Depois de 10 dias confinados numa pequena cápsula que voou em torno da Lua e seis dias após o regresso à Terra, a tripulação da missão Artemis II voltou a estar reunida. Em Houston, no Johnson Space Center, os quatro astronautas — Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen — deram uma conferência de imprensa para contar o que viram e viveram naquela que foi uma missão espacial inédita. Alguns elementos da equipa admitem o “choque” com a sensação de voltar a sentir gravidade.
“Lançámos como amigos e voltamos como melhores amigos”, afirmou o comandante Reid Wiseman, que fez uma declaração antes das perguntas da imprensa. “É ótimo estar sentado e ver a missão a passar.”
O comandante da missão aproveitou a oportunidade para agradecer “ao mundo”, para além da tripulação que está sentada ao seu lado. “Estamos ligados para sempre. Estivemos o mais próximo que seres humanos podem estar uns dos outros sem serem família”, afirmou.
Regresso vivido “numa bolha”, a “digerir” a experiência e em “choque” com a gravidade
Os últimos dias foram dedicados a exames médicos e trabalhos de continuação da missão, pelo que a tripulação confessa ainda não ter tido “tempo para digerir” a experiência — Victor Glover, o piloto, diz que tem tentado “viver numa bolha”. Sublinha que, na passada sexta-feira, dia do splashdown no Pacífico, sentia-se como “um milhão de dólares”. Agora, sente-se como “um milhão e seis dólares”. Christina Koch reforça que estão todos ainda “muito cansados”, mas que as horas de sono ao longo desta última semana “tem sido ótimo”.
“Sempre que acordo, penso que estou a flutuar e tenho de me convencer que não estou”, conta a astronauta. Mas em contraste com aquilo que sentiu após os mais de 300 dias que passou na Estação Espacial Internacional, a especialista de missão revela que, após ter regressado da Lua, chegou a colocar uma t-shirt no ar, à espera que se mantenha no sítio, e que ficou “chocada” quando caiu — algo que nunca tinha acontecido após uma missão. Já Jeremy Hansen, o único canadiano a bordo, brinca que tem dormido “muito melhor” já que não “leva com os pontapés de Reid [Wiseman]”.
Os quatro astronautas revelam ter voltado com o sentimento de “missão cumprida”. “Fizemos aquilo que dissemos que íamos fazer”, referiu Victor Glover, apoiado pelo canadiano, que destacou o suporte emocional dentro da nave Integrity. “Apoiámos-nos uns nos outros e no controlo de missão. Fomos sabendo que não ia ser perfeito, mas acho que foi bom o suficiente”, admitiu Jeremy Hansen.
“Fomos muito bons e apoiantes uns dos outros. Sabíamos, lá no fundo, que qualquer coisa poderia correr mal, o que causava alguma ansiedade”, contou Reid Wiseman, revelando que no penúltimo dia de missão, tocou um alarme de incêndio na cápsula Orion, o que causou “alguma tensão”. O problema foi resolvido, conta, por terem definido logo no início da missão que não haveria “mãos rápidas”, que todos os impasses seriam resolvidos com comunicação e em equipa.
Aí, o comandante lançou que a cápsula, na configuração atual, está pronta para ser lançada no âmbito da Artemis III — com um novo agradecimento aos parceiros internacionais, incluindo a ESA, pela “máquina” que quase não deu problemas. Até a sanita, que foi um dos temas que implicou maior comunicação entre a Orion e Houston para resolver situações pontuais, Reid Wiseman disse que funcionou de forma “maravilhosa”.
Regresso à Terra é como “saltar de costas do topo de um arranha-céus”
Um dos temas centrais da conferência de imprensa foi a saúde mental dos astronautas. Victor Glover reforçou a presença de uma equipa profissional de apoio psicológico durante toda a viagem, mesmo que não tenha havido muito “tempo individual”. “Tudo o que fizemos era uma atividade de quatro pessoas. Quando o Jeremy fazia exercício, todos fazíamos exercício”, conta o piloto.
Victor Glover também recordou “os 13 minutos mais intensos” da missão, no regresso à Terra. “Nunca saltei de paraquedas, mas imagino que esta experiência seja como saltar de costas do topo de um arranha-céus”, desabafou o astronauta.
O comandante admitiu, também, que se emocionou quando olhou para um dos membros da equipa de resgate, após terem amarado na costa de San Diego, quando viu uma cruz no seu peito — apesar de não ser religioso. Já Christina Koch admitiu ter chorado quando o marido revelou que a astronauta “tinha feito a diferença”. “Era tudo o que queríamos”, confessou a especialista de missão.
“Os humanos são ótimas pessoas”, soltou Jeremy Hansen, naquela que foi uma das principais conclusões que retirou no regresso a Terra. “O que vi trouxe-me uma grande felicidade e uma grande esperança [na Humanidade]”, acrescentou o canadiano, sobre o apoio que tem recebido da população.
Os quatro astronautas aproveitaram ainda para deixar uma mensagem às futuras gerações, aos próximos astronautas ou pessoas que descobriram uma nova paixão ao acompanhar a missão Artemis II. “Têm de ir fazer as coisas que querem fazer”, destacou o comandante, enquanto o piloto recomendou “confiar na sabedoria da vila”, referindo que é importante “ouvir os pares e os mentores”.
Sobre a diversidade da tripulação desta missão — e de todo o programa Artemis, cujas missões tripuladas vão incluir, obrigatoriamente, uma mulher e um homem negro —, Christina Koch reitera que seria “ainda mais complicado fazer o oposto”, devido à atual composição do corpo de astronautas da NASA. “Estamos tão orgulhosos das pessoas do nosso corpo de astronautas por terem alcançado e estado à procura de excelência [em tudo o que fazem]”, afirmou.
Durante toda a conferência, os astronautas reforçaram o sentimento de união que sentiram antes, durante e agora, depois da missão. Não só entre astronautas, mas também entre todos aqueles que participaram na viagem a partir da Terra. “Se é que fizemos alguma coisa, foi o mínimo”, disse Christina Koch, elevando os esforços dos engenheiros, cientistas e todos aqueles envolvidos no projeto. Ainda assim, Victor Glover destacou a primeira fotografia que tiraram da Terra — em que conseguem identificar auroras boreais — como a sua favorita das centenas que tiraram naqueles dez dias. “Mostra o quão longe estávamos, mas mostra-vos também [a humanidade]. E fizemos isto juntos”, afirma o piloto, revelando que a imagem foi captada por Reid Wiseman (não à primeira tentativa).
Acima de tudo, a tripulação da Artemis II mostrou-se “entusiasmada” para dar os próximos passos do programa que culminará com o início da construção da base lunar, em 2028. “Dois dias depois de termos voltado, já estávamos a testar os fatos para missões na superfície lunar”, disse Christina Koch. O comandante brincou ainda que se tivessem um módulo para alunar pronto, “pelo menos três dos astronautas” teriam aproveitado a oportunidade para pisar a superfície lunar.
No final da conferência de imprensa, foram questionados sobre o momento que teria de ser obrigatoriamente incluído num filme de adaptação da missão que protagonizaram. “Um filme não lhe faria justiça, teria de ser uma série”, garantiu Victor Glover. Christina Koch fez questão de mencionar que qualquer filme ou série feito para representar aqueles 10 dias de viagem, “teria de mostrar o quanto significou para nós trazer toda a gente e retratar que a missão teve um impacto” verdadeiro em todo o planeta. “Queríamos que fosse uma missão do mundo”.