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Este era daqueles jogos que nem valia a pena escrever muito sobre lançamentos, perspetivas ou aquilo que foi sendo dito nas conferências de imprensa. Porquê? Bastava ver a emoção com que os jogadores de Cabo Verde cantavam o seu hino para se perceber a importância de um momento que mereceu tolerância de ponto para todos no país. Depois da histórica qualificação para o Campeonato do Mundo, os Tubarões Azuis faziam a sua estreia frente à campeã europeia em título, “com a esperança do tamanho do mar que nos abraça”.

Canta, irmão
Canta, meu irmão
Que a liberdade é hino
E o homem a certeza

Com dignidade, enterra a semente
No pó da ilha nua
No despenhadeiro da vida
A esperança é do tamanho do mar
Que nos abraça
Sentinela de mares e ventos
Perseverantes
Entre estrelas e o Atlântico
Entoa o cântico da liberdade

Canta, irmão
Canta, meu irmão
Que a liberdade é hino
E o homem a certeza!

Ligações históricas à parte, Cabo Verde é aquela equipa que, um pouco à semelhança do que aconteceu com o Haiti e Curaçau, gera empatia. Quem visita o país vem de lá com uma camisola da seleção azul, branca ou até vermelha, isso é certinho, mas a forma de ser daquelas gentes deixa marca com quem se cruza. É assim na Praia, no Sal ou na Boavista, está a ser assim em vários pontos dos EUA como em Atlanta, que depois de toda a festa no pré-jogo mostrou de que lado estava quando Marcos Llorente fez uma carga de ombro no peito de Sidny Lopes Cabral e o árbitro não marcou falta. Agora, como nos outros estreantes, chegava o momento mais complicado de todos e a vários níveis – pela questão da ansiedade, pela diferença de qualidade em relação ao adversário, pela “necessidade” de retardar ao máximo os golos para ir ganhando confiança.

“Temos que ter calma, desfrutar do jogo e do Mundial. Vamos representar o país da melhor forma possível, com a maior dignidade e orgulho, mas temos que desfrutar do momento, sempre com a máxima responsabilidade e respeito por todos os intervenientes. Temos que respeitar a competição e os adversários mas sem medo”, pedia Bubista numa conferência de imprensa marcada pela gafe de confundir o Uruguai, que está também no grupo, e a Argentina, onde a palavra respeito imperou mas fazendo sempre a fronteira entre perceber as diferenças de valores e não ter receio de ambicionar algo mais. “Se alguém pensa que o jogo com Cabo Verde vai ser fácil, está equivocado. É uma equipa veloz, com conceitos táticos muito bem definidos. Conseguiram deixar os Camarões de fora do Mundial, muitos jogadores atuam nas ligas europeias. Pode ser uma das surpresas deste Mundial. A minha atitude perante a vida é considerar sempre o próximo compromisso como o mais importante”, pedia Luis de la Fuente, entre rasgados elogios aos Tubarões Azuis.

Apesar daquela derrota com o Chile por 4-2 no FIFA Series, em março, Cabo Verde merecia todas as palavras do selecionador espanhol. Mais: merecia todos os elogios à organização coletiva que Bubista conseguiu traçar na equipa, como se viu no particular no Restelo com a Sérvia e como se tinha visto no ano civil de 2025, com os cabo-verdianos sem qualquer derrota nos 12 jogos realizados entre seis vitórias e outros tantos empates. Às vezes era complicado ganhar, quase sempre era complicado perder. Foi isso que a Espanha “provou”, tendo de ir ao banco lançar Lamine Yamal a 20 minutos do final para tentar desbloquear a resistência de Cabo Verde. Não tendo nenhum “prémio” na prática, esse era o maior elogio possível para os Tubarões Azuis, que conseguiram ir secando uns espanhóis que mostraram estar reféns de uma tática sem alas mais abertos.

Essa organização defensiva de Cabo Verde não demorou a aparecer em campo, com Pico Lopes a ser um dos grandes destaques na linha defensiva a par de Sidny Lopes Cabral (tapado por um amarelo ainda cedo no jogo). Aliás, foi tanto assim que a Espanha só fez o primeiro remate por Pedri aos 15′ para defesa tranquila de Vozinha (15′) antes de uma tentativa de Cucurella que saiu por cima… perto da meia hora de jogo. Nem a paragem técnica para hidratação melhorou o rendimento da campeã europeia, que tinha o corredor central bem bloqueado e andava refém da falta de largura do seu jogo. Quando começou a abrir, na sequência de um remate por cima de Jovane Cabral (38′), melhorou. E melhorou muito: Ferran Torres acertou na trave após assistência de Cucurella antes de uma grande defesa de Vozinha a recarga de Oyarzabal (39′), o mesmo Ferran Torres teve um remate rasteiro na área para nova intervenção do guarda-redes cabo-verdiano (44′), Laporte ainda tentou de cabeça na sequência de um canto mas Vozinha voltou a ser melhor (45+2′).

