Eslovénia, Ljubljana, Arena Stozice, Portugal, Espanha. O que têm em comum estas cinco palavras que estão incontornavelmente ligadas à história dos Campeonatos da Europa de futsal e, em particular, da Seleção Nacional? Foi assim que começou uma das mais belas páginas de ouro do desporto português, há precisamente 2.919. Foi em Ljubljana que o trabalho de duas décadas começou, finalmente, a ver a luz do dia em termos de títulos. Foi ali que um país tendencialmente virado para o futebol começou a ver que existe vida para além dos relvados. Afinal, a bola também rola nos pavilhões e o futsal é capaz de colocar o país no topo do mundo. Recuando à noite de 10 de fevereiro de 2018 e a uma Arena Stozice a rebentar pelas costuras, Portugal fez o que parecia impossível e travou a super Espanha, seleção que só tinha superado numa ocasião, conquistando pela primeira vez um grande título no futsal. A partir daí, a equipa de Jorge Braz chegou ao topo da Europa noutra ocasião (2022), subiu ao trono mundial em 2021 e conquistou a primeira edição da Finalíssima em 2022.

Eles têm os pulmões cheios e o cume da montanha está mesmo ali: Portugal vence França e está na final do Europeu

Em 2026 a missão era a mesma, mas com um grande parêntesis: derrotar os espanhóis e continuar a dominar a modalidade, pelo menos em termos europeus. Afinal, Portugal está cada vez mais habituado a voar alto e o facto de ter chegado a esta final com 16 vitórias consecutivas em fases finais de Europeus não deixava margens para dúvidas. Contudo, ao contrário do que tem sido habitual, o favoritismo estava cada vez mais do lado português, com os espanhóis a quererem voltar a conquistar um troféu dez anos depois. Olhando ainda ao jogo decisivo de 2018, foram seis os protagonistas que estiveram nessa e na final de 2026, a grande maioria do lado português (Bruno Coelho, André Coelho, Pany Varela e Tiago Brito, “contra” Adolfo Fernández), o que espelha a revolução que tem sido feita no futsal espanhol, a começar pela chegada de Jesús Velasco ao comando técnico. Nesse sentido, Portugal chegava à final com uma equipa mais experiente (29,05 anos-28,79), embora o percurso das duas equipas fosse muito idêntico: cinco jogos, cinco vitórias 26 golos marcados e oito sofridos pelos portugueses, 22-5 pelos espanhóis.

“Todo o processo de preparação é virado para nós. A variabilidade tática e estratégica que a Espanha tem em todos os momentos do jogo – e já disse que é das seleções mais organizadas em todos os momentos do jogo – vamos olhar a isso e ver o que temos de fazer nesse confronto. A nossa decisão é bem mais importante. Vamos viver e sentir cada momento, estrategicamente, acreditando muito no que podemos fazer, sabendo que esta ou aquela janela se pode abrir em determinado momento, na bola parada, na transição da Espanha fortíssima, no um para um. Esta é uma oportunidade para Portugal, para sermos quem somos. A Espanha faz muita coisa bem, como nós fazemos muita coisa bem. Esqueçam que é uma final. O percurso está feito, chegámos ao fim do percurso e agora queremos fechá-lo como todos queremos. Já estamos no topo e agora é colocar lá a bandeira de Portugal. Disse sempre que o objetivo era jogar a final, agora queremos muito cortar a meta em primeiro. Temos muita vontade que comece o jogo”, antecipou Braz.

Ficha de jogo

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Portugal-Espanha, 3-5

Final do Campeonato da Europa de futsal 2026

Arena Stozice, em Ljubljana (Eslovénia)

Árbitros: Dejan Veselic (Eslovénia) e Nicola Manzione (Itália)

Portugal: Bernardo Paçó; Tomás Paçó, Bruno Coelho, Pany Varela e Erick Mendonça

Suplentes: Edu Sousa; André Coelho, Afonso Jesus, Rúben Góis, Kutchy, Lúcio Rocha, Diogo Santos, Tiago Brito e Pauleta

Treinador: Jorge Braz

Espanha: Dídac Plana; Antonio Pérez, Francisco Cortés, Miguel Mellado e Pablo Ramírez

