Quis o destino que, ao fim de 22 anos de jejum, a maior das alegrias aparecesse numa terça-feira insuspeita, fora dos relvados e com ainda uma jornada por disputar. Depois da vitória do Arsenal na segunda-feira contra o Burnley, o Manchester City estava obrigado a vencer o Bournemouth para levar a corrida pela Premier League até ao derradeiro fim de semana — mas empatou e os gunners, juntos e a assistir ao jogo no centro de treinos, sagraram-se campeões ingleses.

O Arsenal não conquistava a Premier League desde 2003/04, temporada em que a mítica equipa de Arsène Wenger se tornou a primeira — e ainda única — a sagrar-se campeã inglesa sem qualquer derrota, merecendo a alcunha The Invincibles, “Os Invencíveis”. 22 anos depois, Mikel Arteta conseguiu resgatar e recuperar um clube que andou pelo oitavo lugar, longe das competições europeias e afastado das lutas que pertenciam a Manchester United, Chelsea, Liverpool ou Manchester City.

Londres é pequena para quem nunca deixou de ser grande: Arsenal aproveita empate do Man. City e sagra-se campeão inglês 22 anos depois

Os gunners vão entrar na última jornada, em Londres e em casa do Crystal Palace, já como campeões e a uma semana da final da Liga dos Campeões contra o PSG — a primeira em 20 anos, depois da derrota contra o Barcelona em 2006, que para os adeptos alimenta o incomparável sonho de serem campeões ingleses e europeus na mesma temporada. O universo do Arsenal explodiu na noite desta terça-feira, com milhares de adeptos a juntarem-se nas imediações do Emirates durante o jogo do Manchester City, enquanto que os jogadores, a equipa técnica e todo o staff festejaram efusivamente no Sobha Realty Training Centre. Nas redes sociais, antigos jogadores (e campeões) como Thierry Henry, Dennis Bergkamp ou Robert Pirès assinalaram o triunfo, enquanto que Ian Wright, um dos nomes mais míticos da história do clube, saiu mesmo às ruas de Londres para celebrar com os adeptos.

E se é certo que grande parte da conquista terá sempre de ser atribuída aos jogadores, entre a longevidade de Bukayo Saka, o contributo de Eberechi Eze e Viktor Gyökeres, a fortaleza de Gabriel Magalhães e Saliba e a atitude de Declan Rice, Odegaard ou Kai Havertz, o triunfo do Arsenal terá um único homem como grande responsável: Mikel Arteta. O espanhol de 44 anos chegou em 2019 para agarrar o primeiro desafio como treinador principal, já que até aí tinha sido apenas adjunto de Pep Guardiola no Manchester City, e revolucionou um clube por que se apaixonou ainda como jogador.

Ainda sem tempo ou espaço para declarações oficiais, já que foi campeão sem jogar, a primeira reação de Mikel Arteta ao que aconteceu esta terça-feira ficou reservada para um curto vídeo publicado nas redes sociais. “Fizemos história novamente, juntos. Não poderia estar mais feliz, mais orgulhoso por todos os envolvidos neste clube de futebol. Vamos desfrutar deste momento”, disse o treinador, que como jogador representou os gunners entre 2011 e 2016, terminando mesmo a carreira em Londres.

Nos últimos sete anos e até esta terça-feira, Mikel Arteta só tinha conquistado uma Taça da Liga e uma Community Shield, um palmarés curto para tantos milhões de investimento, tanta promessa e tantas temporadas em que parecia mesmo que o Arsenal poderia ir mais longe. Ainda assim, o projeto e o processo do treinador espanhol nunca foram colocados em causa pela estrutura — e, passo a passo, este acabou por conseguir desenhar um dos maiores clubes do mundo à sua própria medida.

Vindo de todo o sucesso do Manchester City ao longo das últimas décadas, Mikel Arteta levou para o Arsenal um espírito que há muito não se respirava no clube: a ideia de que, afinal, era mesmo possível vencer. Aposta clara e absoluta dos donos dos gunners, os norte-americanos da família Kroenke que também detêm os Los Angeles Rams da NFL e os Denver Nuggets da NBA, contou sempre com essa relação privilegiada para se manter reforçado e a verdade é que, mesmo ao longo de anos em que pouco ou nada conquistou, raramente se ouviu falar na possibilidade de ser despedido ou de pedir a demissão, numa estabilidade que não se via desde os tempos de Arsène Wenger.

O Arsenal investiu cerca de mil milhões de libras no mercado de transferências desde que Mikel Arteta chegou, destacando-se os 116 em Declan Rice, os 75 em Kai Havertz ou os 70 em Zubimendi. Ainda assim, o valor não fica longe dos investidos por Manchester City, Chelsea ou Liverpool — o que mudou, na verdade, foi a qualidade e a eficácia dos investimentos, numa política de contratações moldada para o estilo de jogo do treinador espanhol e onde raramente, nos últimos anos, um novo ativo não se tornou um elemento importante para o plantel.

Contudo, Arteta continuou a olhar para dentro. Para além de Bukayo Saka, figura maior da relevância da formação para o clube que é o único jogador que estava no primeiro onze inicial do treinador e que ainda se mantém no plantel, o espanhol apostou no lateral Myles Lewis-Skelly e no extremo Max Dowman (que, aos 16 anos, é o mais jovem de sempre a conquistar a Premier League), tem nos emprestados Reiss Nelson e Ethan Nwaneri dois elementos que voltarão sempre à equipa e vendeu cara a ida de Emile Smith Rowe para o Fulham.

Depois, existiram as questões mais práticas. Mikel Arteta acredita e defende profundamente o trabalho de equipa e a criação de sinergias, alterando a arquitetura das salas no centro de treinos para que existissem mais espaços de convívio e colaboração. Na equipa técnica, revolucionou a Premier League e o futebol europeu através da inclusão de Nico Jover, francês especialista em bolas paradas que construiu uma ferramenta que só no Campeonato deu 19 golos aos gunners.

Por fim, a criação de objetivos. Para além do decalque com o formato da Premier League que está à porta do balneário e que só se acenderia quando o Arsenal fosse campeão, Mikel Arteta plantou uma oliveira em frente à janela do próprio escritório no centro de treinos logo em 2019 e viu-a crescer todos os dias ao longo dos últimos sete anos. A ideia? É necessário regá-la para que cresça. Tal como aconteceu com o próprio clube. Tudo, para o espanhol e para o Arsenal, é um símbolo — 22 anos depois, os símbolos significam finalmente mais do que apenas um sonho.