Depois de 27 dias consecutivos, o futebol parou. Na sequência dos oitavos de final e na antecâmara dos quartos de final, o Mundial 2026 parou pela primeira vez esta quarta-feira e trouxe um dia que já pareceu estranho, sem apito inicial ou final, sem prologamento ou grandes penalidades, sem pausas para hidratação, golos e defesas. Para todos aqueles que andam colados aos ecrãs há 27 dias, porém, esta quinta-feira trazia boas notícias: o futebol voltou.

Em Boston, no Gillette Stadium, França e Marrocos disputavam a primeira vaga nas meias-finais — onde já sabiam que o eventual adversário estava na eliminatória entre Espanha e Bélgica. De um lado, os franceses procuravam confirmar o favoritismo e prolongar uma prestação absolutamente dominadora até aqui, apesar da vitória marginal contra o Paraguai na ronda anterior; do outro, os marroquinos procuravam igualar o registo histórico de 2022, onde só caíram nas meias-finais, e garantir que continuam a ser a seleção africana com maior capacidade para chegar longe no Campeonato do Mundo. Na memória, obviamente, estava precisamente a meia-final do Qatar que os franceses venceram sem margem para oposição, saltando para uma final que acabariam por perder para a Argentina em Doha.

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Ora, apesar do dia de pausa, o Mundial 2026 não parou no que diz respeito a notícias — principalmente depois de Celeste Amarilla, deputada do Paraguai, ter insultado Kylian Mbappé na sequência da eliminação dos sul-americanos pela mão de França. “Um camaronês colonizado que se faz passar por francês, ressentido, novo-rico, arrogante e feio. Esteve nervoso e morreu de medo durante todo o jogo, tal como toda a sua equipa. A única coisa que muitos de nós criticamos à ‘albirroja’ é não lhe ter dado uma bofetada com a mão aberta depois de o jogo ter terminado […] O bruto nem sequer aprendeu a escrever. Em vez de leite materno chupava cocos e o mais instruído que ouvia eram os chimpanzés”, escreveu, alegadamente motivada pelo facto de o avançado não ter cumprimentado Orlando Gill, guarda-redes paraguaio, após o apito final.

Pouco depois, naturalmente, Mbappé respondeu. “Senhora Celeste Amarilla, a senhora é uma mulher desprezível e indigna do cargo que ocupa. A senhora não representa o Paraguai, este país que demonstrou paixão e honra ao longo de toda a competição. Devido à sua imprudência e ao seu racismo descarado, o mundo inteiro já esqueceu a trajetória e o esforço histórico que os seus jogadores realizaram durante este Mundial, dando lugar a uma senhora incompetente que transmite a pior imagem possível do seu país. Nunca permitirei que pessoas como ela tenham a liberdade de propagar o seu ódio e o seu racismo pelo mundo”, disse o jogador do Real Madrid, sendo que entretanto surgiram vídeos de um festival paraguaio onde foi incinerada uma efígie com o nome de Mbappé.

Polémicas à parte, esta quinta-feira e face ao jogo anterior contra o Paraguai, Didier Deschamps só trocava Bradley Barcola por Doué, mantendo Dembélé e Michael Olise no apoio a Mbappé. Do outro lado, Mohamed Ouahbi não contava com o goleador Ismael Saibari, que se lesionou contra o Canadá, e apostava em El Khannouss, Brahim Díaz e Chemsdine Talbi, sendo que o médio Ayyoub Bouaddi, de 18 anos, tornava-se o segundo jogador mais jovem de sempre a jogar os quartos de final de um Mundial, apenas atrás de Pelé, que tinha 17 anos em 1958.

