“Nothing Happened. And yet, everything changed” norteou a apresentação. Numa das salas, por onde os convidados vão circulando e filmando, dispõem-se no chão quatro elementos, sentados, ligados por fios e cabos e manipulando diferentes acessórios. “O propósito é termos quatro pessoas a fazer música e só uma delas é que está a controlar, e as outras não. Se fizermos sempre as mesmas coisas que conhecemos é muito difícil propor novas hipóteses para problemas que possam existir ou mesmo soluções de design. Fazer-se aquilo que não é o suposto foi o propósito de tudo até agora.”, destaca Sara Maia, que inaugurou as hostilidades desta sexta-feira à margem do Páteo da Galé, sublinhando a importância da dimensão comunitária. “A ideia é sair fora das normas mas tendo sempre presente que é a comunidade que nos leva a construir algo de importante. Identificar e saber que pertencemos a algo sem nos limitar. Talvez ainda falte esse sentido de comunidade de moda aqui.”
A apresentação de Sara Maia
Na Fashion House da ModaLisboa, instalada no Palacete Gomes Freire, onde o formato de pop up se cruza com a apresentação de talento emergente e/ou de cunho independente, mostrou a etapa que se segue no seu processo contínuo de observação, trabalhando como habitual com contrastes: rigidez e fluidez, opacidade e transparência, estrutura e vulnerabilidade. E antes de mais, colocando a intervenção artística acima da mera apresentação de algo novo para vestir. “Este projeto é o culminar do mestrado que terminei há duas semanas em Londres. Foi um ano inteiro de reflexão, de descobrir a minha identidade. O mestrado abriu-me a porta para me ver mais como artista do que como designer de moda, acho que a roupa acaba por ser um complemento da minha visão. Houve muito mais ênfase na forma como ia apresentar do que propriamente o que ia apresentar. Talvez a direção artística tenha crescido muito mais em mim. Ainda estou a tentar perceber como posso comunicar de outras forma no universo da moda, além da roupa.”, enquadra a designer de 35 anos, baseada em Londres.
“Durante muito tempo achei que não tinha nada a falar no universo da moda, estava um pouco perdida. Obrigou-me a colocar em primeiro lugar e fez-me perceber que a minha voz é importante. Foi a isso que me agarrei. Tenho referências como todos os designers mas acabei por dar prioridade às minhas experiências até àquele momento”, acrescenta.
Quanto às peças, cumprem a função de duplo, escudo e revelação, ou “uma forma de habitar o corpo com segurança, sem escondê-lo”, como regista a memória descritiva da coleção. Cada uma delas, algures entre o preto e o branco, “é uma tentativa de ouvir. Um gesto de aproximação do que permaneceu suspenso.”, acrescenta a designer.
Sara Maia
Formada em Design de Moda pela Modatex do Porto, Maia colaborou com designers como Ricardo Dourado e Lydia Kolovrat, e venceu em 2012 o primeiro prémio no concurso da plataforma Bloom do Portugal Fashion. No rescaldo da participação, rumou a Londres e ao atelier da dupla Marques’Almeida, integrando ainda as equipas criativas de marcas como Aitor Throup e Maharishi. Em 2017, regressou à plataforma Bloom. Recentemente concluiu um mestrado em Moda na Royal College of Art, em Londres, onde está baseada, expandindo a sua pesquisa interdisciplinarmente, integrando experimentação têxtil, imagem e performance para questionar os limites do que a roupa pode comunicar. Sara é mais um exemplo da criação nacional que primeiro se revela fora de portas, à semelhança de Ana Margarida Feijão, que um dia antes também passou pelo Palacete Gomes Freire.
A apresentação de Ana Margarida Feijão
Cinco coordenados ocuparam o seu lugar em três salas deste destino na Rua Gomes Freire. Todos eles viajaram diretamente de Brooklyn, onde a designer de origens algarvias tem o seu estúdio, como adiantou em vésperas desta vinda a Lisboa ao Observador. “É uma proposta visualmente intensa, que carrega uma energia simultaneamente melancólica e empoderadora. São sentimentos que associo às mulheres que viveram o antes e o depois do 25 de Abril: uma geração marcada por silêncios, restrições, mas também pela força de quem resistiu e se reinventou. A coleção combina formas volumosas e estruturadas com elementos de sensualidade contida. Essa tensão entre o desejo de liberdade e a marca da opressão é um dos fios condutores do meu trabalho.”, adiantou a jovem criadora.
Um pouco antes, coube a Roselyn Silva abrir os trabalhos na Fashion House, com a sua coleção Legacy II. Estreante na ModaLisboa, a designer nascida em São Tomé e criada em Portugal já tem um percurso de 10 anos no mundo da moda. As inspirações étnicas e padrões coloridos em peças clássicas como coordenados de fatos, camisas de seda e saias rodadas fazem parte do ADN de Roselyn Silva, que tem clientes fiéis — e que aplaudiram de pé as novidades da criadora. Depois, para rematar a jornada no palacete, a festa esteve a cargo da marca portuguesa Gandaia, que converteu as assoalhadas numa descontraída tasca portuguesa, entre pires de queijo, tremoços, sangria e outros condimentos chave — ah, e ainda um preview da coleção primavera-verão 2026, sob o tema (ou recibo no final da refeição) “Volte sempre”.
A Gandaia estendeu a toalha de papel
Os desfiles da Lisboa Fashion Week tiveram início esta terça-feira, 30 de setembro, na Embaixada de Itália, em Lisboa, com um final de tarde ameno dedicado aos novos nomes da rede IED – Istituto Europeo di Design, oriundos de polos como os de Bilbau, Turin, Milão, Florença, Roma, Barcelona ou Madrid. IED: REPEAT THE ACTION reuniu peças de Carlotta Gadda, Haiqi Zhou, Daniele Dargenio, Simone Smeriglio, Denise Vecchi, Anna Serra, Arianna Pejrani, Roberto Niutta, Natalia Arroyas, Miguel Conde Garcia-Mochales, Michel Mahfoud, Eloi Sacristan e Ainhize Ganzabal Santiago. Em ritmo acelerado e marcado pelo baterista José Marrucho, as criações serpentearam pelo jardim do palácio do Conde de Pombeiro, um edifício adquirido pelo governo italiano em 1925. A rematar o desfile, uma coreografia assinada por Marco da Silva Ferreira. Com música de Nídia, a performance esteve entregue a Anyah Siddall, Fabiana Injai, Tiago Coelho, Lua Carreira, Bruno Duarte e Guilherme Leal.
Os desfiles no Terreiro do Paço seguem na noite desta sexta-feira e estendem-se até domingo, com Luís Carvalho a encerrar a edição, sempre depois das 22h00.
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