Os bilhetes mais baratos para a final do Mundial-2026, disputada esta tarde entre Espanha e Argentina no MetLife Stadium, custavam cerca de 9.500 dólares no mercado de revenda, com o valor médio a rondar os 15.300 dólares — números que, segundo a Forbes, tornam este o evento desportivo mais caro de sempre realizado em solo norte-americano. Os bilhetes de categoria 1 chegaram a ser vendidos pela FIFA por mais de 34 mil dólares, e há registos de bilhetes colocados em revenda por particulares a valores que ultrapassam os dois milhões de dólares. Para muitos adeptos, o acesso ao jogo mais importante do futebol mundial deixou de ser uma questão de sorte ou fila de espera — passou a ser uma questão de sacrifício real, financeiro ou não.
A contestação em torno dos preços já saiu do campo dos adeptos para chegar às instituições. Em março, a Federação Europeia de Adeptos e a organização de defesa do consumidor Euroconsumers — da qual faz parte a portuguesa DECO — apresentaram uma queixa formal à Comissão Europeia, acusando a FIFA de abuso de posição de monopólio e de aplicar preços dinâmicos que tornam os bilhetes incomportáveis para a generalidade dos adeptos. Também no Congresso norte-americano surgiram suspeitas de que o organismo estaria a limitar artificialmente a oferta de bilhetes para alimentar a sensação de escassez e disparar os preços.
Nem todos os protestos vieram de fora do relvado. Horas antes do apito inicial, Borja Iglesias, avançado espanhol que fazia parte da convocatória para a final, partilhou nas suas redes sociais uma imagem do portal SeatPick com os preços praticados na revenda — bilhetes que iam dos 4.451 euros aos 188 mil euros — e resumiu a sua indignação numa única frase: “Uma vergonha”, escreveu.
Una vez más, @BorjaIglesias9 demostrando que se puede ser futbolista y alzar la voz y NO PASA NADA pic.twitter.com/BHmMwDLaKN
— Olga Lorente (@OlguitaLorente) July 19, 2026
Iglesias, conhecido por assumir posições públicas sobre temas sociais, desde a luta contra a homofobia no futebol até ao apoio aos protestos pró-Palestina, reconheceu, no entanto, os limites da sua influência: “Penso que não é o momento para criar polémicas, as pessoas sabem perfeitamente o que penso. Gostava imenso de fazer muitas coisas, mas, mesmo que as pessoas achem que sou todo-poderoso, não tenho assim tanto poder para enfrentar certas situações”, esclareceu.
Um adepto argentino, entrevistado pela TYC Sports num banderazo em Nova Iorque — encontro informal de adeptos que transformou as ruas da cidade numa extensão de Buenos Aires —, resumiu bem essa realidade a poucas horas do apito inicial. “Faltam menos de 24 horas e ainda não tenho bilhete. Esta noite vou fazer uma última tentativa. Já tentei nos meus seis cartões, esgotei todos, mas ainda não consegui comprar nenhum”, confessou. A urgência tinha, para ele, um peso adicional: “Isto é em honra da minha avó, que morreu aqui durante este Mundial, três dias antes do jogo com a Suíça. Peço à minha avó, lá em cima, que nos dê mais uma ajudinha para que o cartão passe, e peço a Deus que nos ajude lá de cima, para podermos ser campeões do Mundial”. O adepto revelou ainda que este não era o primeiro sacrifício financeiro que fazia pela seleção: “Tive de vender o carro antes de viajar para o Qatar, porque fui a 48 jogos. Agora, só de ir aos jogos da Argentina, vou ter de vender o carro outra vez quando voltar, para pagar essa dívida, porque não tenho poupanças nem ninguém a quem pedir dinheiro”.
Do lado inglês, uma história semelhante — ainda que sem final feliz, já que a Inglaterra nem sequer chegou a este jogo — ganhou notoriedade nas últimas semanas. Andy Milne, professor reformado de 63 anos — e figura de culto entre os adeptos ingleses desde que se tornou viral no Qatar, em 2022, a segurar uma réplica do troféu do Mundial —, colocou à venda uma casa em Northwich, no norte de Inglaterra, avaliada em 350 mil libras, para financiar a viagem a este seu décimo Mundial, noticiou em março a ESPN. “Não se preocupem, ainda tenho onde viver”, brincou, ao confirmar a venda. Milne recordou ainda que, no seu primeiro Mundial, em Espanha, em 1982, um bilhete custava apenas cinco dólares. A Inglaterra acabaria eliminada nas meias-finais pela própria Argentina, disputando depois apenas o jogo de terceiro lugar, com a França.
