O realizador iraniano Jafar Panahi, nomeado ao Óscar pelo filme Foi Só um Acidente (2025), enfrenta mais uma pena de prisão e a proibição de sair do país, depois de um tribunal iraniano ter confirmado a sentença que o considerou culpado de “propaganda contra o regime“. A notícia foi avançada neste domingo pela revista norte-americana Hollywood Reporter. O cineasta, uma das vozes dissidentes da cultura iraniana, tem agora 20 dias para apresentar um novo recurso.

O tribunal confirmou uma decisão anterior, proferida quando Panahi se encontrava fora do Irão para a campanha de promoção de Foi Só um Acidente (um périplo no qual se incluiu uma passagem por Portugal), condenando o realizador a um ano de prisão e a uma proibição de viajar por dois anos. Panahi está, também, proibido de aderir a grupos e associações políticas e sociais.

O advogado de Panahi, Mostafa Nili, revelou que o Tribunal Revolucionário de Teerão rejeitou as suas objeções à decisão e confirmou o veredito na íntegra. Numa entrevista ao meio de comunicação iraniano Emtedad, citada pela Hollywood Reporter, Nili afirmou que Panahi foi considerado culpado de realizar um “filme clandestino e problemático contra o establishment“, de apoiar presos políticos, de apoiar protestos contra o governo, de apoiar o slogan “Mulher, Vida, Liberdade”, de assinar e divulgar uma declaração de apoio a uma greve de camionistas, de “pintar um quadro sombrio” da situação atual do país e de partilhar um vídeo de um protesto.

O dito “filme clandestino e problemático contra o establishment” é Foi Apenas um Acidente, que Panahi realizou após passar 86 dias na famosa prisão de Evin, no Irão, quando foi acusado de atividades contra o Governo.

O caso remontava a 2010, mas o cineasta foi apenas detido em 2022, quando se deslocou à prisão em questão para protestar contra a detenção dos realizadores Mohammad Rasoulof (A Semente do Figo Sagrado), que denunciaram repressão policial em manifestações populares no Irão. Panahi foi então detido, mas acabaria por ser libertado na sequência de uma greve de fome que gerou uma ampla solidariedade internacional e um recurso bem-sucedido que levou à anulação das acusações iniciais.

Foi durante esse período que passou na prisão que o realizador conheceu o ativista e prisioneiro político Mehdi Mahmoudian e os dois colaboraram no argumento de Foi Só um Acidente, que acompanha um ex-prisioneiro político que sequestra um homem que acredita ser o seu torturador e, depois, debate com outros dissidentes se deve matá-lo ou perdoá-lo.

Jafar Panahi conquistou o direito a filmar depois da libertação, mas o cineasta fez questão de rodar o filme de forma totalmente clandestina para não ter de submeter o argumento à censura do regime, como é exigido no Irão. Depois de filmar clandestinamente, montou o filme em Paris e mostrou-o em Cannes no ano passado, onde venceu a Palma de Ouro.

Perante o boicote do Governo do Irão ao filme, este acabaria ainda assim por chegar aos Óscares via França, país co-produtor que escolheu a obra para representar a nação na categoria de melhor longa-metragem internacional. Panahi e Mahmoudian, bem como os co-argumentistas Shadmehr Rastin e Nader Saeivar, receberam também uma nomeação para melhor argumento original.