça-feira, por exemplo, passou de 13.344 assinaturas para 13.752, continuando a ser possível aceder apenas a 52 páginas com 50 nomes cada uma (o que matematicamente permitiria ler apenas 2600 nomes, não permitindo confirmar quem são os restantes signatários).
O Observador verificou também, por comparação, as 308 páginas com 6400 assinaturas (o que permite de facto mostrar a totalidade dos nomes) da carta aberta dos “não-socialistas por Seguro”, não tendo encontrado nomes de figuras públicas e políticos além dos que anunciaram que assinariam a carta aberta. Neste caso, tal como no manifesto contra Seguro, que surgiu como resposta a esta primeira carta, encontram-se pessoas que assinaram apenas com o nome próprio ou que não forneceram dados sobre a sua profissão.
A carta contra Seguro argumenta que este “tenta vender a imagem de moderação e consenso”, mas isso é uma “fraude política” porque o ex-líder do PS “é o rosto polido do mesmo socialismo que desgovernou Portugal durante grande parte dos últimos cinquenta anos e que conduziu o país ao atraso (…) não representa mudança, representa continuidade, e continuidade do pior”.
Além disso, a carta acusa Seguro de “representar politicamente António Costa e o seu legado” de “fronteiras escancaradas, de imigração descontrolada, sem regras, sem critérios e sem capacidade de integração”; além disso, diz que representa o PS de “José Sócrates” — “Nunca houve uma rutura séria, nunca houve um pedido de desculpas, nunca houve verdadeira responsabilização. Houve silêncio cúmplice e continuidade (…) É o passado a tentar regressar pela porta do Palácio de Belém”.