Há menos diretores escolares com 61 anos ou mais, pelo que parece haver uma tendência para a renovação geracional desta função. Os dados são da ANDAEP (Associação Nacional de Agrupamentos e Escolas Públicas), que divulgou esta quinta-feira um inquérito feito aos diretores escolares. O estudo revela ainda que estes responsáveis estão mais insatisfeitos com a função que desempenham e quase um terço (31%) admite não voltar a concorrer ao cargo. Mostram-se descontentes com o excesso de burocracia e trabalho administrativo que têm de enfrentar, assim como o suplemento remuneratório que auferem.
Entre 30 de janeiro e 20 de fevereiro, 457 diretores escolares responderam ao inquérito realizado pela ANDAEP, onde foram confrontados com a pergunta: “Como perspetiva o seu futuro como diretor(a)?”
Os dados indicam que um terço (33,9% dos inquiridos) espera ser reconduzido no final do respetivo mandato. Mas, logo atrás, 31,1% afirmam que querem “terminar o presente mandato e não voltar a concorrer” e 2,4% dizem que nem sequer pretendem terminar o mandato atual.
A insatisfação dos diretores aumentou face a 2024, mostra este estudo. Nesse ano, 45,10% dos inquiridos diziam estar “satisfeitos” com o cargo de diretor, mas o valor baixou 6,35 pontos percentuais em 2026.
Atualmente, só 38,73% dizem estar satisfeitos no exercício deste cargo. E este valor baixa para 27,57% quando falamos dos diretores que se sentem “moderadamente satisfeitos” com as atuais funções. Face a 2024, houve uma queda de 2,53 pontos percentuais neste grau de satisfação (ano em que se estabeleceu nos 30,10%).
A ANDAEP divulga ainda que, em 2026, 13,57% dos inquiridos diziam estar “pouco satisfeitos” e 3,94% “nada satisfeitos”, sendo que estes foram os únicos graus de satisfação que aumentaram face a 2024.
Estudo da ANDAEP
“Existe alguma correspondência entre o grau de satisfação e o mandato em que se encontram”, lê-se ainda neste estudo. De facto, a percentagem mais elevada de diretores “pouco satisfeitos” com o seu cargo corresponde aos diretores que estão agora no seu primeiro mandato: 5,03%.
Diretores criticam valor do suplemento e excesso de burocracia
O aspeto que os diretores consideram mais urgente alterar tem que ver com o suplemento remuneratório que recebem para desempenhar este cargo, cujo valor depende do número de alunos que estudam nessa escola e que pode ir até 750 euros.
Segundo a nota informativa do IGeFE (Instituto de Gestão Financeira da Educação) publicada em fevereiro de 2025 sobre o processo de remuneração para o atual ano letivo, caso uma escola tenha mais de 1.800 alunos, o diretor receberá um suplemento de 750 euros, valor que não se altera caso a escola tenha entre 1.501 e 1.800 alunos. O valor mais baixo deste suplemento fixa-se nos 200 euros, para escolas com até 300 alunos.
IGeFE
Dos inquiridos, 265 (58%) afirmam não estar “nada satisfeitos” com o valor deste suplemento, que permanece inalterado desde 2009. E apenas 5,3% dizem estar “satisfeitos” ou “muito satisfeitos”. Neste sentido, quase todos os diretores (90,6%) consideram que esta deve ser a prioridade.
Porém, há mais aspetos que os diretores apontam como crítica ou fator de insatisfação no exercício deste cargo. Em causa está, em primeiro lugar, o “excesso de burocracia e trabalho administrativo”, onde se inclui por exemplo o preenchimento de dados em plataformas informáticas. De acordo com o relatório, este aspeto foi “indicado pela quase totalidade dos diretores como uma dificuldade ‘muito relevante (74,6%) e ‘relevante’ (21,9%)”.
Um dos resultados deste excesso de burocracia é “a escassez de tempo para estar com professores e alunos”, um fator negativo também indicado pelos diretores. No estudo, estes responsáveis apontam ainda como “dificuldades de relevo”: o nível de desgaste associado ao exercício do cargo, as alterações legislativas constantes e ainda a pressão exercida pelas famílias.
Escolas “devem blindar desejos de influências de política local” na eleição do diretor
O estudo da ANDAEP revela ainda que diminuiu a percentagem de diretores com idade igual ou superior a 61 anos, sendo atualmente de 13,35%. Ainda assim, mantém-se a predominância de diretores entre os 51 e 60 anos, que corresponde a 61,60% (em 2024 era de 52,30%).
Dos inquiridos, 45,1% (a maior percentagem) encontra-se no seu primeiro mandato enquanto diretores, pelo que “existe uma tendência para a renovação” geracional, lê-se no relatório.
No que toca ao modelo de administração das escolas, praticamente metade dos inquiridos (46,4%) “entende que a escola deve ser dirigida por um órgão colegial”, ou seja através de uma estrutura de gestão partilhada, onde as decisões são tomadas por um grupo de representantes e não apenas por uma única pessoa, neste caso o diretor. Mas o inquérito indica que 41,9% dos diretores inquiridos acham que as escolas devem ser geridas apenas por uma única entidade.
No que toca à forma de eleger o diretor, mais de metade dos inquiridos (54,5%) consideram que o corpo eleitoral deve “ser constituído por todo o pessoal docente e não docente da escola, representantes de pais e encarregados de educação e representantes de alunos em escolas com ensino secundário”.
Por outro lado, 37,2% consideram que deve manter-se o sistema atual, nomeadamente a eleição feita pelo Conselho Geral. E apenas 4,4 % indicam que “os diretores devem ser designados pelo Ministério da Educação e não por eleição”.
“Reforça-se, assim, a ideia de que os diretores acham que as escolas devem, na medida do possível, blindar eventuais desejos de influencias de política local na eleição”, conclui ainda o estudo.