Quem chegou às imediações do Estádio do Dragão ao final da tarde, quando ainda faltavam algumas horas para o apito inicial da receção do FC Porto ao Alverca, deparou-se com duas figuras que estavam a causar gargalhadas generalizadas: dois adeptos, com dois lençóis brancos vestidos, e a inscrição “Ajax”. Quem eram? Os fantasmas de Francesco Farioli, que tinham aparecido para se despedirem definitivamente do treinador italiano.

Só ele podia fazer este golo, todos eles mereciam este golo (a crónica do FC Porto-Alverca)

Com lençóis ou sem eles, a verdade é que Francesco Farioli conseguiu mesmo despedir-se dos fantasmas. Um ano depois de ter perdido o Campeonato nos Países Baixos, desperdiçando uma larga vantagem que o Ajax chegou a ter para oferecer o troféu ao PSV, o treinador italiano esqueceu os dias mais difíceis e sagrou-se campeão nacional em Portugal — conquistando o primeiro título da carreira como figura maior e principal do projeto desenhado e imaginado por André Villas-Boas.

Farioli é o primeiro treinador estrangeiro a ser campeão nacional pelo FC Porto em 20 anos, sucedendo a Co Adriaanse, e junta-se a uma longa lista de técnicos campeões pelos dragões na temporada de estreia, sendo que o último tinha sido Sérgio Conceição. Além disso, é também o  segundo treinador italiano a conquistar a Primeira Liga, depois de Giovanni Trapattoni pelo Benfica em 2004/05.

Parte ativa da festa que se viveu no relvado do Estádio do Dragão desde o primeiro momento, acedendo aos pedidos dos jogadores e sendo atirado ao ar pelo grupo, Francesco Farioli conseguiu reunir as tropas para mais um grito de guerra e ainda saltou com a respetiva equipa técnica antes de receber a mulher e os filhos no meio das celebrações. Emocionado durante toda a homenagem a Jorge Costa, sem conter as lágrimas abraçado a André Villas-Boas, voltou a recordar o antigo internacional português na zona de entrevistas rápidas.

“A nossa força durante a época foi o Jorge. Uma das coisas que ele disse no início da época é que tínhamos uma equipa outra vez. Demos tudo o que tínhamos para vencer e em pequenas coisas deu para ver a sua presença. Os dois cortes em cima da linha são o ADN do Jorge Costa. Fisicamente não está connosco, mas está connosco em pensamento”, começou por dizer.

Mais à frente, o italiano reconheceu que ainda estava a assimilar o facto de ter conquistado o Campeonato. “Ainda estou a processar o que aconteceu, estava muito focado no jogo até ao último minuto. O Jorge [Costa] ajudou-nos com algumas defesas. Estou muito feliz por toda a gente. Pelo presidente, por este grupo, pelo Jorge [Costa] e por todos os adeptos, que voltam a festejar após tantos anos sem a conquista da Liga”, acrescentou.

“O meu objetivo era trazer a energia certa para a equipa e conseguimos vencer. Durante a época tivemos momentos diferentes, hoje era mesmo o cruzar da meta. Estou feliz por festejar com os adeptos e não podia ser melhor. Aceitei a proposta do presidente no início da temporada, foi isso que fiz bem. Nada mudou, sou a mesma pessoa. Isto é futebol e agora a noite é de festa”, atirou.

Mais tarde, já na sala de imprensa do Estádio do Dragão, Francesco Farioli voltou a falar de Jorge Costa. “Quando vim, disse jogo a jogo. Parece algo repetitivo, mas é a nossa maneira. Comecei a aperceber-me dois minutos antes do final do jogo. O momento mais emocionante foi o da bandeira do Jorge [Costa]. Esta noite, senti ainda mais que o comum, com os cortes do Alan Varela e do Alberto, debaixo da sua bandeira. Não é uma coincidência. De outro lugar, ajudou-nos a cumprir o seu sonho. Foi a mensagem que me deu. Dedico a ele, à pessoa que me permitiu ser treinador do FC Porto, o presidente André Villas-Boas. Quando nos conhecemos, demorámos três minutos a conectar-nos e a ter o sentimento de que era a escolha certa. A todos os que trabalham com os jogadores, à minha família…”, atirou, antes de encurtar a conferência de imprensa por ficar completamente encharcado depois de vários jogadores invadirem a sala para despejar uma geleira cheia de gelo em cima do trienador.