No filme de abertura deste ano, o Festival de Berlim, a quem muitos exigem que cumpra “folha política” por ser essa a sua tradição, preferiu a subtileza de recordar que a liberdade é uma “flor de estufa”, conquista que rapidamente se perde quando não é cuidada. Que o diga Naru, 25 anos, a protagonista de No Good Men, que inaugura na noite desta quinta-feira, fora de concurso, na Potsdamer Platz, a 76.ª edição do certame na capital alemã.
Interpretada pela actriz que também realiza o filme, a jovem cineasta afegã (embora nascida em Teerão) Shahrbanoo Sadat, Naru é independente e ganha bem a sua vida, tem um filho, está em vias de separar-se do marido, que a enganou com outras. Na Cabul de Fevereiro de 2021, é a única operadora de câmara da televisão nacional afegã, batendo-se de pleno direito com os colegas de profissão, que a olham de soslaio, como ave rara. Numa das sociedades mais segregadoras do mundo, o filme fixa aquele período como uma “memória dourada” em que Naru, apesar de tudo, goza de relativa liberdade de movimentos. Em breve, tudo ruirá. Até ao fim de Agosto daquele ano, os EUA vão retirar de solo afegão o seu último soldado, precipitando a queda de Cabul às mãos dos talibãs.
▲ Shahrbanoo Sadat fixa-se naquilo que está prestes a acabar: “No Good Men” é um retrato da liberdade que o Afeganistão perdeu
Alexandra Polina
Shahrbanoo Sadat não mostra o que veio depois. Fixa-se antes naquilo que está prestes a acabar quando o país — e as suas mulheres em particular — perdem de uma só penada os pequenos ganhos que até então haviam conquistado. Há uma cena em especial que os talibãs jamais perdoarão à cineasta afegã há muito radicada em Hamburgo (todas as cenas de Cabul foram recriadas nos bairros de Wilhelmsburg e Rothenburgsort daquela cidade germânica): é quando uma amiga de Naru, recém-chegada dos Estados Unidos, lhe oferece um presente de “feliz divórcio”: é um vibrador para “novas possibilidades” com carga por USB e controlo remoto, “como é que te atreveste sequer a meter isto na mala?”
Nisto, já Naru está perdida de amores pela estrela do canal de TV que a emprega, é o repórter principal da estação, 20 anos mais velho que ela e também pai de filhos, Qodrat (Anwar Hashimi, actor em todas as obras da cineasta até à data). Num país “sem homens bons” (“No Good Men”), que haja um, pelo menos, capaz de destoar e de carregar nos ombros o melodrama que, entretanto, foi alastrando, de mansinho, quase sem nos darmos conta.
Shahrbanoo Sadat já tinha mostrado talento em filigrana quando realizou Wolf and Sheep e The Orphanage, ambos mostrados na Quinzena de Cannes, em 2016 e 2019, respectivamente. No Good Men é um passo adiante, uma produção mais ambiciosa que a faz entrar no mainstream, sem rasgos de maior a nível cinematográfico mas em tudo equilibrada entre meios e fins. Exibido fora de concurso, é facilmente o melhor filme de abertura da Berlinale num bom punhado de anos recentes. Daria bom casamento se apresentado em double bill com O Bolo do Presidente, de Hasan Hadi.
▲ Wim Wenders (o terceiro a contar da esquerda) e o restante júri da Berlinale, na abertura do festival
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Entretanto, o júri de Berlim foi convidado pela directora artística do festival, a norte-americana Tricia Tuttle, a dizer ao que vem na habitual conferência de imprensa de arranque do evento. Acompanhado pela actriz sul-coreana Bae Donna, pela produtora polaca Ewa Puszczyńska, pela realizadora e argumentista nipónica Hikari, assim como pelo nepalês Min Bahadur Bham, pelo indiano Shivendra Singh Dungarpur e pelo norte-americano Reinaldo Marcus Green (realizadores), Wim Wenders liderou a intervenção mas, de cinema, pouco se falou, até porque a audiência da imprensa internacional desviou constantemente o assunto para outro lado – nomeadamente, para o facto do Governo alemão continuar a não apoiar oficialmente a Palestina por solidariedade com Israel (tal como Kamal Aljafari o sublinhou há uns meses nesta entrevista).
Wenders, entretanto, punha água na fervura que afinal era só conversa de ocasião: “Temos que fazer o trabalho do povo, não o trabalho dos políticos”. E mais não se ouviu, chegado o momento propício em que este escriba abandonou discretamente a sala, sem incomodar ninguém. Amanhã começa a Competição e as sessões de imprensa arrancam às 9h da manhã.