Três anos depois do ataque em Nova Iorque, Salman Rushdie, que admitiu que estava a ter muita dificuldade em voltar a escrever, anunciou um novo livro de ficção. O Último Instante não é um romance, nem tão pouco uma obra inteiramente nova, mas trata-se da primeira incursão do escritor na ficção desde que foi esfaqueado em agosto de 2022, durante um evento na Chautauqua Institution, pelo libano-americano Hadi Matar, que associou o ataque à fatwa decretada pelo ayatollah contra Rushdie no final dos anos 80. Desde então, o escritor britânico sediado nos Estados Unidos da América publicou dois livros: o romance Cidade da Vitória, que já estava concluído por altura do ataque, e o livro de memórias Faca, uma exploração catártica e honesta da experiência de quase-morte de 2022, que lhe deixou sequelas para o resto da vida, e da difícil recuperação que se seguiu.
Publicado em inglês em novembro do ano passado e em português no final de maio pela Dom Quixote, em antecipação da vinda de Rushdie a Portugal em junho para participar no festival literário Babell, no Porto, O Último Instante é uma coleção de cinco contos, três dos quais inéditos: “A Música de Kahani”, “Atrasado” e “Oklahoma”. Os restantes, “No Sul” e “O Velho na Praça”, foram publicados anteriormente, na revista The New Yorker, em 2009 e em 2020, respetivamente. Foram provavelmente escolhidos para integrar a coletânia por se aproximarem, tanto na forma como no tema, dos restantes três, recentemente escritos por Rushdie. As cinco histórias exploram temas como o envelhecimento e a morte, sem sentimentalismos excessivos e com o sentido de humor que é típico do autor e que vem ao de cima até quando tem de descrever os momentos mais dramáticos da sua própria vida, como em Faca. As narrativas passam-se na Índia, Inglaterra e Estados Unidos, os três países que mais marcaram a vivência pessoal do escritor.
Título: “O Último Instante” | Autor: Salman Rushdie | Tradução: J. Teixeira de Aguiar | Editora: Dom Quixote | Páginas: 288
A morte, que assombra cada um dos textos, pode chegar de maneira inesperada, como em “No Sul”, sobre dois velhos amigos e vizinhos de longa data, ou na hora marcada, como em “Oklahoma”, sobre um jovem escritor que vive obcecado com o inexplicável destino do seu mentor literário. E como os compridos braços da morte chegam a tudo e a todos, em “O Velho na Praça”, também a linguagem encontra o seu fim. “A Música de Kahani” e “Atrasado” falam, ainda, sobre a sede de vingança. Ambas as narrativas têm uma aura fantástica, uma marca da ficção de Rushdie, mas que escapou aos outros contos do livro: em “A Música de Kahani”, uma jovem com um talento excecional para a música usa os seus poderes sobrenaturais para causar a ruína da família do marido, um desportista fútil e mimado; e em “Atrasado”, o fantasma de um velho escritor assombra o reitor da universidade inglesa onde reside e de que é membro honorário, contra o qual guarda um rancor tão grande que o mantém consciente mesmo após a morte.
“Atrasado” é, provavelmente, a narrativa mais interessante do conjunto, pela variedade de temas em que toca (homofobia, xenofobia e colonialismo). S. M. Arthur, o velho escritor com um único êxito, morre numa altura de convulsão social, marcada pela Guerra do Vietname e pelo movimento hippie, que arrebata os corações dos estudantes. Uma figura de outros tempos, de que a universidade onde reside é também símbolo, forma um elo inesperado com uma jovem estudante indiana, Rosa, a única que é capaz de ver o seu fantasma. Apesar da idade que os separa, Arthur e Rosa são ambos duas figuras solitárias, que vivem isoladas porque têm algo que os distingue dos restantes (e que, curiosamente, nos dois casos, está relacionado com a Índia). Apesar de o mundo gritar por mudança, a sociedade permanece insistentemente presa aos velhos preconceitos, dos quais tanto Arthur como Rosa têm de se libertar.
Ainda que nenhum dos contos seja particularmente inovador, tanto na forma como nos temas que abordam, o conjunto marca o regresso à ficção de um dos maiores romancistas do século XX. Depois do ataque de 2022, talvez, muitos temessem que Rushdie nunca mais regressasse (incluindo o próprio), mas o escritor ainda não está pronto para se render. Foi isso que declarou em Faca e foi isso que deixou claro com um retorno tão rápido à literatura, com uma coletânea de contos na qual é possível vislumbrar alguma da sua força enquanto escritor. E, talvez, seja essa a grande mensagem de O Último Instante. Não terá sido por acaso que Rushdie escolheu “O Velho na Praça”, uma história sobre o poder e a importância da linguagem, para encerrar o volume. No final da narrativa, o narrador questiona-se sobre o futuro — o que será de nós, para onde iremos. “As nossas palavras falham-nos.” Com este novo livro, Rushdie diz-nos que ainda é capaz de as encontrar.