Numa primeira parte que terminou sem golos, os franceses poderiam ter inaugurado o marcador logo nos instantes iniciais e de forma consecutiva, com Bounou a parar um remate de Mbappé (4′) antes de também travar um cabeceamento de Upamecano (4′). Os marroquinos procuraram soltar-se do domínio embrionário do adversário, mas raramente tinham bola e não conseguiam aproximar-se da baliza de Mike Maignan. Já perto da meia-hora, Mbappé foi travado em falta por Mazraoui dentro da grande área, mas na conversão da grande penalidade permitiu a defesa de Bounou e manteve o nulo (28′). Ao intervalo, já depois de Lucas Digne ter acertado na barra com um pontapé de muito longe (45+2′), França e Marrocos estavam ainda empatadas em Boston.

O encontro mudou ligeiramente na segunda parte, com os marroquinos a darem a ideia de que queriam deixar uma imagem diferente ao subirem linhas e aproximarem-se da baliza contrária, mas foi sol de pouca dura. Bounou voltou a ser crucial ao encaixar um remate forte de Doué (55′), mas nada conseguiu fazer para parar um pontapé em jeito de Mbappé, já na área, que abriu o marcador à passagem da hora de jogo (60′). Pouco depois, Dembélé arrancou pelo corredor central, enquadrou-se e fez um autêntico passe à baliza, com Bounou a desviar ainda a bola, mas sem conseguir o segundo golo dos franceses (66′).

Mbappé ainda saiu já no último quarto de hora, aparentemente em dificuldades físicas, e já nada mudou até ao fim — com Mike Maignan a encaixar ainda um remate forte de Ounahi (83′). França venceu Marrocos em Boston e está nas meias-finais do Mundial 2026, ficando agora à espera de Espanha ou Bélgica na próxima ronda.

A estrela

  • Foi só mais um dia para recordar. Kylian Mbappé voltou a marcar no Mundial 2026, chegando aos oito golos e voltando a colar-se ao registo de Lionel Messi, abrindo a vitória contra Marrocos com um verdadeiro truque tirado da manga num lance que parecia não ter nada para oferecer. Mais do que isso, e apesar de ter falhado uma grande penalidade ainda na primeira parte, o avançado do Real Madrid reagiu da melhor maneira aos dias surreais em que uma deputada de um país soberano decidiu insultá-lo da maneira mais vil e cruel. Por agora, leva 20 golos em 20 jogos em Campeonatos do Mundo — mais do que qualquer outro jogador nos primeiros 20 jogos da carreira na competição.

O joker

  • Apesar de não ter conseguido levar Marrocos até às meias-finais, Bounou merece todas as distinções. Naquela que poderá ter sido a sua despedida dos Campeonatos do Mundo, o guarda-redes de 35 anos defendeu tudo o que tinha para defender até não conseguir mais — incluindo uma grande penalidade de Mbappé. Adiou o golo de França até poder e foi, sem grande margem para dúvidas, o melhor jogador marroquino nos quartos de final do Mundial 2026.

A sentença

  • França está nas meias-finais do Mundial 2026 e fica agora à espera de Espanha ou Bélgica para saber quem defronta na próxima ronda. Os franceses chegaram a esta fase pela terceira edição consecutiva: em 2018 foram campeões do mundo na Rússia, em 2022 perderam a final para a Argentina no Qatar. Mais do que isso, a equipa de Didier Deschamps voltou a deixar bem claro que, a não ser que algo de muito surpreendente aconteça, é mesmo a grande e principal candidata à conquista do Campeonato do Mundo.

A mentira

  • Marrocos, afinal, continua a ter o mesmo teto na escadaria da progressão. Os marroquinos eliminaram Espanha e Portugal no Mundial 2022 e caíram com França na meia-final, enquanto que no Mundial 2026 eliminaram Países Baixos e Canadá, depois de já terem empatado com o Brasil na fase de grupos, caindo com França nos quartos de final. A seleção africana foi uma sombra do que tinha sido ao longo de todo o Campeonato do Mundo, muito por mérito dos franceses, e nem tudo pode ser explicado com a ausência de Ismael Saibari.