O imenso prazer de falar em Cannes com Jafar Panahi, 65 anos, foi há dias redobrado com a visita inesperada do iraniano a Lisboa, por ocasião do lançamento entre nós da Palma de Ouro de 2025, Foi Só um Acidente, uma distribuição da Midas Filmes. Panahi é, tout court, um dos maiores cineastas vivos, assim como um dos mais distinguidos, multipremiado a ouro em tudo o que é festival que se respeite. Depois do Leopardo (O Espelho, Locarno 1997), do Leão (O Círculo, Veneza 2000) e do Urso (Táxi, Berlim 2015), faltava ao antigo assistente de Abbas Kiarostami a bela Palma deste ano, entregue em mão por Juliette Binoche, que presidiu ao júri.
Cannes. Palma de Ouro para “Un simple accident”, de Jafar Panahi
Foi Só um Acidente é um filme portentoso. Expõe-nos aos dilemas de Vahid, um homem que reconhece num condutor de automóvel acidentado, pai de família igual a tantos outros, o torcionário que o brutalizou na prisão (à semelhança do que acontecia com a protagonista de A Passageira, obra emblemática de Andrzej Munk). O primeiro instinto de Vahid é perseguir e raptar quem lhe fez tanto mal, as memórias da tortura ainda estão bem vivas. Mas este acerto de contas cedo toma caminhos inesperados. O protagonista hesita sobre a identidade do vilão. A violência passada confunde-se no presente com uma repulsa que gera dúvidas e se confunde com a alucinação.
Foi Só um Acidente tem a clarividência e a fluidez narrativa dos grandes mestres persas com um dom milenar para contar histórias. Drama duro, com momentos de grande intensidade emocional, não deixa de ser uma comédia humana plena de ingredientes de filme popular, sobretudo a partir do momento em que Vahid, pouco seguro dos seus actos, resolve contactar outras vítimas que ele sabe terem penado às mãos do mesmo algoz – mas será mesmo ele? Um plano de vingança começa então a ser equacionado e não divide apenas as personagens: envolve-nos directamente, fica ao juízo da consciência de cada espectador.
Encarcerado por duas vezes no seu país, Panahi goza na actualidade de um período de liberdade que lhe permite estar a promover Foi Só um Acidente no mundo inteiro. É uma situação rara a que o mundo se está a habituar: durante longos anos, temeu-se que o cineasta ficasse para sempre refém dos aiatolas. À semelhança do que aconteceu no ano passado com A Semente do Figo Sagrado, de Mohammad Rasoulof, não é improvável que a nova obra de Panahi entre no reboliço da temporada de prémios que se avizinha e até chegue aos Óscares. Conversámos com o cineasta iraniano em Cannes e voltámos à troca de palavras há dias, confiando na boa serventia da tradutora contratada. Panahi só fala farsi, pelo menos em entrevistas. Com a sua voz pausada e doce, privilegia respostas ponderadas, com frequência longas.
[o trailer de “Foi Só Um Acidente”:]
Esteve preso duas vezes pelas autoridades iranianas. Foi Só Um Acidente seria o mesmo se essa dupla punição não tivesse acontecido?
Sem a prisão, este filme não existiria. Desde que sou realizador, todos os meus filmes falam da sociedade e do que me rodeia directamente. Em 2010, quando me prenderam a primeira vez, lembro-me que um guarda me perguntou porque fazia este tipo de filmes. Respondi-lhe que a fonte de inspiração era simplesmente a minha vida. Este aspecto está muito presente no meu filme Táxi [conversa de vários passageiros que vão falando ingenuamente da vida com um taxista, interpretado pelo próprio Panahi] e reflete-se na minha conversa com a advogada iraniana Nasrin Sotoudeh, a célebre activista pelos direitos humanos que se tem batido pelos direitos dos presos políticos e pelos direitos das mulheres no meu país. Estive 15 dias na solitária, depois passei para uma cela pequena com mais dois ou três prisioneiros. Quase não falei com ninguém. Fiquei proibido de viajar e de fazer filmes de forma oficial. O meu foco de trabalho passou então a espelhar as circunstâncias que eu enfrentava e os filmes que consegui fazer a seguir [sempre à margem das autoridades] viraram-se para dentro, para espaços interiores e de cerco.
A segunda condenação, entre o Verão de 2022 e o Inverno de 2023, foi bem diferente e deixou-me marcas profundas. Passei sete meses com outros prisioneiros, de origens muito diversas. Conversámos bastante durante o tempo em que estive detido. E depois senti-me angustiado quando me libertaram após uma greve de fome, dividido entre o alívio da liberdade e o apego às pessoas que conheci.
Foi Só um Acidente vem dessa experiência? Os protagonistas do filme são, quase todos, ex-detidos que vão confrontar-se com o passado.
