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Os arquivos pessoais ou colectivos do cinema de Aljafari têm procurado garantir uma presença, uma História incompleta, uma narrativa que tem atravessado décadas
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▲Os arquivos pessoais ou colectivos do cinema de Aljafari têm procurado garantir uma presença, uma História incompleta, uma narrativa que tem atravessado décadas

▲Os arquivos pessoais ou colectivos do cinema de Aljafari têm procurado garantir uma presença, uma História incompleta, uma narrativa que tem atravessado décadas

“With Hasan in Gaza”: o Doclisboa abre contra a destruição da memória

Kamal Aljafari exalta os rostos, os gestos e os movimentos de vida em Gaza, num filme contra a guerra e as armas de ambos os lados. Falámos com o realizador do filme que abre o festival deste ano.

À data em que se escreve, num momento em que a paz há muito perdida no Médio Oriente volta a ter — pelo menos — uma linha visível no horizonte, estamos a escassos dias do arranque de mais uma edição do Doclisboa. Quis o destino que o filme há muito programado para a sessão inaugural do festival — With Hasan in Gaza, de Kamal Aljafari — passasse em solo português neste estranho período após tantos massacres e com um quadro humano insustentável, num momento em que dos dois lados da trincheira se enterram machados e trocam prisioneiros.

O Ocidente, que opina mais do que conhece, também respira de alívio. Nos últimos meses, surgiram filmes com uma proximidade impossível de encontrar nos media e que ajudaram à reflexão. Filmes que se esforçaram para ir além daquilo que nos é dado a ver e ouvir. O documentário With Hasan in Gaza, de Kamal Aljafari, é definitivamente um deles. Abre o Doclisboa (esta quinta-feira, dia 16), curiosamente, na mesma semana em que se estreia nas salas lusas uma ficção sem a mesma contundência política e humana, é certo, mas que não vira as costas ao mundo: Once Upon a Time in Gaza, dos irmãos gémeos Arab e Tarzan Nasser, também este um filme palestiniano, no caso uma ficção (rodada na Jordânia) que usa as armas da comédia e da farsa.

Em oposição a este lado há outro, e já por mais do que uma vez aqui se disse que é necessário olhar para ambos. Continuam por mostrar em Portugal — e era urgente fazê-lo: são dois dos filmes mais fortes deste ano — os israelitas A Letter to David, documentário de Tom Shoval (estreou-se em Berlim) e Yes, ficção de Nadav Lapid, muito debatida em França nas últimas semanas (estreou-se na Quinzena de Cannes). A “carta” do título do filme de Shoval é para David Cunio, um dos intérpretes (com o irmão gémeo Eitan) do filme Youth (2013), que na década passada se alinhou com uma nova vaga de cinema israelita politicamente comprometida. Ora, David Cunio, raptado com a família pelo Hamas a 7 de Outubro, sobreviveu a mais de dois anos de cativeiro às mãos do Hamas (tal como Ariel, irmão mais novo) até à sua libertação na passada segunda-feira.

[o trailer de “With Hasan in Gaza”:]

Mas voltemos a With Hasan in Gaza, que dá corpo a este tema e também é um filme de correspondências, estas reencontradas por acaso. Aljafari “concebeu-o” (é um filme “concebido por”) a partir de footage redescoberto acidentalmente, três cassetes MiniDV com material gravado entre 1 e 2 de Novembro de 2001, com descrições do quotidiano de Gaza. Esse footage é hoje testamento de um lugar e de um tempo que já não existem. Vida capturada e que esse material perservou; vida destruída pela guerra e que não mais voltará a ser o que foi. À luz da Gaza que temos hoje — uma montanha de escombros, um calvário sob todos os prismas — são arquivos cruciais para o povo palestiniano e a sua memória colectiva. O registo histórico, não intencional, das imagens e dos sons deste documentário, mostra uma Gaza a mais de vinte anos dos eventos recentes e “fornece provas de uma vida a prazo, sob ocupação, com todas as suas dificuldades e misérias inerentes”, — contou-nos o cineasta em entrevista, em Agosto último, durante a estreia mundial do filme no Festival de Locarno. “É o que basta para desmascarar implicitamente os discursos que sugerem que este conflito só começou com o 7 de Outubro”, defende.

