Os incêndios estão a mudar: são mais rápidos, mais violentos e mais imprevisíveis. Foi sob este mote que a The Navigator Company reuniu, na quinta-feira, especialistas, decisores públicos e entidades privadas no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz.
Intitulado “Incêndios florestais: o fogo está a mudar – e nós? Ciência, território e gestão na construção de novas paisagens”, o encontro teve como objetivo debater prevenção, combate, recuperação de territórios afetados e o papel da tecnologia na previsão do comportamento do fogo.
Para João Lé, Administrador Executivo da The Navigator Company, “estes eventos são sempre importantes para criarmos consciência e alinharmos as nossas posições naquilo que, de facto, importa decidir e solucionar”.
João Lé, Administrador Executivo da The Navigator Company
A abertura do evento ficou a cargo de Pedro Santana Lopes, Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, que, respondendo à questão que dá nome ao debate, considera que Portugal, enquanto país, mudou muito pouco. “Este Governo está a adotar medidas mais avançadas, mas na minha opinião são ainda poucas”, referiu.
Pedro Santana Lopes, Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz
Já José Ribau Esteves, referiu a “enorme importância económica da floresta”, considerando que a mesma deve ser vista como um ativo. “O negócio da floresta tem de ser mais importante do que o negócio do fogo”, disse. O presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDR Centro) afirmou, ainda, que “é preciso uma aliança estratégica, objetiva de ação de todas as componentes do negócio da floresta. Era tempo de pensarmos numa confederação portuguesa da floresta para juntar os quatro setores, porque é capital mudar o jogo”.
José Ribau Esteves, Presidente CCDR Centro
A nova geração de incêndios
Para João Lé, existem três prioridades para a floresta nacional: escala, gestão ativa e a criação de uma estrutura de sapadores profissionais. “Temos tido algumas parcerias com organizações de produtores florestais que mobilizam pequenos proprietários no sentido de se conseguir criar perímetros de área maiores para se realizarem operações com escala bastante mais eficiente”, disse em entrevista ao Observador.
Para o Administrador Executivo da The Navigator Company, “a gestão ativa é fundamental para gerar produtividade” e o trabalho dos sapadores florestais “tem de ser complementar ao trabalho de proteção que os bombeiros já hoje executam, porque a violência destes novos incêndios obriga a que haja uma abordagem diferente”.
Faz-nos falta fazer muita coisa, o que significa que temos oportunidades para atuar e para fazer melhor a diferentes níveis.” – João Lé, Administrador Executivo da The Navigator Company
Quanto ao papel do Estado e do setor privado na gestão das florestas, João Lé considera que “as empresas privadas têm que ser indutoras e pressionar a administração pública para adotar políticas adequadas para esta indústria e, em última análise, para o país”. Já o Governo deve criar incentivos que permitam o investimento e a agregação de património para que o ordenamento possa ser feito em grande escala. “Hoje em dia, com este mosaico pequenino de pequenas parcelas espalhadas com diferentes ocupações, isso não é possível. Cada um individualmente não consegue mudar a paisagem”, referiu.
A primeira mesa-redonda do dia, intitulada “Novos retratos do fogo”, contou com a participação de José Miguel Cardoso Pereira, do ISA, Nuno Guiomar, da Universidade de Évora, Carlos da Câmara, do IDL – Universidade de Lisboa, e João Joanaz de Melo, da NOVA FCT. O debate centrou-se na prevenção e na gestão da floresta, com Carlos da Câmara a considerar que “a prioridade deve estar na prevenção e não no combate”. Para Nuno Guiomar, o fogo deve ser considerado um elemento central nas decisões sobre o território e é necessário adaptar a gestão da paisagem à realidade dos incêndios extremos. Já José Miguel Cardoso Pereira referiu que a estrutura e a vegetação têm mais impacto no comportamento do fogo do que a espécie, notando que “o eucalipto, enquanto espécie, não é a causa do problema”. João Joanaz de Melo concorda, mencionando que “o que mais arde é o que não é gerido”.
Mesa-redonda “Novos retratos do fogo”
Estas ideias ficaram, também, explícitas na intervenção de João Melo Bandeira. O engenheiro da The Navigator Company considera o eucalipto como “uma mais-valia muito grande para o país” e referiu que o problema dos incêndios está “no abandono e na ausência de gestão”.
João Melo Bandeira, Engenheiro da The Navigator Company
“Nós só vamos conseguir fazer melhor quando prevenirmos melhor”
“O combate só acontece porque algo falhou a montante”. As palavras são de Sérgio Gomes, da AFOCELCA, que considera a prevenção como a parte mais importante na gestão dos incêndios. “Quanto mais efetiva for a prevenção, melhores serão as ações de combate”, disse.
Sérgio Gomes, Diretor Executivo da AFOCELCA
O Diretor Executivo da empresa deixa ainda um alerta: temos de alterar a nossa mentalidade e olhar para os incêndios numa perspetiva de que nem todos podem ser apagados. “Cada vez mais se fala que os incêndios estão acima da sua capacidade de extinção e isso impõe que em muitos incêndios não haja combate, não pode haver combate”.