Ainda com Lamine Yamal e Nico Williams no banco, por uma questão de gestão física após recuperarem de lesões, a Espanha tentou “apertar” a malha logo no arranque da segunda parte, com Fabián Ruíz a desviar de cabeça na área à figura de Vozinha numa desmarcação de rutura que começava a ser mais vezes utilizada (56′). Apesar desse ímpeto, que pareceu deixar Cabo Verde mais desconfortável em campo, os africanos ainda foram resistindo a tudo para segurarem o nulo, com De la Fuente a ter de apostar em Lamine Yamal a 20 minutos do final para tentar chegar finalmente ao golo que desbloqueasse a partida. A estrela do Barcelona, mesmo longe do melhor momento, mexeu em parte com o jogo mas não o suficiente, com Cabo Verde a fazer o primeiro remate enquadrado de canto em cima do minuto 90′ por Diney… para defesa de Unai Simón.

A estrela

  • Depois de uma carreira que começou no Batuque e no Mindelense antes de cruzar outros países como Angola, Moldávia, Portugal, Chipre e Eslováquia, Vozinha jogou nos últimos dois anos em Chaves na Segunda Liga e, sendo um dos oito jogadores neste Mundial acima dos 40 anos, teve a oportunidade de ser titular na baliza de Cabo Verde aproveitando a lesão de Bruno Varela. Justificou a todos os níveis: a mostrar grande segurança na saída aos cruzamentos, que permitia também que o resto da sua equipa “respirasse” da pressão da Espanha, o guarda-redes teve uma série de intervenções vitais que foram adiando ao máximo o primeiro golo da partida, fazendo acreditar os Tubarões Azuis que era mesmo possível pontuar contra a campeã europeia. Dentro de um jogo histórico, Vozinha fez a sua história.

O joker

  • A história foi chegando a todas as publicações internacionais, o insólito da mesma faz com que nunca seja demasiado ser contada. Nascido em Dublin, Roberto Lopes tinha redes sociais apenas por causa de um trabalho universitário mas foi a partir daí, via LinkedIn, que recebeu uma mensagem de Rui Águas, então selecionador de Cabo Verde, para se juntar aos Tubarões Azuis. Primeiro não ligou, depois nem queria acreditar, de seguida aceitou de imediato. Foi assim que o central chegou à formação africana mesmo jogando na Rep. Irlanda, entre Bohemian e Shamrock Rovers, e tendo sido chamado aos Sub-19 irlandeses. Filho de um cozinheiro em cruzeiros e de uma irlandesa, Pico, como também é conhecido, trabalhou num banco e foi agora o principal crédito de Cabo Verde para travar esta nova geração de ouro do futebol espanhol que conquistou o Europeu e ambiciona lutar agora pelo Mundial.

A sentença

  • Com este nulo, a Espanha fica agora obrigada a ganhar à Arábia Saudita para continuar a depender apenas de si pelo primeiro lugar do grupo H. Já Cabo Verde, que fica também à espera daquilo que possa acontecer no Arábia Saudita-Uruguai desta noite, tem dois jogos, frente ao Uruguai e à Arábia Saudita, para tentar chegar a uma vitória que carimbe de forma automática a passagem aos 16 avos.

A mentira

  • Entre os estreantes que já fizeram o seu primeiro jogo neste Mundial, Cabo Verde, até por ter pela frente logo a abrir a Espanha, era mais colocado do lado de Curaçau, que foi “atropelado” pela Alemanha, do que do lado do Haiti, que perdeu mas a dar luta à Escócia. Erro crasso. Sobretudo por duas razões: 1) os Tubarões Azuis defendem melhor e têm muito mais organização coletiva do que as outras equipas supracitadas; 2) conseguiram não sofrer na primeira parte, o que deu outra confiança à equipa. Quando jogar com a Arábia Saudita, Cabo Verde terá a oportunidade de mostrar algo mais em termos de jogo ofensivo; contra a Espanha, foi pragmática e mostrou que defender bem também é saber jogar.