Já lá vai o tempo em que a Inteligência Artificial (IA) era um tema de debate meramente tecnológico. Hoje, ela faz parte do dia a dia das empresas e materializa-se das mais variadas formas. Desde assistentes digitais a ferramentas de análise de dados e automação, as aplicações multiplicam-se. Se é certo que a adoção desta tecnologia, por parte das empresas, tem vindo a acelerar, também é verdade que muitas organizações ainda se encontram num processo inicial de implementação. Apesar do investimento crescente neste âmbito e da expectativa em torno das suas potencialidades, transformar projetos de IA em projetos concretos e escaláveis continua a ser um desafio para a realidade de muitas empresas.

O Estudo “The State of AI in the Enterprise: The Untapped Edge”, realizado pela Deloitte, já deu a conhecer o resultado da edição deste ano. Partindo da análise da forma como as empresas estão a adotar e a escalar esta tecnologia, bem como o impacto real nos respetivos modelos de negócio, foi possível concluir-se que existe uma transição clara da fase de piloto para uma adoção mais ampla e estruturada de soluções com base em IA, como parte integrante do trabalho diário destas empresas. De acordo com o estudo, o número de empresas com 40%, ou mais, dos projetos de IA já em fase de implementação deverá duplicar nos próximos seis meses. Para chegar a estas e a outras conclusões o estudo contou, pela primeira vez, com a perspetiva de 15 empresas portuguesas – uma novidade importante para o país e para o tecido empresarial. Importa referir que este estudo se baseia num inquérito realizado, entre agosto e setembro de 2025, a 3.235 líderes empresariais e de Tecnologias e Informação de 24 países, incluindo Portugal, e em entrevistas a executivos e responsáveis de IA e ciência de dados, de grandes organizações, em diferentes setores e geografias. Todas as empresas inquiridas contam com, pelo menos, uma implementação de IA em funcionamento diário e/ou projetos-piloto ativos.

Conheça algumas conclusões

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  • 60% dos trabalhadores já utilizam ferramentas de IA autorizadas pela organização, um aumento de 50% num único ano;
  • Apenas 34% das organizações estão a usar IA para transformar profundamente o negócio, apesar de a maioria já registar ganhos de produtividade;
  • 84% das empresas ainda não redesenharam os empregos em torno da IA, mesmo quando 82% esperam que pelo menos 10% dos postos de trabalho sejam totalmente automatizados nos próximos três anos, tornando o talento o principal desafio da integração da IA;
  • Em Portugal, são mesmo 100% das empresas inquiridas que têm pelo menos uma solução de IA em funcionamento diário;
  • Cerca de um terço dos inquiridos consideram que a IA já está a transformar substancialmente a sua organização e o seu setor, e 27% acreditam que tal vá acontecer dentro de menos de um ano;
  • 25% dos inquiridos consideram que a IA já tem um impacto transformador nas suas empresas, porém, apenas 30% estão a redesenhar processos fundamentais com base na tecnologia, enquanto 37% admitem utilizá-la de forma superficial.

Mas, afinal, estarão as organizações preparadas para esta mudança?

Hervé Silva, Lead Partner de IA & Data, da Deloitte, esteve à conversa com o Observador e ajudou-nos a entender melhor algumas das conclusões. Segundo o estudo, o verdadeiro potencial da IA reside na sua capacidade de criar diferenciação estratégica e vantagem competitiva duradoura, indo além da otimização incremental do que já existe. Isto exige não só repensar processos, mas também o próprio trabalho e modelos operacionais.

As empresas estão preparadas para essa mudança cultural, para a capacitação de que é necessário realizar? De que forma se podem tornar mais resilientes neste sentido? “Nós temos ali uma percentagem, mais ou menos em torno dos 34%, que reconhece estar a reimaginar o seu negócio, ou seja, no limite, até a transformar efetivamente o seu negócio. Depois, há um terço que está a redesenhar os seus processos, entenda-se aquilo que fazem hoje, mas de maneira diferente. Depois, há o remanescente, ou seja, quem está a colocar IA em cima dos processos atuais, automatizando algumas tarefas. Eu diria que isto é compreensível face ao estado de maturidade não só da tecnologia, que é muito elevada à data de hoje, mas também pelo ponto de partida das organizações naquilo que é esta transformação. As organizações têm optado por tirar partido daquilo que é mais imediato, do que são os ganhos de produtividade, dos ganhos de eficiência, do que é alguma aceleração e automatização dos processos atuais. No que diz respeito à componente de transformação dos negócios e de redesenhar completamente áreas dentro das organizações, é mais desafiante, porque é preciso repensar os processos quase de raiz. Isto é tão intrusivo, ou pode ser tão intrusivo, o poder de transformação é tão elevado, que realmente exige repensar áreas, exige repensar processos end to end, com implicações naquilo que são os sistemas que existem à data de hoje”.

