Enquanto se continuava a discutir o alegado ato racista de Prestianni denunciado por Vinícius Jr. durante o encontro entre Benfica e Real Madrid, a contar para a primeira mão do playoff da Champions no Estádio da Luz, foram também surgindo alguns vídeos nas redes sociais que mostravam comportamentos racistas das bancadas contra o avançado brasileiro – e um deles terá muito em breve as respetivas consequências.

Versões contraditórias, acusações, imagens das bancadas e a nomeação de um Inspetor: o que se sabe e falta saber do caso Vini-Prestianni

Num vídeo que não demorou a tornar-se viral, sobretudo a partir do momento em que foi partilhado nas suas páginas nas redes sociais por Rio Ferdinand, antigo capitão do Manchester United e de Inglaterra, é possível ver dois jovens adeptos a apontarem para Vinícius Jr. antes da marcação de um canto à esquerda do ataque do Real Madrid e a imitarem gestos de macaco para o avançado. Aliás, a ação foi também vista pelo capitão dos merengues, Fede Valverde, que chamou a atenção do árbitro logo no momento (minuto 72).

Perante as imagens, o Benfica decidiu abriu um processo de averiguação interno ao sucedido, tendo já identificado os dois jovens que aparecem nos vídeos, que serão detentores de Red Pass (lugar anual). Todo o processo está em fase de conclusão, sendo que fonte do clube admitiu à agência Lusa que, caso sejam sócios do clube, poderão incorrer numa sanção que leve mesmo à expulsão de associados. Este não foi o único vídeo partilhado após o encontro nas redes sociais com insultos racistas a Vinícius Jr. mas não são conhecidos, pelo menos para já, mais processos de averiguação internos abertos pelo clube da Luz.

“O jogo foi verdadeiramente exigente em todas as suas facetas. Até ao minuto 50 foi um grande jogo, de uma exigência máxima, do ponto de vista físico, tático e da concentração que se tem de ter para jogar um jogo daquele nível. Mas depois também não posso deixar de reconhecer que a partir do minuto 51 até agora, e não vai acabar com a nossa conversa, que não tem sido fácil de gerir emocionalmente tudo aquilo que aconteceu e continua a acontecer. Mas há jogo amanhã [sábado], um jogo importante, um jogo que para as nossas ambições e sonhos é fundamental ganhar. Temos de nos focar e tentar jogar ao mais alto nível”, comentou esta sexta-feira José Mourinho à BTV, na antevisão do encontro frente ao AVS.

“O Sport Lisboa e Benfica encara com total espírito de colaboração, transparência, abertura e sentido de esclarecimento as diligências anunciadas pela UEFA, na sequência do alegado caso de racismo ocorrido no jogo frente ao Real Madrid. O clube reafirma, de forma clara e inequívoca, o seu compromisso histórico e intransigente com a defesa dos valores da igualdade, do respeito e da inclusão, que vão ao encontro dos valores matriciais da sua fundação e que têm em Eusébio o seu símbolo maior”, tinha defendido o clube na quarta-feira, na sequência dos anúncios feitos pelo órgão que tutela o futebol europeu.

“O Sport Lisboa e Benfica reitera ainda que apoia e acredita plenamente na versão apresentada pelo jogador Gianluca Prestianni, cuja conduta ao serviço do clube sempre foi pautada pelo respeito pelos adversários, pelas instituições e pelos princípios que definem a identidade benfiquista. O clube lamenta a campanha de difamação de que o jogador tem sido vítima”, acrescentou ainda a formação da Luz.

Em paralelo, Luisão, antigo capitão do Benfica que se posicionou ao lado de Vinícius Jr. e denunciou depois ameaças feitas por adeptos encarnados nas redes sociais, voltou a partilhar um longo texto na sua página oficial no Instagram. “Que saiamos deste episódio melhores. Como clube, como adeptos, como sociedade. Porque jogos passam. Títulos passam. Mas caráter e valores ficam”, salientou o ex-central brasileiro.

“Passei grande parte da minha vida no Benfica. Cresci como jogador, como homem e como capitão. Conquistei títulos, vivi noites inesquecíveis e defendi aquela camisola com tudo o que tinha. O Benfica é parte da minha história. E é exatamente por isso, e não apesar disso, que me sinto na obrigação de falar. Nos últimos dias, posicionei-me contra qualquer forma de racismo no episódio envolvendo Vini Jr.. Não por nacionalidade, nem por polémica, mas por princípio. Racismo não tem clube, não tem camisola, não tem lado. E não pode ser relativizado. Tudo começou com uma comemoração, um gesto de alegria após um golo. E é preciso dizer o óbvio: dançar não é desrespeito, é expressão. O futebol sempre foi emoção. A alegria de uns é o lamento de outros. Sempre foi assim”, começou por escrever Luisão.

“Grandes jogadores celebraram a dançar: Cristiano, Ronaldo Fenómeno, Ronaldinho… A dança nunca foi o problema. O que não pode ser aceitável é transformar uma comemoração em justificativa para ofensas racistas. Nada justifica isso. Nem provocação, nem rivalidade, nem o calor do jogo. Um estádio não é um território sem valores. O respeito continua a valer dentro dele. Também fui alvo de ofensas, inclusive racistas, depois de me manifestar. Isso dói, mas não me fará recuar. Posso ter ignorado provocações desportivas ao longo da carreira, mas nunca me calarei diante da discriminação de uma minoria que não representa o clube que amo. O Benfica tem uma história enorme, respeitada no mundo inteiro. Uma história maior do que qualquer episódio isolado. É isso que precisa prevalecer. O meu amor pelo clube permanece intacto, assim como o respeito e a gratidão pelos seus adeptos. O meu apoio é inegociável. O futebol é paixão e intensidade. Antes de tudo, é humanidade. E humanidade não admite racismo”, concluiu.

[O acampamento mais importante do ano. O concurso de Miss com biquinis minúsculos. E o obscuro ritual tântrico em grupo. Ouça o quarto episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro]