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O rio quase voltou a passar sobre as pontes em Valência

Europa Press via Getty Images

O rio quase voltou a passar sobre as pontes em Valência

Europa Press via Getty Images

Espanha sob chuvas torrenciais e com alertas de perigo máximo. Como é que o Mediterrrâneo consegue despejar tanta água em tão pouco tempo?

Valência voltou a reviver a catástrofe de 2024, mas o maior susto já passou. Não foi uma DANA a causar tanta chuva desta vez, mas um 'cavado'. A tempestade vai agora para as Baleares.

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A história parece repetida. Mas esteve longe de ser tão grave como a da tragédia de 2024 e a origem não foi a mesma. De Valência a Múrcia, passando por Barcelona e incluindo as Baleares, está a chover torrencialmente em Espanha. Com enxurradas, cheias, inundações, resgates. Uma pessoa morreu. Mas porque acontecem tantas vezes estes episódios nestas zonas espanholas do Mediterrâneo? O que significa exatamente cair 70 litros de chuva por metro quadrado em meia hora? E se isto não é uma DANA, como a de há dois anos, então o que é?

Tudo aconteceu em poucos minutos. Ao princípio da noite de quarta-feira, e de acordo com as previsões que vinham sendo feitas, uma tempestade atingiu Valência. As ruas depressa se tornaram em rios. Na estação meteorológica da cidade (delegação da AEMET) foram contabilizados 50,8 litros por metro quadrado entre as 21h00 e as 22h00. No total do dia, o acumulado da quantidade de chuva foi de 54,5 litros por metro quadrado. Esteve longe dos piores locais. Há relatos de quase 100 litros acumulados em certas zonas da região, onde caíram os tais 70 litros por metro quadrado.

A chuva intensa continuou a cair na manhã desta quinta-feira. O instituto de meteorologia espanhol emitiu avisos vermelhos — o grau mais alto da escala de alertas —, para “perigo extraordinário” em vários locais do Mediterrâneo espanhol, em especial Campo de Cartagena e Mazarrón, na região de Múrcia. Mas entretanto o alerta baixou para amarelo, escreve o El País, com base nas informações da AEMET. Agora a tempestade avança para a área das ilhas Baleares.

https://twitter.com/AEMET_Esp/status/2100503650640568572

Mantêm-se, por isso, muitas preocupações até ao final de sexta-feira. Sobretudo para a metade mediterrânica mais a sudeste de Espanha e para as ilhas de Ibiza, Formentera e Maiorca. Continua a ser esperada chuva intensa ou muito intensa, acompanhada de trovoada, granizo e fortes rajadas de vento. Os eventos extremos estão previstos até ao final do dia. Para as ilhas já foram emitidos vários alertas: espera-se precipitação intensa, cheias, inundações e enxurradas. E há previsões para a continuidade de aguaceiros muito fortes e trovoadas para Valência e várias áreas da Catalunha.

Foi uma DANA que trouxe de novo chuva torrencial ao sul de Espanha?

Não, não se trata de uma DANA. A associação de DANA a chuva intensa no sul de Espanha tornou-se frequente depois da tragédia de Valência em 2024 ao ponto de às vezes se usar DANA e chuva torrencial como sinónimos. Não são. Uma DANA — Depressão Isolada em Níveis Altos — é uma configuração atmosférica muito específica. Uma ‘bolha’ que se liberta de uma depressão, se isola nos níveis mais altos da atmosfera, viaja até outras paragens, ganha força pelo meio e pode ganhar características de tempestade. Quando isso acontece, há condições extremamente favoráveis para que cause chuva intensa. Mas não é necessário haver uma DANA para que exista chuva torrencial. Estes episódios severos também podem estar associados a frentes, depressões ou linhas de instabilidade. Basta ser possível colocar ar frio em altitude sobre uma atmosfera quente e húmida. O mecanismo para a chuva torrencial é simples: muita humidade disponível, instabilidade atmosférica e um mecanismo que faça o ar frio subir.

Se não é uma DANA, que tipo de fenómeno meteorológico é este?

Não é preciso uma DANA para chover assim. O que está a provocar as inundações no Mediterrâneo espanhol é um ‘cavado’ (termo mais usado em Portugal) ou ‘vaguada’ (termo mais usado pelos espanhóis). De uma forma um pouco cinematográfica, é preciso imaginar um rio gigantesco de ar a circular à volta da Terra, mas que ondula, faz curvas — desce em alguns locais, sobe noutros. Quando uma dessas ondas desce, forma como que uma espécie de vale neste rio de ar e temos a vaguada ou cavado. De forma mais técnica, e pegando na explicação da AEMET, uma vaguada é uma ondulação que está associada a baixas pressões (tempestades) e, em altitude, estas ondulações favorecem a instabilidade, a formação de nuvens de tempestade, depois, a queda de chuva forte. Mas é preciso o tal mecanismo que transforme tudo nessa mistura explosiva: com ar frio lá em cima e ar quente e húmido cá em baixo, aumenta o contraste vertical das temperaturas, fica facilitada a subida rápida do ar e criada a instabilidade para que se dê uma convecção e se formem as tais nuvens de tempestade.

Valência em 2024

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

E quais são as diferenças entre os dois fenómenos?

Um cavado/vaguada fica sempre associado à circulação atmosférica que está na sua origem. É como se fosse uma curva muito pronunciada do tal rio de ar. A DANA, como o próprio nome indica, é a tal depressão isolada em níveis altos (Depresión Aislada en Niveles Altos, em espanhol), portanto, separou-se da circulação atmosférica principal, do fluxo do rio. Neste caso o cavado/vaguada está em altitude e, como há uma frente, muito vapor de água e instabilidade reuniram-se as condições para produzir estas tempestades violentas. Chegou mesmo a prever-se que tivesse uma depressão no seu interior, mas não se confirmou.

O que se considera chuva torrencial?

É aqui que o que importa é a intensidade da chuva. E a velocidade com que chove. Quanto mais chove num curto espaço de tempo maior é o risco de inundações rápidas. Nas cidades, como o betão e o asfalto não é permeável e os sistemas de drenagem têm uma capacidade limitada, as inundações nas zonas baixas não demoram. Das montanhas vem o risco das cheias-relâmpago por causa dos caudais dos rios.

Se choverem 50 litros por metro quadrado de água ao longo de vários dias, essa água é facilmente escoada pelos rios, terrenos ou sistemas de drenagem. Há tempo para que tudo se escoe. Mas se esses 50 litros caírem numa só hora, as coisas já são completamente diferentes. A água chega muito mais depressa ao solo do que é possível absorvê-la. Começa a acumular-se. Procura zonas mais baixas. Inunda terrenos e ruas.

A unidade usada nas previsões é simples de entender. 1 mm significa 1 litro por metro quadrado. 10 mm são 10 litros por metro quadrado e por aí fora. Mas não é a mesma coisa chover 50 mm durante 24 horas ou durante uma hora, como em Valência. 50 litros por metro quadrado numa hora significam literalmente 50 litros de água despejados sobre cada metro quadrado numa hora. O que numa área de apenas 1 km² equivale a 50 milhões de litros de água.

E quando se fala dos máximos atingidos em Espanha, os 70 litros por m² em apenas meia hora, fazer a conta revela números impressionantes. Toda a chuva que caiu nesse quadrado, precisava de um recipiente de 70 litros para ser recolhida; se estivéssemos a falar de uma varanda de 10 m², eram 700 litros; uma casa de 100 m², encheria com sete mil litros; e num campo de futebol — cuja dimensão é 7 mil m² — estaríamos a falar de 490 mil litros de água.

Um Mediterrâneo mais quente ajuda a que isto aconteça?

Não necessariamente. E é preciso que isso fique claro. Um mar muito quente fornece mais calor e mais vapor de água à atmosfera. É o combustível para incêndios e tempestades. Mas sozinho não chega. É preciso que haja a tal instabilidade na atmosfera e um mecanismo que faça subir o ar. O Mediterrâneo pode estar anormalmente quente e não existir nenhuma tempestade extraordinária que cause os fenómenos a que estamos a assistir em Espanha. Mas se as restantes condições surgirem, a atmosfera com mais vapor de água terá mais água para condensar, que depois cairá na forma de precipitação.

Daí que a temperatura do Mediterrâneo seja tão monitorizada do final do verão ao início do outono. Porque se sabe que quando chegam perturbações capazes de desestabilizar a atmosfera sobre esse reservatório de calor e humidade, ficam reunidos os ingredientes para que haja chuva intensa, como a que está a acontecer em Espanha. E, mais do que a quantidade de água que chove, o que importa é a que chove no mesmo lugar em poucos minutos, como se acaba de demonstrar.

Durante o verão, o Mediterrâneo acumulou calor. E qualquer superfície do mar quente favorece com as tais grandes camadas de vapor de água a ficar nas camadas mais baixas da atmosfera. Mas essa é só uma peça. Depois é preciso fazer o ar húmido subir. É assim que arrefece e o vapor se transforma em água. Quando uma massa de ar quente e húmido é forçada a subir, expande-se e arrefece. Quando o ar fica saturado, condensa-se em pequenas gotas e formam-se as nuvens. Numa atmosfera instável qb, o ar continua a subir rapidamente e é assim que se desenvolvem as nuvens de tempestade — os cumulonimbus — que podem ter vários quilómetros de altura. É essa combinação — muita humidade à superfície, muito ar mais frio em altitude, como o ‘cavado’, instabilidade na atmosfera e um mecanismo que faça o ar subir — que pode provocar uma convecção profunda. É o que está por detrás das tempestades no Mediterrâneo espanhol.

Porquê sempre nesta mesma região, em especial Valência?

Tem muito a ver com a geografia, que também joga um papel importante na meteorologia. Valência fica junto ao Mediterrâneo, com montes, barrancos de água e planícies inundáveis. Pode parecer que nada tem a ver com nada, mas na verdade é muito simples. O Mediterrâneo fornece uma enorme reserva de vapor de água à medida que está cada vez mais quente. Os ventos de leste ou sudeste, habituais naquela zona, transportam o ar húmido para terra; como há montes a circundar a área, esse ar é obrigado a subir; quando sobe arrefece e o vapor de água condensa; se a atmosfera estiver instável, formam-se as nuvens convectivas de tempestade; para piorar, se essas nuvens convectivas se continuarem a formar sucessivamente e a passar repetidamente pelos mesmos locais (training, em inglês, como carruagens de comboio às voltas nos mesmos carris), os acumulados de chuva disparam; os barrancos não suportam toda a água que cai; e as inundações começam. Uma cidade ou uma localidade pode suportar 30 ou 40 litros de chuva por metro quadrado. Mas se minutos depois chegar outra tempestade carregada de água e depois outra e mais outra, não há muito a fazer.

A grande tragédia de 2024 não obrigou Valência a fazer obras nesses barrancos e a prever inundações?

Sim. A Confederación Hidrográfica del Júcar continua, ainda em 2026, a fazer — ou apenas projetar — intervenções nas bacias do Poyo, Magro e Pozalet-Saleta, precisamente para reduzir o risco de futuras inundações. O caso mais conhecido é o do barranco do Poyo, cuja bacia esteve no centro das inundações catastróficas de 2024, ao não conseguir segurar as águas, rebentar e causar a mega inundação. O caudal do Poyo subiu muito depressa e terá chegado aos três mil metros cúbicos por segundo na parte final (não há números oficiais). Além disso, é difícil intervir em Valência. Tem áreas densamente povoadas, superfícies onde a água não se infiltra facilmente e planícies propícias a cheias. As autoridades chegaram a colocar em pré-emergência hidrológica as áreas dos barrancos do Poyo-Saleta e Baixo-Túria na quarta-feira.

Estes episódios vão ser cada vez mais frequentes?

Esta tempestade espanhola deve-se à situação meteorológica destes dias naquela região. Há muita circulação atmosférica, um ‘cavado’, ar frio em altitude, uma frente, instabilidade e humidade do Mediterrâneo. Mas se colocarmos a questão de outra forma, se num planeta mais quente as tempestades serão mais intensas, não faltam estudos a dizer que sim, sem dúvida. Para Valência até já há um estudo específico, sobre a tragédia de 2024. Foi publicado este ano, envolve a AEMET e a Universidade de Valladolid, e inclui várias simulações. De acordo com essas simulações, as alterações climáticas provocadas pela atividade humana aumentaram em 24% a intensidade da precipitação naquela zona e em 19% o total de chuva na bacia do Júcar durante o episódio. A área atingida por chuva extrema superior a 180 mm subiu 55%.

São números sobre 2024 e não podem ser transferidos para a tempestade de agora. Até porque nestes dias ainda não foi batido qualquer recorde de há dois anos. Mas sabemos que uma atmosfera mais quente retém mais vapor de água. E que essa capacidade de retenção aumenta cerca de 7% por cada grau de aquecimento.

O temporal vai continuar em Espanha?

Segundo as previsões da AEMET, a fase mais violenta já passou. Mas ainda não terminou. Com a deslocação da tempestade para as Baleares, as aulas foram suspensas em Ibiza e Formentera. Há ainda condições para aguaceiros muito fortes na costa mediterrânica. Mas a tendência é de perda de intensidade ao longo desta sexta-feira e de estabilização no fim de semana.

Depois de uma noite muito violenta em Valência, onde houve locais em que chegaram a cair os tais 70 l/m² em apenas meia hora, esta quinta-feira mantiveram-se estradas cortadas, o aeroporto foi encerrado temporariamente, o metro esteve muitas vezes sem funcionar e foram feitos vários resgates. A comunidade valenciana reviveu a trágica noite de 29 de outubro de 2024.

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