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ModaLisboa. Kolovrat e as sementes que se transformam em roupa, joias e manifesto

Este artigo tem mais de 6 meses

A designer bósnia abre os trabalhos da 66ª ModaLisboa no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian com um desfiles/apresentação em que a protagonista é a semente. "Precisamos abrir para crescer".

36 fotos

O espaço Engawa, numa espécie de semi-cave do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, tem uma janela que deixa à vista o que ali se passa, para todos os que caminham pelos jardins do lado de fora. Um casal em fato de treino, na casa dos 60 anos, para — o homem, que usa ténis, calças de malha, um casaco impermeável e um boné, observa com os braços para trás e uma expressão atenta, de certa forma, maravilhada. Outra mulher ao lado fotografa com o telemóvel. Um fotógrafo profissional junta-se ao momento. A curiosidade é grande para o público que se encontra do lado de fora à espera de assistir ao arranque da 66ª edição da ModaLisboa, mas parece ainda maior para os transeuntes que apenas usavam o passeio da Gulbenkian para cortar caminho. Lá dentro, modelos saem de dentro de véus, como se fossem plantas a brotar de sementes, e caminham pela sala. A performance, artística como já se esperava, é a apresentação da nova coleção de Lidija Kolovrat, que abre os trabalhos da semana da moda da capital esta sexta-feira. 

▲ Da janela as pessoas do lado de fora espreitavam, enquanto a própria designer assistia entre os convidados

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Kolovrat é uma das poucas designers do calendário que tem a oportunidade de apresentar off-location. Em março de 2025 a abertura ficou à cargo de Constança Entrudo, e em outubro a programação arrancou no Palacete Gomes Freire, transformado em Fashion House. Nesta edição, é a designer de origem bósnia que tem “o privilégio”, como a própria descreve ao Observador, depois de uma apresentação à imprensa que antecedeu a chegada dos convidados. “O espaço, o ambiente… Há uma cultura aqui e um ambiente que a suporta. Mais do que fazer mais a nível artístico, acho que é um passo que se dá para expressar aquilo que eu queria expressar. Que é uma coisa mais abstrata, as sementes que precisam de se quebrar para crescer. É como nós, precisamos abrir para crescer, precisamos esquecer algo para crescer”, explica a criadora, sobre a inspiração por trás desta coleção.

Em busca de referências na natureza, como já é costume, a semente está presente não só no conceito e nos padrões mas mesmo dentro das peças. “Temos também várias colagens e as próprias sementes presas dentro de umas telas. Estão dentro da gola, estão em joias, que são todas feitas de sementes mesmo”, explica Kolovrat, sobre os acessórios, entre brincos, hairbands e itens para as mãos, que imitam garras. Sementes pintadas de ouro que adornam coordenados de alfaiataria, vestidos, jumpsuits e gabardinas, com silhuetas mais marcadas e modelagem escultórica. Para garantir a estrutura estão os brocados — e ainda as mãos do hair stylist Cláudio Pacheco, que assina os cabelos não menos esculturais. Já a organza traz a transparência e as sedas e cetins apresentam a fluidez.

Já as aplicações e bordados são combinados de “várias técnicas e processos manuais”, explica Lidija Kolovrat, que conta com uma equipa de cerca de oito pessoas no atelier no Príncipe Real. Mãos de artesãos que assumem o papel de artistas, para criar peças únicas. “Simplesmente é um improviso, é como desenhar numa máquina de costura. Temos várias peças que estão feitas com o talento de alguém que está na costura e está a inventar na hora e no momento, sem suporte”, diz a designer. Em 2022 Kolovrat comprou uma fábrica em Almada, mas assume que não está a usar o espaço para a produção própria — quer, na verdade, criar um hub para moda e design. “Temos uma ideia de fazer um hub fashion, para designers jovens poderem ir lá fazer as suas peças.  Como se fosse um co-working, mas em moda, design, ou artístico.”

Dentro da sala do CAM, num desfile aberto ao público, não havia cadeiras ou bancos. Quem ali está, procura um lugar para ficar e observar, enquanto os modelos caminham sem traçado definido por entre os “casulos” pendurados no teto. Uma experiência também sensorial. As pessoas, aliás, são parte importante do conceito desenvolvido para este desfile/apresentação. “Tem a ver com a comunidade, a proximidade, poder tocar, poder saber mais, não ficar em segredo”, diz, enquanto mais pessoas entram para o próximo slot. Algumas param para a cumprimentar, dão-lhe um abraço. “São pessoas especiais. Cada uma delas é muito próxima da marca. Suportam a marca, ao vestir ou colaborar.” Ao final, Lidija Kolovrat vem receber o aplauso, e deixa a “passerelle” seguida por todas as suas criações, sem fila ou organização. As mesmas que ali diante do público, “nasceram” da semente.

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