Este filme resulta da minha experiência na cadeia mas não de algo que tenha vivido. Nas muitas conversas que tive, tomei nota das histórias dos prisioneiros com quem convivi. Escutei sobretudo os que cumpriam longas penas — dez, quinze anos — e outros que já tinham sido detidos antes. Essa recolha transformou-se nas personagens do filme. Há cinco ou seis figuras distintas: um homem violento que quer vingança, outro sem ligação à política, uma mulher que ainda consegue imaginar o futuro de forma diferente e não perdeu a esperança de ser feliz, entre outros. São histórias que me acompanharam e confortaram na cela. Perguntava-me o que poderia sentir diante de uma parede com os olhos vendados. Os sentidos tornam-se mais apurados, e queria compreender o que acontece depois de se viver algo assim. Os sons da prisão entram na cabeça de uma forma muito intensa. E ficam lá, receio que para sempre.
▲ Na furgoneta de Vahid, as vítimas do torcionário debatem-se: o que farão com o homem que os torturou?
O som é o ponto-chave do filme: o acidente do cão atropelado ouve-se, não se vê. É pelo som que as personagens estão ligadas aos passos do torcionário: não lhe conhecem a cara mas sabem que coxeia e tem uma prótese na perna. No Ocidente, dizemos que o Diabo é coxo. É pelo som desses passos que Vahid [Vahid Mobasseri], a primeira vítima que conhecemos, reconhece naquele armazém o homem que o torturou…
A primeira coisa que se forma na cabeça de um prisioneiro na cadeia é o som. No Irão, sentam-nos numa cadeira, de olhos vendados, sem qualquer advogado de defesa. Os interrogadores estão geralmente sentados atrás dos prisioneiros sem que estes os vejam. Não querem ser reconhecidos. Mais tarde, tiram-nos a venda dos olhos e deixam-nos uma caneta e um papel para responder por escrito a algumas questões. Em Táxi, eu já tinha dado uma atenção especial à banda-sonora. E quando me prenderam a primeira vez, uma das maiores preocupações de um homem que me interrogou, ao saber que eu fazia filmes, foi o facto de poder, um dia, ser identificado de alguma forma num filme meu, apesar de eu nunca lhe ter visto a cara. O som é o motor deste filme. É a sua pedra angular.
Essa intenção já estava no guião? Aliás, houve improvisação neste filme, ou tudo estava escrito?
O som fala muitas vezes pelo que não é mostrado. Não houve improvisação. Tudo estava escrito. Quando seleccionei os actores, chamei-os um por um, vieram a minha casa. Expliquei-lhes que o projecto era especialmente arriscado. E a partir do momento em que chegámos a acordo, seguimos com fidelidade o que eu tinha escrito. A improvisação neste caso traria desconforto, hesitação e falta de foco. Não tínhamos muito tempo. Havia a necessidade de ser rápido e certeiro. Durante a rodagem, tomei opções que não havia previsto, mas isso não disse propriamente respeito ao trabalho com os actores. Decidi, por exemplo, que o homem raptado e acusado, Eghbal [Ebrahim Azizi], deveria ser filmado numa escala de planos mais cerrada e estática, diferente da maneira como são filmadas as outras personagens e os seus movimentos naturais no quotidiano.
▲ A personagem "Vahid", interpretada por Vahid Mobasseri, em “Foi Só um Acidente”
Há uma ideia que parece muito eficaz no filme: sem ter a certeza sobre a identidade do torcionário, Vahid vai trazendo outras personagens para a sua furgoneta, novas caras e outros relatos que validem o seu desejo de justiça. Isto é: ele é permeável ao benefício da dúvida. Isso engrandece-o humanamente como personagem, concorda?
É um aspecto importante e agrada-me falar disso porque é muito difícil resistir à prisão. As personagens deste filme estão numa ficção e sobreviveram à experiência, mas muitas pessoas quebram e ficam lá para sempre. E mesmo quando sobrevivem, a experiência está sempre a voltar. É aqui que o cinema se torna um espaço importante para partilhar e tornar um drama pessoal numa experiência colectiva, em que as testemunhas – são a audiência daquele espectáculo – vão aumentando com a progressão da história. Foi Só um Acidente começa com um homem que se enerva com o atropelamento de um cão porque esse acidente transtorna o resto da família. A mulher dele fica incomodada e a filha chocada com a morte do animal. Em seguida, damo-nos conta do grau de violência a que ele pôde chegar por seguir a sua ideologia. Mas falar disso não é fácil. A ideologia é mais forte, sobrepõe-se sempre aos actos daquele homem – e assim vivemos nós, todos os iranianos, subjugados. No sistema fechado de uma ditadura ideológica, não temos outra escolha. As autoridades criam restrições para todos os cidadãos, não apenas para os cineastas. Não há escapatória. Este filme é uma resposta aos traumas impostos ao povo iraniano.
Uma questão sobre os actores: são profissionais? Alguns são conhecidos, como o Vahid Mobasseri, que se reconhece do seu filme anterior, Ursos Não Há.
