Ao sexto livro (o terceiro publicado em Portugal, depois de os dois anteriores terem saído pela Elsinore), David Szalay parece ter granjeado uma considerável fama internacional, por conta da atribuição do Booker Prize de 2025 a Carne, mas também pela vaga de elogios que recebeu de nomes importantes da literatura contemporânea, como Samantha Harvey ou Zadie Smith. Assim, importará talvez compreendermos um pouco melhor os motivos para tão rasgados e unânimes elogios, que vão muito além da leveza e fluidez da sua prosa, o que, por si só, já seria digno de nota.

Salta desde logo à vista a estrutura do romance, polvilhada de elementos contemporâneos, mas assente no modelo das tragédias gregas, na medida em que tudo parece acontecer ao protagonista, István, sem que este tenha agência, não desempenhando qualquer papel no seu destino. Daí a perfeita adequação do título, que aparenta remeter para a ideia de que este homem não é mais do que um monte de carne que os deuses lançam a seu bel-prazer ora para cima ora para baixo de uma colina acidentada.

Por esta altura, já todos teremos, em algum momento da nossa vida, ouvido alguém citar o célebre aforismo de Ortega y Gasset que estipula que “eu sou eu e as minhas circunstâncias”. Ora, o mais extraordinário no romance de David Szalay é a eliminação absoluta do eu, da subjetividade, levando a que István seja, afinal, o puro fruto das circunstâncias com que se vai deparando. E isso importa porque esta anonimização perante a própria vida, perante os estímulos e as forças ocultas que nos arremessam para onde mais lhes convém, é uma ideia simultaneamente muito antiga e muito contemporânea, como todas as coisas que verdadeiramente importam em literatura.

Além do mais, tudo na história de vida de István parece derivar de um trauma ou cisão inicial. No caso, o abuso sexual sofrido aos quinze anos. Todavia, a expressão abuso sexual é curiosa e estranha no contexto do romance, uma vez que seria possível ao leitor, levado pela estrutura narrativa, não interpretar nestes termos o que aconteceu ao jovem István. István consentirá sempre, através dos seus sorumbáticos “okay”, todas as investidas da abusadora — uma mulher muito mais velha, da idade da sua mãe, com o marido canceroso, que começa por pedir-lhe que a ajude com as compras, mostrando-se assim frágil, e depois passará a pedir primeiro que o beije e enfim que tenha relações sexuais com ele, interrompendo-as quando este confessa estar apaixonado por ela (sem que István pareça compreender muito bem o que quererá isso dizer).

Título: “Carne” | Autor: David Szalay | Tradução: Maria de Fátima Carmo | Editora: Relógio d’Água | Páginas: 320

A inversão de géneros na história habitual de abusos infantis é interessante, não só por ser rara na literatura contemporânea (aqui, é a mulher frágil a abusar do quase-homem robusto), mas sobretudo pelo efeito que esta história terá na vida do protagonista. Em resultado desta iniciação sexual, István acabará por matar acidentalmente o marido desta mulher (cujo nome nunca é explicitado por ser apenas importante enquanto motora do resto da história e não enquanto personagem individual), o que o levará a passar alguns anos num centro de correção. Não obstante, mais importante do que isso, a sua aventura com esta mulher moldará as demais relações da sua vida, visto que, a partir daqui, e quase até ao fim do livro, István terá como companheiras apenas mulheres mais velhas e poderosas, sendo que estas relações nunca serão movidas por um forte interesse sexual mas antes por István ser seduzido e aliciado de formas cada vez mais explícitas, sem que pareça parte minimamente ativa (diríamos até, sem ser parte minimamente interessada) no desenrolar da sua vida.

A certa altura, nessa relação inicial que ocupa as primeiras quarenta páginas da história, mas que se reproduzirá ciclicamente durante todo o romance, a mulher pergunta a István se gosta dos pelos púbicos desta, ao que István responde Iá, sendo de imediato acrescentado: “Ele não sabe se isso é ou não verdade”. É um de muitos exemplos possíveis de um padrão que nos permite compreender que, tal como, em maior ou menor medida, acontece com todos nós, o desejo de István não é movido por motivações meramente estéticas. Pelo contrário, o desejo (ou, se quisermos ser otimistas, o amor) de István parece, novamente como, em maior ou menor medida, acontece com todos nós, anonimizado em relação à sua própria vida, avançando ou regredindo consoante as vontades ocultas dos deuses do destino.

István não sabe se determinada opção estética é ou não do seu agrado porque, por um lado, alguém parece ter removido as escadas que dariam acesso à sua interioridade, mas, sobretudo, porque, ao lhe ser imposta tão repentinamente a sua iniciação sexual, o protagonista sofre uma cisão que lhe anulará qualquer possibilidade de agência. O amor, tal como a vida, é então uma coisa que lhe acontece e que ele se limita a aceitar.

Por fim, a inversão de géneros numa história de violência sexual (e, relevantemente, de abuso infantil) permite-nos também perceber melhor a diferença que episódios destes têm num rapaz e numa rapariga — não ignorando, claro, que cada caso é um caso e que o género, naturalmente, é apenas um elemento desta história. Desse prisma, talvez possamos usar como modelo exemplar, para contrapor a Carne, outro romance publicado recentemente em Portugal pela Dom Quixote: A Educação Física, de Rosario Villajos. Aí, a protagonista sofre um abuso por parte do pai da melhor amiga, o que resulta num desinteresse sexual quase absoluto, acompanhado de fragilidades e inseguranças castradoras. Ora, com István, o interesse sexual manter-se-á, mas o protagonista será incapaz de o pensar criticamente, pelo que se, no caso exemplar feminino, a sexualidade se extinguirá quase por inteiro, no caso masculino, esta passará a ocupar toda a personalidade de um jovem que se limita a deixar-se arrastar pelas solicitações que o rodeiam, tornando-se, enfim, num amontoado de carne que obedece a desejos que será a partir desse momento incapaz de controlar, compreender ou satisfazer, tornando-se presa fácil dos infortúnios em que se vê caído uma e outra vez.