A única administradora não executiva da Carris foi exonerada cerca de seis meses após ter sido nomeada para o cargo. Na sequência desta exoneração, Teresa do Passo de Sousa enviou uma comunicação ao executivo camarário de Lisboa a expor as dificuldades que assume ter tido no exercício das funções na empresa municipal que é tutelada pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) e deixa críticas à administração executiva da Carris, liderada por Rui Lopo.

Na comunicação a que o Observador teve acesso, destaca a “falta de transparência e de acesso à informação”, questiona a forma de funcionamento do conselho de administração e indica as posições que manifestou e que não foram consideradas sobre vários temas. No que indica constituir uma “descrição factual da minha atuação nos seis meses de exercício do mandato que me foi confiado pela Câmara”, conclui que essa atuação terá sido o fundamento para a sua exoneração do cargo, pelo qual não era remunerada.

Segundo Teresa do Passo, desde o início do atual mandato (janeiro de 2026), “o presidente e os administradores executivos adotaram procedimentos e praticaram atos que, de forma objetiva e reiterada, impediram ou restringiram o exercício das funções que legalmente e estatutariamente me competiam enquanto administradora não executiva”. A gestora aponta o dedo ao presidente (Rui Lopo) e ao vice-presidente (Francisco Pinto Machado), que, argumenta, “adotaram sistematicamente, por ação e omissão, práticas que, no meu entender, não encontram suporte no regime legal aplicável e suscitam fundadas dúvidas quanto à sua conformidade jurídica”.

A Câmara Municipal de Lisboa não quis para já responder às perguntas do Observador. A proposta de exoneração será discutida na próxima reunião do executivo camarário na quarta-feira e indica como substituto até ao final do mandato em 2029 Pedro Brito Dinis, que era vice-presidente da assembleia geral da Carris.

Segundo o seu LinkedIn, Teresa do Passo é assessora do vice-presidente da Câmara, Gonçalo Reis, que tem a tutela da Carris, mas não foi possível confirmar se o seu afastamento da administração da empresa de transportes públicos teve implicações nas funções que exerce no gabinete do vice-presidente.

Em concreto, a vogal afastada diz que lhe foi vedado o acesso a informação relevante sobre a empresa, incluindo temas estratégicos e importantes, mesmo quando remeteu pedidos de forma expressa. Também questiona a tomada de decisões dentro da empresa sem que tenham sido previamente aprovadas por deliberação do conselho de administração, ou sem a necessária delegação de competências ou com delegação “que suscitaria fundadas dúvidas sobre a sua legalidade” e dá como exemplos a bitola dos veículos da nova carreira de elétricos E16, a negociação com sindicatos e a contratação de funcionários.

Elenca as posições que defendeu em nome do reforço da segurança de operação e nas quais ficou “isolada”. Entre as quais, refere, a aquisição de serviços de reparação de autocarros, a contratação do responsável técnico de exploração para o funicular da Graça e do elevador de Santa Justa, a aquisição de calços de travão para elétricos. Afirma ter suscitado “dúvidas fundamentadas sobre a regularidade de alguns ajustes diretos aprovados pelo conselho de administração” e ter criticado a demora na contratação do Instituto de Engenharia Mecânica, na sequência do acidente do elevador da Glória e das recomendações feitas pelo gabinete de investigação de acidentes, o GPIAAF.

Escreve ainda que, na sequência dos factos expostos e por terem “sido desconsideradas todas as minhas tentativas de os ultrapassar”, deu conhecimento dos mesmos ao vice-presidente da autarquia, Gonçalo Reis, e ao conselho fiscal da Carris em dois momentos, em maio e final de junho.

cTeresa do Passo de Sousa foi nomeada em dezembro do ano passado para o conselho de administração da Carris, sendo o único membro com um cargo não executivo. A nova equipa executiva é composta por Rui Lopo (presidente), Ana Paula Carioca e Francisco Pinto Machado (vice-presidentes) e pela vogal Mariana de Sousa Costa e substituiu a administração que estava em funções quando ocorreu o acidente no elevador da Glória.

Para além de ter sido mais do que uma vez assessora do vice-presidente da Câmara de Lisboa, Teresa do Passo de Sousa passou pela administração da Santa Casa da Misericórdia durante o mandato de Ana Jorge onde teve os pelouros das finanças e auditoria. Esteve vários anos à frente da administração da Sociedade de Reabilitação Urbana de Lisboa Ocidental.