Uma mensagem enviada para o pager de uma jovem modelo no verão de 1997 prometia-lhe uma “boa oportunidade” para conhecer um “tipo muito influente” que poderia ajudar a sua carreira. Segundo o testemunho da mulher — identificada com o nome fictício “Natalie” —, o encontro tinha sido organizado por Jeffrey Epstein e o homem em causa era Mohamed Al-Fayed, então proprietário dos grandes armazéns Harrods, em Londres, e do hotel Ritz, em Paris. “Acho que ainda há muito por desvendar”, afirma Natalie, que mantém contacto com outras sobreviventes de Al-Fayed e disse estar disposta a colaborar com a polícia britânica na investigação à alegada rede de abuso do empresário egípcio. Embora a rede de mulheres traficadas por Epstein entre influentes e poderosos já seja conhecida, este é o primeiro relato que sugere que Al-Fayed — acusado de liderar a sua própria rede de abusos sexuais no Reino Unido e em França — possa ter feito parte desse círculo, revela o The Times.
Natalie tinha 17 anos e trabalhava como modelo quando entrou na órbita de Epstein. “O Jeffrey sabia sempre onde eu estava — digamos que se eu estivesse em Espanha, na Alemanha, em Londres ou em Paris. Ele sabia sempre”, contou ao jornal britânico. Durante aquele verão, o assistente de Epstein disse-lhe que “Mohamed” estava num iate atracado em Saint-Tropez e que deveria encontrá-lo ali. Ao chegar ao cais, a jovem que interrompeu uma sessão fotográfica noutro país europeu para se apressar a viajar para o local combinado diz ter sido recebida num “barco enorme” por um “homem muito mais velho”.
Fotografias de julho de 1997 mostram o filho de Al-Fayed, Dodi Fayed, e a sua então namorada, Diana, princesa de Gales, a bordo do iate Jonikal, ancorado perto de Saint-Tropez durante grande parte do verão. Natalie afirma, contudo, não se recordar de os ter visto, só Mohamed Al-Fayed: “Eu lembro-me do rosto dele. Essas coisas não se esquecem”.
De acordo com o seu testemunho, Al-Fayed começou a fazer comentários de natureza sexual e disse querer “experimentar coisas novas”. Natalie afirma que acabou por ser agredida sexualmente, mesmo que só o tenha vindo a perceber muito mais tarde. “Demorei muito para perceber que o que estava a acontecer comigo era tráfico de pessoas”, afirmou. Após anos sob o controlo de Epstein, Natalie disse que passou a sentir-se em dívida com o empresário, que a levava a eventos de networking e a avisava de que tinha o poder de colocá-la na lista negra do mundo da moda. “Tudo com Epstein era disfarçado de ‘Ah, essa pessoa pode ajudar a tua carreira’”, explicou. “Ele dizia-me que conhecia pessoas no meio da moda, fotógrafos, pessoas realmente influentes.”
E Natalie não é a única. Uma mulher britânica que disse ter sido traficada por Al-Fayed no Reino Unido e na Europa descreveu os métodos alegadamente usados por Epstein e por Al-Fayed como “assustadoramente familiares”, desde o recrutamento e aliciamento de jovens mulheres até à utilização de terminais VIP em aeroportos. Outra mulher, que trabalhou para os Fayed na década de 1990, confirmou que ambos usavam terminais privados nos aeroportos de London Luton e London Stansted, operados pela Harrods Aviation, que está igualmente sob escrutínio das autoridades. Segundo esta testemunha, ambos “conversavam entre si, trocavam informações e ajudavam a facilitar a rede de tráfico um do outro”: “Era um sistema completo, não apenas um homem”.
Registos financeiros indicam ainda que Epstein efetuou pagamentos às empresas de AL Fayed em 2006, incluindo a Harrods Aviation. Além dos pagamentos, registos de aviação mostram que o avião de Epstein chegou a usar terminais privados em Luton e Stansted, onde a Harrods Aviation operava instalações para jatos particulares.
Al-Fayed terá conhecido Epstein através do traficante de armas saudita Adnan Khashoggi, cunhado do empresário egípcio falecido, que o terá contratado na década de 1980 para recuperar dinheiro, segundo uma fonte citada pelo The Times. Também Khashoggi, que morreu em 2017, foi acusado de tráfico de modelos.
A Polícia Metropolitana acelerou a investigação sobre os alegados crimes de Al-Fayed, designada Operação Cornpoppy, nas últimas semanas, após a divulgação dos arquivos de Epstein pelo Departamento de Justiça dos EUA. As autoridades britânicas também mantêm contacto com a polícia francesa, que iniciou a sua própria investigação sobre tráfico sexual por Al-Fayed em novembro. Desde a sua morte, em 2023, mais de 400 mulheres apresentaram denúncias de violação ou agressão sexual contra o egípcio.