Dezenas de pessoas relatam espancamentos por guardas, privação de cuidados médicos, comida estragada e falta de condições higiénicas, entre vários abusos num centro de detenção do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira (ICE, sigla em inglês) dos Estados Unidos da América (EUA). Os casos foram revelados nesta quarta-feira num relatório de duas associações de direitos humanos.
O documento, divulgado pela Human Rights Watch (HRW) e pela União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), refere vários casos de homens e mulheres em Fort Bliss, em El Paso, no Texas, o maior centro de detenção de imigrantes dos EUA. Além de abusos físicos, as duas organizações não governamentais (ONG) denunciam más condições de saúde e alimentação. Há casas de banho “cobertas de fezes”, camaratas inundadas e falta de produtos de higiene, por exemplo, sendo que a assistência médica também lhes terá sido negada. Por outro lado, dão conta de comida estragada e de como são frequentes intervalos “inconsistentes” entre refeições: alguns dos imigrantes já chegaram a esperar 12 horas para comer.
Quando tentaram fazer greves de fome para protestar contra as condições em que se encontravam, dizem ter sido punidos pelos guardas, inclusivamente em situações de “castigo coletivo”, em que chegavam a agredir várias pessoas pelas “transgressões” de um detido.
De acordo com os dados do relatório, 90% dos 80 entrevistados teriam sofrido alguma forma de abuso, ou visto alguém nessas circunstâncias às mãos das autoridades.
O Departamento de Segurança Interna (DHS), “agência-mãe” do ICE, nega as acusações e diz que os relatos de condições “desumanas” são falsos.
No entanto, acrescenta o Los Angeles Times, os relatos deste relatório de 84 páginas vêm confirmar o que alguns órgãos de comunicação social, como, por exemplo, a agência Associated Press, têm vindo a noticiar.
E não será por falta de meios financeiros. Em maio, o Senado norte-americano aprovou um “financiamento recorde” para o ICE, num pacote avaliado em 70 mil milhões de dólares, ou 61,2 mil milhões de euros.
Aberto pela administração Trump em agosto passado, o centro de detenção temporária da autoridade de imigração falhou em garantir as condições mínimas de saúde para detidos, frisa o relatório. Pelo menos três pessoas morreram, incluindo um homem cubano de 55 anos que terá sido algemado e asfixiado pelos responsáveis do centro, assinalam as organizações não governamentais (ONG) no documento.
Aliás, desde janeiro de 2025, o início do segundo mandato do Presidente norte-americano, cerca de 50 pessoas morreram sob custódia do ICE, sublinha a Reuters.
Para além de abusos físicos, os guardas do centro também recorriam a abusos psicológicos. Segundo o relatório, tentam coagir os detidos a desistir dos seus pedidos de asilo e a aceitar serem expulsos para outros países, na eventualidade de não ser possível a deportação para o país de origem. Mais: são ainda privados do contacto com os seus advogados e familiares, factos negados pelas autoridades migratórias.
A HRW e a ACLU consideram ainda que a atuação do ICE na detenção de possíveis “imigrantes ilegais” pode constituir a figura de “desaparecimentos forçados”, violando assim o direito internacional humanitário.
Nesse sentido, Angélica César, uma das principais investigadoras, diz que o centro “é um desastre” e que deve ser encerrado pelo Governo norte-americano, exigindo uma investigação imparcial ao que ali se passa.
Ademais, diz que os abusos documentados no Fort Bliss são o resultado da política migratória de “deportações em massa” de Donald Trump e que os detidos são “seres humanos que merecem ser tratados com dignidade“.
O Presidente dos EUA tem justificado as ações do ICE como uma tentativa de “melhoria da segurança interna” do país, recorda a agência Reuters.
Texto editado por Dulce Neto