Kamal Aljafari tem 53 anos, nasceu na “cidade mista” de Ramla, a 15 quilómetros de Telavive. Radicado na Alemanha há longo tempo (estudava em Colónia quando filmou aquelas cassetes MiniDV), vive em Berlim, onde dá aulas, e instalou-se desde o ano passado em Paris, ao abrigo de uma residência artística. A Palestina é o foco central desta obra cinematográfica com duas décadas. A sua instalação A Câmara dos Despossuídos fez-se notar na Bienal de São Paulo, em 2003, e no ano passado, esta obra foi retrospectivada pelo IndieLisboa, em colaboração com a Cinemateca Portuguesa, que a descreveu nos seguintes termos: “Um cinema feito em modo de resistência, revelando invisibilizações e jogos de poder através de uma abordagem que cruza a ficção, o documentário, o ensaio visual e o found footage.” Nesse ciclo, a Cinemateca também citou o cineasta, em particular uma frase que resume por inteiro o programa de With Hasan in Gaza: “Os meus filmes são como uma arqueologia da memória, escavando as narrativas esquecidas, enterradas sob a superfície da vida quotidiana”.

De facto, os arquivos pessoais ou colectivos do cinema de Aljafari têm procurado garantir uma presença, uma História incompleta, uma narrativa que tem atravessado décadas. The Roof (2006), Port of Memory (2009), Recollection (2015), An Unusual Summer (2020) ou A Fidai Film (2023) construiram poeticamente esta ideia de nação que With Hasan in Gaza torna ainda mais forte. Aliás, visto sob esta perspetiva, o filme que abre agora o Doclisboa revela ser absolutamente determinante para toda a obra futura do cineasta.

O Hasan do título refere-se a Hasan Elboubou, um guia local que orientou Aljafari ao longo da Faixa de Gaza, em 2001, durante a Segunda Intifada. Aljafari procurava então o paradeiro de um companheiro de cela que havia conhecido em 1989, quando os israelitas o prenderam pela primeira vez (tinha ele 17 anos). Levou uma câmara consigo e o que agora vemos é uma montagem em sequência cronológica do que ele filmou. Sem poder dar-se conta disso (“este é o meu primeiro filme que eu nunca cheguei a fazer”), Aljafari, em 2001, já era cineasta.

▲ Kamal Aljafari fotografado em Agosto deste ano, em Locarno: o seu filme “With Hasan in Gaza” abre esta quinta-feira o Doclisboa

Disse que encontrou este material por acaso. Relacionou-o imediatamente com a realidade de hoje?
Sim, essa foi a primeira intuição. Encontrei estas cassetes há um ano, num período em que estava, precisamente, a questionar o que pode o cinema, o que pode a arte, para contrariar tanta destruição, tantos assassinatos, este extermínio de tudo o que é vida em Gaza. Eu não sabia qual era o conteúdo das cassetes quando as encontrei, embora as tenha filmado. Esqueci-me delas porque nunca cheguei a ver o que guardavam. Passou-se demasiado tempo, já nem sequer tenho um leitor MiniDV, tive que pedir ajuda para digitalizar as cassetes. Só me recordei do que lá estava quando me vi a mim próprio no momento em peço a Hasan para pegar na câmara Também não me lembrava da data, mas as cassetes guardaram-na no timecode. Tornou-se claro para mim que tinha que partilhar este material com o mundo. Cada lugar que vemos neste filme já desapareceu, só existe nestas imagens. A consciência deste facto torna-as verdadeiras e dolorosas. Nada sobrou daquela paisagem humana.

