O historiador Valentim Alexandre propõe uma “nova abordagem” sobre o fim do “Estado Português da Índia” no seu livro Um Luto Português, Goa na Crise Final do Império.
Investigador jubilado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Valentim Alexandre justifica esta sua “nova abordagem” com um foco exclusivo sobre Goa e por conferir “um maior peso à emergência de um nacionalismo pró-indiano (expresso sobretudo por organizações e movimentos goeses sediados na União Indiana), a par de uma outra corrente que reclamava a autonomia do território na esfera portuguesa”.
Para esta perspetiva, o historiador aponta como “recurso principal” o Arquivo Salazar, onde se encontra “amplíssima documentação”, já que tudo relativo às então colónias era enviado ao ditador, mas onde se encontram também textos oriundos de organizações goesas e recortes da imprensa indiana e internacional.
Nesta obra, o investigador atualizou a bibliografia, nomeadamente os trabalhos de Sandra Ataíde Lobo e de Bruto da Costa, da Universidade Nova de Lisboa, de Carlos Alexandre de Morais, da Universidade de Lisboa, e autores estrangeiros.
Alexandre sublinha que o caso da perda dos territórios portugueses na Índia foi “abafado durante o Estado Novo [1933-1974]” e o assunto “só veio ao de cima décadas depois da mudança de regime” com a Revolução de 1974.
Na obra, Valentim Alexandre inclui uma “análise a longo curso”, dividindo o livro em duas partes: a primeira relativa aos “antecedentes”, num arco cronológico desde finais do século XIX até à década de 1950, “marcado pela emergência do nacionalismo indiano” que culmina em 1947 com a independência da Índia de Inglaterra.
A segunda parte, “sobre o ‘desenlace’, ocupa-se da ‘convulsão final'”, isto é, as pressões que levaram à invasão e as repercussões para Portugal no campo político e ideológico. A obra dedica um capítulo ao resgate dos prisioneiros em solo da União Indiana.
Valentim Alexandre já tinha abordado, em anteriores obras, os acontecimentos nas ex-colónias portuguesas, em 1961, ano em que as tropas indianas tomaram os territórios de Goa, Damão e Diu, sob bandeira portuguesa. E já abordara a questão indiana na sua obra Contra o Vento. Portugal, o Império e a Maré Anticolonial (1947-1960), publicado há cerca de 10 anos.
Porém, o Estado Português da Índia, uma realidade com mais de 400 anos de existência, reveste-se de uma “complexidade e especificidade”.
A opção de tratar o caso da chamada “Índia Portuguesa” à parte, nesta obra, de forma “aprofundada”, é justificada pelo autor pela “complexidade e a especificidade da situação de Goa, muito diferente das vividas no quadro africano” e “o grande peso simbólico que a perda de [Goa], a “Roma do Oriente” representava para Portugal”, nomeadamente a Igreja Católica.
No dia 16 de dezembro de 1961, em pouco mais de 24 horas, as tropas da União Indiana tomaram os territórios sob administração portuguesa, cerca de 4.000 quilómetros quadrados, com pouco mais que 600.000 habitantes.
Nessa altura, já se tinha iniciado a luta armada pela independência em Angola, com várias outras movimentações no mesmo sentido em Moçambique e na Guiné-Bissau.
Para o autor, a integração de Goa, Damão e Diu na União Indiana “representa um primeiro passo, de caráter muito particular, no caminho que será, poucos anos mais tarde, o fim do império colonial português”.