“Eu não quero estar a trabalhar em ballet ou ópera ou outras coisas que sejam do género ‘ei, mantém isto vivo’, apesar de já ninguém querer saber disto”. A frase foi proferida, entre risos, por Timothée Chalamet. Ainda pareceu tentar remediar as críticas — “com todo o respeito por toda a malta do ballet e da ópera” — mas voltou à carga: “acabei de perder 14 cêntimos em visualizações”, sugerindo que tanto o ballet como a ópera geram pouca mobilização.
As palavras do ator conquistaram rápido mediatismo. O seu papel como celebridade de Hollywood ou como namorado de Kylie Jenner seriam suficientes para dar alcance às considerações polémicas, mas a sua nomeação para os Óscares terá contribuído de sobremaneira. Chalamet é apontado como sendo o forte favorito à conquista do galardão de Melhor Ator Principal pelo papel de Marty Mauser, um jogador de ténis de mesa, em Marty Supreme.
It’s impressive how fast Timothée Chalamet went from Hollywood’s most exciting young actor to one of its most arrogant and unlikable figures.pic.twitter.com/GBL7o2frgb
— Films to Films (@filmstofilms_) March 6, 2026
A resposta às declarações não se fizeram tardar e ecoaram um pouco por todo o mundo, com pessoas e instituições ligadas ao teatro, à ópera e ao ballet a procurarem desmentir as afirmações do ator (que é filho de uma professora de ballet e neto de uma antiga bailarina profissional). Em pouco tempo, as páginas de vários agentes culturais encheram-se de vídeos com as declarações de Chalamet em fundo enquanto passavam imagens de plateias cheias e palcos com produções elaboradas.
“O quê? O Timothée Chalamet não quer trabalhar connosco? O que devemos fazer, para manter “esta coisa” viva? Ninguém que saber?”, interroga, com ironia, o Teatro São Carlos, num vídeo publicado no Instagram, que remata com a resposta: “Estamos vivos e bem, porque muita gente se importa”. As imagens encerram com uma ovação de pé na única sala de ópera do País.
O modelo foi replicado por outras casas de ópera, como a Royal Opera House, de Londres, uma das mais importantes no mundo. “Todas as noites, na Royal Opera House, milhares de pessoas reúnem-se pelo ballet e pela ópera. Pela música, pela narrativa. Pela experiência mágica da performance ao vivo. Se quiseres reconsiderar, Chalamet, as nossas portas estão abertas”.
A Metropolitan Opera, de Nova Iorque, a Ópera de Zurique, a Ópera de Viena (que fez um convite pessoal ao ator — “o nosso palco está à espera”), o Teatro Real (de Madrid), e a Ópera de Paris acompanharam a reação, com alguma ironia à mistura, das palavras do norte-americano com ascendência francesa. Curiosamente, a casa de ópera na capital francesa até aproveitou para fazer publicidade a uma ópera em exibição até 20 de março que inclui… ténis de mesa.
Nos comentários das publicações, os desabafos repetem-se. “O que o leva a crer que conseguiria trabalhar em ballet ou ópera?”; “Ele fala como se conseguisse trabalhar em ópera ou ballet”; “A ópera continuará a ser estudada, cantada e amada muito depois de ele ser esquecido”.
Houve até quem aproveitasse a controvérsia para lançar promoções. A Ópera de Seattle, nos EUA, divulgou um código com o primeiro nome do ator para um desconto de 14% na obra Carmen, do francês Georges Bizet. A English National Opera ofereceu bilhetes grátis diretamente ao ator para o ajudar “a voltar a apaixonar-se pela ópera”.
Nos comentários das publicações do ator, que não se retratou ou justificou pelos comentários, há quem manifeste o desejo de não o ver vencer o Óscar de melhor ator. Chalamet, que era apontado como o grande favorito, pode estar a perder lugar na corrida, como até aconteceu no ano passado com o filme Emilia Pérez. O filme de Jacques Audiard teve 13 nomeações, mas nas semanas que antecederam a aguardada entrega de prémios viu-se envolto em várias polémicas e acabou por ganhar apenas dois Óscares.
A gala dos Óscares está marcada para a noite de domingo/madrugada de segunda-feira, quando se saberá se as declarações do protagonista de Marty Supreme (que soma nove nomeações no total, incluindo Melhor Filme) não passaram de um burburinho acessório. O ator já esteve nomeado duas vezes para Melhor Ator Principal (pelo papel em “Chama-me pelo Teu Nome” em 2018 e no ano passado pelo papel na biografia de Bob Dylan.