Na sua intervenção, Paulo Mateus, da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), também reforçou a necessidade de prevenção e de valorização das áreas rurais. Destacou os custos da prevenção e do combate, salientando que tem havido uma enorme evolução nesse aspeto.
Paulo Mateus, Presidente do conselho diretivo da AGIF
A tecnologia como um aliado
Akli Benali, do Instituto Superior de Agronomia, abordou o papel das tecnologias, mais precisamente das ferramentas avançadas de análise, na previsão do comportamento do fogo. O investigador, que colabora desde 2019 com a Proteção Civil numa célula denominada Núcleo de Apoio à Decisão em Incêndios Rurais explicou ao Observador um pouco do trabalho que é feito.
Akli Benali, Investigadora do Instituto Superior de Agronomia
“Fazemos a análise dos próximos dias, do que virá a acontecer, que é uma análise mais de risco de incêndio. E depois, quando há incêndios ativos fazemos uma análise do que é que se prevê que o incêndio vai fazer, quais são as prioridades para conseguir controlá-lo o mais rapidamente possível”.
No entanto, salienta que estas tecnologias são apenas auxiliares. “Estas ferramentas são modelos matemáticos que pegam na meteorologia, na vegetação, na topografia e calculam qual é que será o comportamento do fogo nos próximos dias”. “A ideia é tentar gerar conhecimento científico que permita tomar decisões mais sólidas”, concluiu.
E depois do fogo?
Durante a tarde, o debate focou-se nas respostas após os incêndios. Para Nelson Antunes, “recuperar, revitalizar e reconstruir não pode ser apenas pensado em repor o que existia. Temos de fazer melhor”, sendo que o país “tem experiência, competência e conhecimento suficientes para desenhar modelos prévios, normalizados e permanentes de prevenção, resposta e reposição da normalidade”.
Na sua intervenção, o líder da Estrutura de Missão para zonas afetadas pela depressão Kristin alertou ainda para os riscos associados ao aumento da carga combustível, para as dificuldades de limpeza e para a necessidade de acelerar a intervenção no terreno ainda antes do verão. “O verdadeiro desafio não é recuperar destes eventos, é estarmos preparados para os próximos”, concluiu.
Na segunda mesa-redonda do dia, que contou com as intervenções de Ana Carolina de Jesus, vereadora da Câmara Municipal de Pombal, Carlos Lobo, da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, António Sousa Macedo, da Biond, e Sérgio Morgado, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere, falou-se sobre o que é necessário fazer-se de diferente.
Mesa-redonda “Depois do Incêndio”
Para Carlos Lobo, “não podemos continuar a não atuar” e o território tem de ser visto como “uma infraestrutura crítica. Já Ana Carolina de Jesus destacou a importância da articulação entre floresta e proteção civil, bem como do cadastro para que haja uma gestão eficaz do território. Por sua vez, Sérgio Morgado e António Sousa Macedo salientaram a falta de profissionais especializados e capazes de trabalhar com tecnologia de ponta na floresta.
Marta Casimiro, do RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel, centrou a sua apresentação na relação entre os incêndios e a fileira do papel. “O impacto no produto é muito grande”, alertou, explicando que a madeira ardida, ou mesmo com pequenos vestígios de carvão, não pode ser utiliza para produzir pasta de papel.
Marta Casimiro, RAIZ
Paulo Santos, coordenador do Clube de Produtores Florestais Navigator, destacou o papel do clube no apoio aos proprietários e produtores, nomeadamente na promoção de uma gestão ativa e sustentável da floresta, mas salientou que “se quisermos fazer uma gestão ativa, também temos de garantir que o setor empresarial está capacitado para acompanhar”.
Paulo Santos, coordenador do Clube de Produtores Florestais da The Navigator Company
Nas notas finais, António Redondo, afirmou que “não há soluções simples” para enfrentar esta nova geração de fogos e que o país não se está a preparar devidamente. Entre os problemas, o CEO da The Navigator Company destacou a fragmentação da propriedade, a falta de ordenamento do território e a incapacidade de executar o que já foi definido como prioritário. “É urgente enfrentar estas debilidades crónicas na certeza de que, nos temas florestais, um país que não prioriza a decisão atempada e a ação determinada, é um país que abandona o território e, ao fazê-lo, o seu próprio futuro”, disse.
António Redondo insistiu ainda na necessidade de aumentar a produtividade, reduzir o risco de incêndio e apostar numa floresta coordenada e multifuncional. “A resiliência da floresta depende menos de leituras sintonistas sobre espécies e mais da capacidade de gerir, ordenar e valorizar o território”, concluiu.
O encerramento do evento ficou a cargo de Luís Neves, Ministro da Administração Interna, que começou por criticar a postura nacional ainda muito centrada na reação ao pós-incêndio.
Luís Neves, Ministro da Administração Interna
O Ministro insistiu, também, na importância do conhecimento científico, técnico e operacional, bem como do território, do comportamento do fogo e das alterações climáticas, que considera fundamentais na prevenção. “Gerir é prevenir, é antecipar, é ter proatividade, é exercitar, é estarmos preparados para os riscos, para os desafios e para as ameaças, referiu.