O Lead Partner acrescenta a esta lista o fator pessoas. Para além de redesenhar negócios e formas de trabalhar, existe a necessidade de as pessoas se mostrarem disponíveis para observar a transformação e ajudarem na criação do impacto que se pretende. “Se há organizações que o estão a fazer? Sim, isso já acontece e nós já vemos isso no terreno. Estão a fazê-lo e, no meu entendimento, bem. Em paralelo com aquilo que também é mais imediatista e que tem impacto real no curto prazo, designadamente ao nível da eficiência e produtividade”, sublinha.

Com o surgimento da IA no quotidiano das organizações, surgem também termos como a governação e a gestão de risco que se assumem como fatores a ter em conta. Como estão as empresas ao nível da regulação? Estarão a acompanhar esta necessidade ou podemos dizer que a tecnologia está a avançar mais depressa do que a regulação interna? “Neste caso em concreto, a velocidade de evolução da tecnologia é algo em que, eu diria, não temos paralelo. É histórico, em termos daquilo que é a rapidez e a rapidez de dispersão. Ou seja, não só evolui muito rápido, como aparecem coisas diferentes, novas, e em grande volume, o que é mesmo muito difícil de acompanhar. Não só pela abrangência horizontal da oferta, como também pela profundidade daquilo que vai sendo disponibilizado no mercado. Diria que era quase impossível nós conseguirmos acompanhar, na componente mais de governance – que está muito associada às organizações e à velocidade das mesmas -, essa mesma velocidade. Acho que há uma consciência efetiva de que o desafio é grande”, partilha Hervé Silva, adicionando à conversa o tema dos agentes.

Muitas organizações inquiridas confirmaram estar a fazer uso deste elemento e uma percentagem mais significativa revelou que ainda o pretende fazer. O problema reside ao nível de governance, onde é notória a falta de preparação para responder ao desafio que são estes elementos. “Quando estávamos a falar ao nível dos chatbots, ao nível das bases de dados, de conhecimento, havia muito receio relativamente à qualidade do output. Hoje em dia, com os agentes, em última instância, os agentes autónomos, podemos estar a falar de algo que está a decorrer na perspectiva da execução propriamente dita naquele momento, de forma não supervisionada, e que eu estou confiante no respetivo resultado. E, por isso, todas as cadeias daquilo que são momentos de validação, de aprovação, têm de ser revistas. E é impossível, face à escala e à abrangência do impacto que a IA tem, todas as organizações já o terem feito e estarem devidamente confortáveis nesse capítulo. Isso, inclusive, é um dos travões naquilo que é a adoção a que estamos a assistir”, esclarece.

Que os sistemas de IA se tornarão mais autónomos e capazes de executar tarefas complexas, isso ficou claro ao longo de toda a conversa. Que existem empresas que reportam ganhos incrementais de produtividade, que advêm do uso de ferramentas de IA, é também outra das conclusões do estudo. Mas face a estas e outras tendências, o que esperar do futuro? Hervé Silva deixa um conselho a todas as organizações, reiterando a importância de “não ignorarmos a tendência. Cada um de nós tem de ter competências em IA, sobretudo competências de utilização. Há uma componente formativa, que não é só de awareness, de saber que o fenómeno está a acontecer, mas realmente é importante termos o mínimo de formação na sua utilização. Depois, é olharmos para tudo aquilo que nós fazemos, seja na perspetiva de organização, seja na perspetiva individual, pessoal, profissional, devemos pensar em fazer diferente. Não se justifica estarmos ancorados a uma forma de trabalhar”.

Para o expert, este é um ponto positivo, uma vez que, atualmente, existem formas de trabalhar que deixam de fazer sentido ou que encontram, nesta tecnologia, uma forma mais eficaz e eficiente de serem realizadas. “Muitas das coisas que fazemos nem sequer nos motivam pelo facto de não serem tão desafiantes. Por isso, ainda bem que temos uma resposta alternativa para o efeito”, diz ainda, sobrando espaço para um outro conselho: o de experimentar. Não só arranjar formas diferentes de fazer o que já se faz, mas de apostar em algo novo e diferenciado. “E isto também é válido ao nível das organizações. Nós, enquanto mentores dessa transformação das organizações, devemos pensar no que podemos, de alguma forma, abrir novos horizontes, inclusive de novos negócios, novas linhas de negócio, de formas de endereçar segmentos de mercado que, porventura, as organizações hoje em dia não estão a endereçar, porque não eram possíveis até então. Não eram economicamente viáveis, mas passam a sê-lo com estas novas tecnologias”, remata.

O futuro será das empresas que se reinventam, que arriscam e que olham para estas novas ferramentas como uma oportunidade. A preocupação já não é se a IA irá transformar as organizações, mas sim como conseguirão elas transformá-la em vantagem real. Uma mudança que não acontecerá de um dia para o outro, mas que já arrancou a uma velocidade sem precedentes. Pronto para dar esse passo? Leia o estudo completo, aqui!