As condições de vida já então eram duras?
Completamente. Foi também por isso que mantive a estrutura e a ordem sequencial das cassetes sem acrescentar nada sobre o presente, sobre o que sabemos que está a acontecer. Tornou-se claro para mim que este não seria um filme de montagem no sentido mais clássico do termo. Aquelas imagens permitem-nos uma conexão com a humanidade, são prova de que a catástrofe tinha todo o espaço para progredir em 2001, como infelizmente veio a acontecer.

Os arquivos são um elemento fundamental na sua obra. Como e porquê?
Os arquivos permitem-nos estudar padrões e, no caso da Palestina, registam uma coisa fundamental: o padrão é há muito a falta de normalidade. Os arquivos guardam o mais importante: a vida das pessoas, os seus rostos, as suas batalhas diárias, enfim, uma existência que esta guerra desejava erradicar. O exército israelita lançou uma destruição a grande escala e bombardeou museus, igrejas, escolas. Um dos primeiros edifícios que foram destruídos foi o que guardava os nomes e a história dos gazenses. É evidente que as IDF quiseram eliminar os seus vestígios. Mas com este filme, todas aquelas pessoas, as crianças, as mulheres, existem na tela e por lá vão ficar, com as suas vidas suspensas, sempre que o filme for projectado. No meu trabalho anterior, A Fidai Film, dei-me conta de que os arquivos são a “câmara dos despossuídos”. Pelos arquivos, podemos enfrentar o medo constante do desaparecimento. Pelos arquivos, podemos existir outra vez.

“Cada lugar que vemos neste filme já desapareceu, só existe nestas imagens. A consciência deste facto torna-as verdadeiras e dolorosas. Nada sobrou daquela paisagem humana.”

With Hasan in Gaza seria um filme diferente se o 7 de Outubro nunca tivesse existido?
É uma pergunta legítima, profunda, que continuo a colocar-me a mim próprio. Por mais misterioso que isto pareça, acho que este filme só existe por causa do que aconteceu a 7 de Outubro. Por algum motivo devo ter guardado estas cassetes tanto tempo, quase 24 anos, como se elas tivessem que esperar o momento certo até serem descobertas. Para responder objectivamente, acho que não teria havido filme sem o 7 de Outubro. With Hasan in Gaza faz sentido nas circunstâncias em que estamos agora. Faz sentido como um cinema que se tornou necessário. Estas imagens de 2001 nunca foram feitas com a intenção de servir um filme. Contudo, testemunham pela sua simplicidade o que é a natureza de uma vida sob ocupação.

Vive há muitos anos na Alemanha, um dos países europeus que mais apoia Israel e que mais combate — por motivos históricos — o anti-semitismo. Aponta o que diz ser um “silêncio generalizado” do Ocidente a nível institucional sobre o que está a acontecer. Como é que lida com isso?
Tenho observado que certos valores históricos do anti-semitismo têm sido surpreendentemente deturpados. Há algum tempo, houve uma conferência organizada pelo governo de Israel sobre o assunto, mas quem participou nela foram os antissemitas da direita europeia mais extrema. É um paradoxo chocante. São estes os aliados que Israel procura, tornando a batalha válida e justa contra o anti-semitismo numa farsa. De qualquer forma, o anti-semitismo e a simpatia pelo fascismo estão vivos na Europa e apoiam o actual governo de Israel. Na Alemanha, é muito fácil encontrar esses apoiantes. Votam na AfD e costumam reunir-se junto à Porta de Brademburgo. Para essas pessoas, as vidas dos palestinianos não tem o mínimo valor. Mas não são só os palestinianos que estão a morrer em Gaza, somos todos nós, a humanidade.

Que papel têm as imagens, aquilo que passa na TV, nas redes sociais, etc?
Há hoje uma forte sensação de incredulidade quando catástrofes como Gaza acontecem e se desenrolam à nossa frente nos media e noutros canais a que temos acesso, porque esses canais normalizaram as imagens, tornando-as banais. E isso não ajudou seguramente a Palestina. Há uma descrença no que ouvimos e no que vemos, especialmente nesta época da inteligência artificial. Qualquer idiota pode simular por IA a imagem de uma criança faminta. Milhares de pessoas são bombardeadas quando fazem fila e tentam apanhar um pouco de comida. Vemos essas imagens. Mas o discurso oficial que vem a seguir é de que não houve vítimas e que foram atingidos alvos militares. A maldade e o cinismo perderam a vergonha e já nem precisam de inventar histórias para existir.