O Vahid é azeri e vem da província do Azerbaijão Oriental, tal como eu. Trabalha como actor para uma televisão local de Tabriz. Em Ursos Não Há, interpretou o homem que me alugava a casa. Quando não lhe dão trabalho, conduz um táxi. A actriz que interpreta a noiva, Hadis Pakbaten, vem do teatro e o noivo, Majid Panahi, é meu sobrinho. Mohamad Ali Elyasmehr, que interpreta Hamid, também estudou teatro, mas trabalha com as mãos, é carpinteiro. Maryam Afshari, que interpreta Shiva, nunca actuou: ela é árbitra de karaté. O único actor profissional do elenco é Ebrahim Azizi, mas é pouco conhecido, mesmo no Irão. Recusou sempre trabalhar em filmes aprovados pela censura.
Porque é que chamou a este filme [no seu título internacional] Um Simples Acidente? Porquê, se nada aqui é simples?
É o que a mãe diz à miúda quando o cão é atropelado. Essa primeira cena do filme, na verdade, dá imensas pistas ao espectador. A mãe diz que o acidente é simples porque talvez vá impedir que algo de mais miserável aconteça no futuro. Ela acredita que aquilo que acontece é aquilo que Deus quer que aconteça. Uma espécie de ponto de vista religioso e governamental sobre o destino. Mas a criança opõe-se a isso e responde-lhe, contesta, diz que não foi nada Deus que matou o cão mas sim o pai, que estava a conduzir o carro. Há logo ali uma indicação de revolta. Além disso, o título também desperta em nós uma certa curiosidade.
Foi Só um Acidente tem outro enquadramento de destaque: foi feito após a contestação política ao regime iraniano pelo movimento “Mulheres, Vida, Liberdade”, que cobriu o país de sangue em Setembro de 2022. A morte de Mahsa Amini, espancada pela “polícia da moralidade” em Teerão pela falta de uso do hijab, é também determinante para este filme?
Esse é um episódio capital no Irão, marcou um antes e um depois na história da República Islâmica. Mostrou aquilo pelo qual a sociedade está disposta a lutar contra a propaganda do regime. Por consequência, o movimento “Mulheres, Vida, Liberdade” mudou também o meu cinema, disso não tenho quaisquer dúvidas. Como posso eu ter medo no meu cinema, perante aquela coragem? Neste preciso instante, muitas mulheres no meu país, tal como as atrizes no meu filme, estão a sair à rua sem hijab [o lenço islâmico]. Elas arriscam muito mais do que eu. Muitas são presas nas ruas de Teerão e quando voltam à liberdade continuam a desobedecer. Não se rendem. Na minha família, nenhuma mulher usa o véu em casa. Quando o movimento aconteceu, eu estava preso, não podia ver nada. Mas quando saí, dei-me conta de que mulheres estavam a andar seu véu na rua. Decidi então que as minhas personagens também não o usariam. Porque deixámos de poder fazer filmes como dantes.
▲ Jafar Panahi (à direita) durante a rodagem de "Foi Só Um Acidente"
Depois da Palma de Ouro em Cannes, estava à espera de ser tão bem recebido no Irão?
Fui muito bem recebido quando cheguei, mas não estava à espera. De qualquer forma, nunca pensei em não regressar. Não posso viver noutro lugar.
As restrições contra si permanecem levantadas, tal como anunciou em Cannes?
Sim, a sentença que me proibia de viajar, filmar e dar entrevistas está oficialmente anulada. Mas, na prática, continuo à margem da Lei, quer dizer: é óbvio que não submeti o argumento deste filme à espera de uma aprovação. Jamais a teria… No fundo, continuei e vou continuar a trabalhar na clandestinidade. Muitos compatriotas meus decidiram emigrar, ou foram obrigados a isso, mas eu não tenho esse espírito. À minha espera no aeroporto de Teerão, além da minha família e amigos, estavam familiares de presos políticos e fomos todos de seguida celebrar para minha casa.
Após a vitória em Cannes, uma recepção triunfal de Jafar Panahi no Irão
Essa chegada esteve nas redes sociais, logo a seguir ao festival.
Depois disso, o Governo iraniano lançou uma propaganda absurda contra nós e afirmou que Foi Só um Acidente é o pior filme da história do cinema iraniano. Em mais de 100 recensões e críticas publicadas no estrangeiro, tivemos uma ou duas negativas. Pois foram estas críticas negativas que foram lidas nas televisões do Estado, em prime time, levando-os a chegar à seguinte conclusão: “Estão a ver? Este filme não presta para nada.” Mas o absurdo não ficou por aqui: chegou ao delírio. Surgiu depois um discurso público de que o filme fora patrocinado pela CIA e que eu estava, tão-só, a cumprir ordens da CIA. Puseram a minha fotografia nos telejornais com essa legenda. Este tipo de atitudes, infelizmente, tem sido constante desde que os filmes do meu compatriota Mohsen Makhmalbaf começaram a ser proibidos. O que nos vale é que não filmamos para os governos e para os seus serviços secretos. Filmamos para os nossos espectadores espalhados pelo mundo e para nós próprios. É essa a prioridade. Filmamos com o desejo de que os nossos espectadores respondam às nossas próprias dúvidas e concluam o filme nas suas cabeças.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia