A Carris contratou em maio uma empresa para a realização de ensaios funcionais dos sistemas de freio das cabinas que estiveram envolvidas no acidente do Elevador da Glória, que em setembro do ano passado provocou a morte a 16 pessoas. Estes ensaios foram pedidos pelo gabinete que está a investigar o acidente, com o objetivo de procurar apurar a causa do mesmo.

Fonte oficial do GPIAAF (Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários) confirma ao Observador que esta contratação foi feita no âmbito da investigação em curso. Segundo o diploma que regula estas investigações, são os operadores e gestores de infraestrutura que suportam os custos de peritagens ou estudos que venham a ser necessários. Não obstante ser a Carris a pagar, a “especificação dos ensaios e sua supervisão é feita inteiramente pelo GPIAAF após ter em consideração todas as necessidades identificadas também pela investigação judicial, limitando-se a Carris a fazer a contratação”, acrescenta.

O contrato no valor de 160 mil euros, sem IVA, foi adjudicado ao IDMEC — Instituto de Engenharia Mecânica, tendo sido assinado em maio depois da minuta ter sido aprovada em conselho de administração da Carris a 17 de abril deste ano. O prazo de execução é de três meses, de acordo com o documento que consta do portal Base.

O Observador questionou a Carris sobre por que é que só em maio foi feita essa adjudicação, mas não obteve respostas.

Esta sexta-feira, foram realizadas buscas na Carris e na empresa de manutenção externa que tinha contrato para o elevador da Glória. As buscas incidiram também sobre as residências de responsáveis das duas empresas. Em causa está a investigação a crimes de homicídio por negligência e de violação de regras de segurança.

Segundo o relatório preliminar, o descarrilamento da carruagem resultou de uma rotura no ponto de ligação entre o cabo e a cabina. O acidente teve consequências trágicas porque o sistema de segurança complementar — o sistema de freios — não funcionou, nem estavam reunidas as condições para que pudesse funcionar.

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As duas investigações — a técnica e a judicial – têm fins distintos, mas houve coordenação entre o GPIAAF, o Ministério Público e a PJ para preparar as especificações para os ensaios a realizar e o respetivo acompanhamento. No relatório preliminar ao acidente conhecido em outubro, o GPIAAF sinalizava que o próximo passo seria a realização de ensaios, peritagens, entrevistas e recolha de informações adicionais “que sejam consideradas necessárias para a cabal determinação dos fatores causais e contribuintes, diretos, indiretos e sistémicos, envolvidos no acidente”.

Em paralelo estará a ser realizada uma auditoria independente pedida pela própria Carris e que, segundo a autarquia de Lisboa, foi entregue à empresa Catim. Mas o contrato desta auditoria não é conhecido (nem foi publicado no portal Base). O Observador questionou a Carris e a Câmara de Lisboa, que tem a tutela da empresa, sobre este contrato e sobre o calendário e resultados desta auditoria, mas não obteve resposta até ao momento.

Relatório final às causas não será conhecido antes de fazer um ano do acidente

No esclarecimento dado ao Observador, o GPIAAF refere que estão envolvidas nas peritagens técnicas aos veículos e seus componentes — cabo e infraestrutura — quatro universidades e laboratórios. E que estas peritagens envolveram “a conceção e construção de equipamentos especializados que apenas ao longo dos trabalhos têm sido possível identificar, têm interdependência e são forçosamente sequenciais em alguns casos.”

Sem avançar uma data para publicar o relatório final, antevê “desde já que, atendendo ao tempo necessário para a realização das peritagens técnicas ainda a desenvolver e à exigência de submeter o projeto de relatório a audiência prévia das partes envolvidas apenas após a cessação do segredo de justiça sobre o inquérito judicial, não será possível publicar o referido relatório final antes de completar um ano da ocorrência.”

E lembra que os aspetos relevantes para a prevenção da segurança não estão dependentes desta investigação, na medida em que foram feitas recomendações de segurança no relatório preliminar. Uma dessas recomendações que, aliás já tinha sido posta em prática pela Carris, passa pela interrupção do funcionamento dos ascensores de Lisboa — Glória, Lavra, Bica e Santa Justa — enquanto não for realizada uma reavaliação por entidade independente da conceção do sistema de fixação do cabo de tração às cabinas e dos sistemas de frenagem (travagem) dos veículos de forma a assegurar que estes são capazes de parar o veículo em segurança caso o cabo se rompa.

A propósito desta reavaliação do modelo de funcionamento dos ascensores, a Carris também contratou agora ao LNEC serviços de colaboração para avaliação dos elevadores e ascensores, ao abrigo do memorando de entendimento assinado entre a empresa, o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, a Emel, o Instituto Superior Técnico e a Ordem dos Engenheiros. O contrato com o LNEC tem de seis meses, podendo ser prolongado até ao limite de 36 meses e o valor de 68,3 mil euros. Este memorando foi assinado em novembro do ano passado também na sequência do acidente no elevador da Glória.

Nem a Carris, nem a autarquia avançam com uma previsão de data para a retoma da operação dos ascensores.