▲ Aljafari: “A parte emocional mais dolorosa é sempre a interacção com as crianças”

Quando filmou estas imagens, o Hamas já existia em Gaza?
Não tinham relevância, eram um pequeno partido sem poder. Nada que ver com o grupo fundamentalista e extremista que se tornou depois. Para Israel, o Hamas foi o álibi perfeito. Quando o Hamas colidou e destronou a OLP após a morte de Arafat — que era um líder reconhecido pelo Ocidente e recebido pelo Papa — Israel fez tudo o que estava ao seu alcance para que o Hamas crescesse, ganhasse força e tomasse conta da Faixa de Gaza. O Hamas dividiu os palestinianos, assassinou os seus intelectuais europeístas que estavam envolvidos nos movimentos de libertação, repelindo ao mesmo tempo todo e qualquer reconhecimento do Ocidente. O Hamas tornou todos os palestinianos culpados e conduziu-os ao desastre. Em nome do Hamas e dos seus crimes horrendos, Gaza foi invadida e destruída.

Houve alguma parte deste filme com a qual tenha sido mais difícil de lidar a nível emocional?
A interacção com as crianças. Elas estão sempre a perguntar-me porque é que estou a filmar, a pedirem para ser filmadas. Os adultos, pelo contrário, querem saber o que estou a fazer, para quem estou a trabalhar… Porque os palestinianos já desenvolveram esse medo natural da câmara, olham para ela como um instrumento de controlo, ao passo que as crianças respondem pela inocência, só querem ser filmadas. Pelas crianças, apercebo-me da injustiça que se abateu sobre aquelas pessoas, que não têm qualquer perspectiva de vida. Já naquele tempo, Gaza era a maior prisão a céu aberto do mundo. Nada justifica esta matança a que assistimos nos últimos dois anos. Já não tenho palavras. Estou agora a frequentar estes ambientes de festivais, promovendo pelo mundo um filme sobre vida que foi destruída. A experiência está a ser dura, custa-me. Este não é um filme qualquer.

A ideia de reconhecer a Palestina como um Estado de direito é um passo importante?
O Ocidente está apenas a usar essa bengala para travar o conflito presente. Não é possível criar um Estado palestiniano e continuar a tratar Israel como um filho especial da União Europeia, favorecendo o seu armamento. Trinta por cento das armas israelitas vêm da Alemanha. Vai tudo continuar na mesma. Quando as IDF são confrontadas com acusações, a reacção é sempre a mesma: “Porque não falam do genocídio no Sudão, ou naquele país em que também há guerra?” Acontece que estes massacres, ao contrário do que está a acontecer em Gaza, não estão a ser patrocinados pela União Europeia. Nos festivais de cinema europeus e nas ruas da Alemanha, tal como no seu país, encontro muita gente solidária com a Palestina, sobretudo jovens. Mas quando olhamos para as estruturas de poder, a nível governamental e também cultural, começam os problemas. Na Alemanha, um país em que a cultura é maioritariamente financiada pelo Estado, as instituições seguem a bitola do Estado. Acho isto terrível. Foi esta lealdade cega à autoridade que permitiu a eclosão do Holocausto. Nada se pode dizer contra Israel na Alemanha — porque os avós e bisavós de quem manda eram nazis. Ou seja, a desumanização continua. O silêncio continua. Há uma crise de identidade aflitiva na Alemanha e que está a ganhar terreno em toda a União Europeia. Infelizmente, julgo que é uma crise imparável.

“With Hasan in Gaza”: quinta-feira, 16 de outubro, Cinema São Jorge, Sala Manoel de Oliveira, 21h

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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