Suplentes: Chemi; Cecilio Morales, Ricardo Mayor, Adrián Rivera, José Antonio Raya, Adolfo Fernández, Mario Rivillos, Jesús Gordillo e David Novoa

Treinador: Jesús Velasco

Golos: Antonio (2’, 20’, 10m e 40’), Raya (3’), Afonso (5’), Góis (7’), Pauleta (30’) e Adolfo (40’)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Cecilio (16’), Góis (16’), Erick (20’), Rivillos (23’) e Diogo (40’)

“Vamos ver quem demonstra ser melhor. Está claro que Espanha poderá ganhar a Portugal e que Portugal pode ganhar à Espanha. Amanhã [sábado] vai depender de quem esteja mais lúcido, sereno, capaz de competir melhor e aproveite melhor as ocasiões de golo que crie. Vai ser um jogo muito estratégico, onde cada equipa vai tentar levar o jogo para o que lhe interessa. Será um desafio muito bonito e que todos os adeptos de futsal têm de ver. Estão as duas melhores seleções deste Europeu e acho que vai ser um grande espetáculo. [Portugal] é a atual campeã, que ganhou praticamente todas as competições nos anos anteriores. Respeitamo-los muito, mas também temos feito as coisas muito bem. É certo que estamos há dez anos sem ganhar nada, mas acho que isso é uma motivação extra para a equipa, de demonstrar que a Espanha continua aqui. Acho que estamos a fazer um Europeu muito bom, a nível de jogo e sensações”, perspetivou Velasco.

Com Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), e Zicky Té, que transportou o troféu para a quadra, presentes nas bancadas, que voltaram a estar totalmente preenchidas, Jorge Braz e Jesús Velasco não mudaram a estratégia em relação às meias-finais e lançaram os cinco habituais, com Portugal a arrancar com Bernardo Paçó, Tomás Paçó, Bruno Coelho, Pany Varela e Erick Mendonça, e Espanha com Dídac Plana, Antonio Pérez, Francisco Cortés, Miguel Mellado e Pablo Ramírez. A equipa das quinas entrou melhor na partida e, aos 37 segundos, Bernardo aproveitou o espaço para subir no terreno e desferir um remate forte, que saiu por cima (1′). Pouco depois, Pany isolou-se na meia-direita, mas Dídac levou a melhor com uma grande defesa à entrada da área (2′). Na resposta, Ramírez recebeu de costas para a baliza, fez o trabalho de pivot e serviu Antonio que, em zona central, atirou rasteiro para o golo inaugural (2′). Volvido pouco mais de um minuto, Tomás perdeu a bola na saída e, na transição rápida, Cecilio Morales tocou à direita para José Antonio Raya, que fez o 0-2 (3′).

Portugal reagiu bem à desvantagem e, numa jogada de insistência, Diogo Santos cruzou para o corte de Cecilio, o ala ficou no chão, o sportinguista voltou a cruzar e, completamente sozinho na área, Afonso Jesus encostou para golo português (5′). Pouco depois, Tiago Brito cobrou uma reposição lateral na direita para a entrada da área, Rúben Góis recebeu, rodou perante a oposição de David Novoa e, de pé esquerdo, desfere um remate forte para o empate (7′). A Seleção Nacional continuou por cima depois de ter sofrido dois golos de rajada e o jogador do Rio Ave quase completou a reviravolta logo a seguir, valendo o desvio de um defesa a impedir o golo (9′). Na resposta, Ramírez atirou forte para a primeira grande defesa de Paçó (10′) e, em novo lance de bola parada, Cortés recebeu na passada e atirou forte para nova intervenção do guarda-redes do Sporting (11′). A partir daí, o jogo entrou numa fase de maior equilíbrio, com as equipas a encaixarem, ainda que a alta intensidade tenha prosseguido.

