A Renovar a Mouraria assinala a maioridade enfrentando o “desafio gigante” da coesão territorial e da mobilização comunitária num bairro de Lisboa hoje “muito fragmentado” e onde vivem comunidades “fragilizadas e muitas vezes antagonizadas”.
A organização não-governamental para o desenvolvimento de utilidade pública, que há 18 anos trabalha na revitalização da Mouraria, através de iniciativas comunitárias, educativas e culturais, tenta agora perceber “como juntar as realidades tão diferentes que existem nas diferentes ruas” de um dos bairros mais típicos de Lisboa.
“É como se tivesse diferentes bairros dentro dele próprio, porque, por um lado, temos as pessoas migrantes, muito focadas na Rua do Benformoso, por outro lado, temos os portugueses que ainda ficaram a viver aqui, embora muitos tenham saído, e por outro temos estes novos habitantes, outro perfil de estrangeiros, em casas mais de segmento de luxo e médio-luxo”, descreve a coordenadora geral, Filipa Bolotinha, à agência Lusa, à porta da sede da associação.
Estes “vários mundos” — assinala — “não se veem” e “não se relacionam” e “vivem este bairro de uma maneira muito diferente”.
Perante este cenário, “o grande desafio é como voltar a fazer com que a Mouraria seja um bairro coeso”, sendo que se algo não mudou nestes 18 anos foi o “estigma”, aponta.
“Sempre que se fala da Mouraria na comunicação social nunca é por bons motivos”, lamenta, realçando que, no atual ambiente político e social, é preciso “continuar a chegar às pessoas e sensibilizá-las para tantas questões que são fundamentais”.
Atualmente, o trabalho da associação, com uma equipa de 11 pessoas a tempo inteiro, divide-se em três grandes áreas: acolhimento e inclusão das pessoas migrantes, coesão territorial e desenvolvimento comunitário e promoção e produção cultural e artística.
O trabalho de acolhimento e inclusão das pessoas migrantes é executado pelo Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM), que funciona na sua sede, integrando a rede nacional.
Uma coordenadora, um jurista, uma assistente social e duas mediadoras interculturais (mulheres do Bangladesh) fazem atendimento presencial para ajudar com a documentação, o acesso à saúde e à educação e a empregabilidade (elaborar currículos, preparar entrevistas, fazer pontes com empregadores).
“As questões sociais são muito transversais, mas prendem-se muito com a questão da habitação, alimentação, acesso a alguns apoios sociais a que as pessoas têm direito, mas não sabem que podem recorrer aos mesmos”, relata Joana Deus coordenadora do CLAIM, à Lusa.
“As situações têm sido mais complexas ultimamente, com as alterações à lei da imigração”, assinala, referindo casos que “estão no limbo” e “respostas muito discricionárias”.
Notando que “as pessoas estão cada vez em situação mais vulnerável”, Joana Deus refere que há mais pessoas migrantes, que, mesmo trabalhando, estão em condição de sem-abrigo ou a viver em abrigos.
A técnica prevê uma inflexão na imigração, dado que “já não é quase possível regularizar-se, mesmo trabalhando”, quando “antes existiam, legalmente, caminhos possíveis para as pessoas estarem em situação regular” em Portugal.
“Andamos sempre aqui na roda do hamster. Temos pessoas que estão numa situação de contrato, descontos para a Segurança Social, só que, como não têm mais de 12 contribuições antes da manifestação de interesse, já não se conseguem regularizar, mas estão perfeitamente integradas, com as famílias, (…) os filhos na escola, com contrato de trabalho, habitação”, conta.
“O que nós vamos ter de fazer num ano ou dois é reestruturar aqui a coisa um bocadinho, porque se calhar não vamos conseguir manter uma estrutura com estas características se a política pública sofrer mais inflexões”, antecipa Filipa Bolotinha.
Um dos projetos com “mais anos e mais importante” da Renovar a Mouraria é o apoio ao estudo para crianças e jovens, que conta com cinco dezenas de voluntários que acompanham outros tantos estudantes a cada ano letivo.
A associação disponibiliza ainda cursos de “Português – Língua não materna”. “No ano passado, e este ano há de replicar, devemos ter feito uns dez cursos e, portanto, cerca de 200 pessoas, pelo menos, deram os passos iniciais na aprendizagem”, estima a coordenadora.
Há grupos de mulheres e de vizinhos e também visitas guiadas por migrantes ao bairro e pelo menos um evento cultural por mês.
A associação disponibiliza também o espaço a outros coletivos. “Sabemos que hoje em dia ter um espaço nesta zona da cidade é um privilégio, porque eles estão todos a desaparecer”, reconhece Filipa Bolotinha.
Para assinalar o seu 18.º aniversário, a Renovar a Mouraria vai realizar um arraial no Largo da Rosa, no sábado, entre as 11h00 e as 23h00, com uma programação para todas as idades.
As receitas angariadas na festa são fundamentais para o funcionamento da associação, que voltará a realizar os já típicos arraiais do 25 de Abril e de Santo António e lançou ainda um apelo para angariar mais sócios, baixando o valor da quota anual para cinco euros.