Na reta final do primeiro tempo, Diogo continuou em grande plano, fez um grande corte na defesa e, no ataque, serviu Kutchy que, depois de aparecer sozinho e perder algum espaço, atirou contra o corpo de Dídac (14′). Pouco depois, Velasco foi o primeiro a parar o jogo para preparar um canto, que acabou no corpo de Afonso (15′). No lance seguinte, Gordillo apareceu completamente sozinho dentro da área a finalizar de calcanhar, mas sem a direção da baliza (16′). Os últimos três minutos contaram com Portugal tapado em faltas, depois de Tiago Brito ter feito a quinta infração sobre Novoa (17′), e Espanha aproveitou para se acercar da baliza de Paçó, levando Braz a pedir o seu timeout a 1.41 do soar da buzina, só que o efeito desejado acabou por surtir ao contrário, com Pérez e Ramírez quase a marcarem (20′). A 42 segundos do fim, Erick recebeu no ataque, protegeu com o corpo e, com o braço, atingiu o pivot na face, recebendo o amarelo. Na cobrança do livre de dez metros, Antonio Pérez rematou mais em jeito do que em força, o recém-entrado Edu Sousa ainda conseguiu defender, só que a bola ganhou um efeito traiçoeiro e acabou dentro da sua baliza (20′). Até à buzina, Pany e Pauleta ainda testaram Dídac, com o guarda-redes do Barcelona a levar a melhor (2-3).

Na etapa complementar, a primeira ocasião teve origem numa perda de bola de Erick Mendonça junto à área portuguesa, com Francisco Cortés a acertar no poste em cima da baliza e Pany Varela a impedir o golo em cima da linha (22′). Na resposta, o ala do Benfica recebeu junto à linha, fez a paralela para dentro e, ao seu estilo, desferiu um remate forte ao ângulo mais distante, mas Dídac Plana voou para travar o empate (23′). Na outra baliza, Pablo Ramírez apareceu isolado, com Bernardo Paçó a sair rapidamente dos postes e a defender com o corpo (23′). Portugal continuou a dominar com bola, mas Espanha mostrou-se mais perigosa sempre que chegou à baliza de Bernardo Paçó e, num lance em que Adolfo Fernández apareceu na área solto de marcação, voltou a acertar no poste direito (25′). Logo a seguir, Cecílio Morales voltou a desequilibrar, atirando para mais uma enorme defesa de Paçó (25′). O sportinguista continua a segurar Portugal nessa fase, travando com a perna um remate cruzado de José Antonio Raya (26′).

À entrada para os últimos dez minutos, a Seleção subiu a pressão numa reposição lateral espanhola e foi feliz, com Pauleta a recuperar e, depois de assistido por Pany, a rematar forte, de baixo para cima, para o empate (30′). Espanha começou a reagir e voltou a aproximar-se da baliza portuguesa, mas os remates de Jesús Gordillo e Mario Rivillos (31′) esbarraram na muralha Paçó. Na ocasião seguinte, Ramírez deambulou para o meio e, à entrada da área, atirou ligeiramente ao lado (31′). Na resposta, Diogo Santos apareceu solto na esquerda e desferiu um remate cruzado e rasteiro que saiu a rasar o poste esquerdo (32′). A reação espanhola voltou a surgir de bola parada, com Rivillos a rematar forte na cobrança de um livre frontal, para defesa incompleta de Bernardo (34′). Pouco depois, Antonio Pérez arrancou pela direita e cruzou para a área, com Cecílio, à meia-volta, a acertar pela terceira vez no poste direito (35′). Adivinha-se o golo e ele lá acabou por aparecer, com Cecílio a arrancar pela esquerda e a cruzar rasteiro para a finalização de primeira de Antonio Pérez, à entrada da área, para o hat-trick (36′).

Logo a seguir ao golo, Jesús Velasco parou o jogo a 4.01 minutos, na tentativa de condicionar a estratégia de 5×4 do banco português. Contudo, Rivillos voltou a ficar perto do golo, desferindo um grande remate novamente ao poste (38′). Já com Tiago Brito como guarda-redes avançado, o 5×4 pouco conseguiu no minuto seguinte, com Jorge Braz a pausar o jogo a 1.13 da buzina. Contudo, Espanha voltou a superiorizar-se nesse momento do jogo e, a cinco segundos do fim, Adolfo Fernández fechou as contas, a passe de… Antonio, o grande herói desta final (3-5).