Nem todos os sacrifícios passam pela conta bancária. Um adepto francês tornou-se conhecido ao longo deste Mundial por o ter seguido inteiramente à boleia e a dormir em casas de estranhos, sem bilhete para um único jogo — repetindo a proeza de 2022, quando a França também chegou à final.
@fifaworldcup He’s hitchhiked, couch surfed and travelled without a match ticket to follow France around the world. Now he’s our Lay’s Fan of the Match. ???????? #LaysFanoftheMatch #FIFAWorldCup26 #Lays @laysfootball @lays
Já o adepto congolês Michel Nkuka Mboladinga, que ficou conhecido por permanecer completamente imóvel durante os jogos da sua seleção, com um braço erguido ao céu, num gesto que presta homenagem a Patrice Lumumba, o primeiro primeiro-ministro da República Democrática do Congo, assassinado em 1961. Problemas com o visto impediram-no de assistir a alguns jogos decisivos da sua seleção nos Estados Unidos — algo que o próprio embaixador congolês em Washington lamentou publicamente —, mas isso não apagou o impacto do seu gesto: depois de se tornar viral durante a Taça das Nações Africanas, o Governo do Congo ofereceu-lhe um veículo todo-o-terreno, em reconhecimento pela forma como uniu o país à volta da sua seleção.
“Lumumba vive”. O homem-estátua da RD Congo que usa um gesto político para apoiar a sua seleção
Houve ainda quem improvisasse para simplesmente chegar ao estádio. A família Tsatsos, residente nos arredores de Nova Iorque, trocou os transportes públicos oficiais — sistematicamente sobrecarregados — por bicicletas, que prendiam a uma árvore perto do recinto antes de caminharem o resto do percurso a pé, com os dois filhos, de quatro e nove anos. “Da primeira vez, eu e o meu filho ficámos desidratados à espera de um Uber. Desta vez, meti as bicicletas na carrinha, estacionei de graça num restaurante e fizemos os últimos 20 minutos assim”, contou Adam Tsatsos, de 37 anos, à AFP.
Este tipo de dedicação tem raízes profundas na história do Mundial. Em 1978, dois adeptos escoceses sem dinheiro conseguiram boleia num navio a atravessar o Atlântico até à Argentina, pintando o casco ao longo da viagem para pagar a passagem — uma história que a BBC documentou anos depois. Em 2014, no Brasil, milhares de sul-americanos tornaram o Mundial acessível dormindo em autocaravanas espalhadas pelas cidades-sede. E na própria final de 2022, no Qatar, a história repetia-se: Luceo Colombera, adepto argentino, contou à Reuters, admirado com a quantidade de compatriotas à sua volta, que “alguns argentinos venderam a casa, o carro, para estarem ali” — e que o sonho de todos era ver Messi, finalmente, campeão do mundo. Nessa noite, viram.
Este Mundial de 2026 teve ainda o seu próprio exemplo desse género. Dois adeptos argentinos, Tony e Daniel, venderam um carro e recorreram às poupanças para financiar uma viagem de mota de mais de 14 mil quilómetros, desde a Argentina até aos EUA — sem sequer terem bilhetes garantidos para os jogos. A viagem, planeada ao longo de cinco meses, foi marcada por avarias mecânicas no México, uma travessia de barco de sete dias até ao Panamá e um transporte aéreo das próprias motas até à Colômbia. Ainda assim, a dupla conseguiu chegar a tempo do primeiro jogo da Argentina, no Kansas.
A poucas horas do apito inicial, o cenário em Nova Iorque não podia ser mais elétrico — nem mais tenso. O MetLife Stadium, com lotação para cerca de 82.500 espectadores, preparava-se para receber uma autêntica invasão albiceleste: estimam-se mais de 60 mil adeptos argentinos na cidade, muitos ainda sem bilhete garantido. Este domingo, encontrar um lugar por menos de 8.500 dólares é praticamente impossível, e os mais caros ultrapassam os 200 mil. Nas imediações do estádio, um adepto argentino resumia a frustração generalizada: “É uma loucura, a FIFA não pode permitir isto tudo”, afirmou, citado pelo Flashscore. Nas ruas de Manhattan, grupos de WhatsApp e Telegram tornaram-se, à falta de melhor opção, o mercado paralelo onde milhares continuavam, até à última hora, à procura do bilhete que lhes permita assistir à história.
Seja pela via da casa vendida, do carro trocado por gasolina, da boleia sem destino certo, ou da imobilidade voluntária de quem escolheu o silêncio como forma de homenagem, estas histórias partilham o mesmo fio condutor: a convicção, sentida por milhares de adeptos espalhados pelo mundo, de que um Campeonato do Mundo vale mais do que aquilo que custa para lá chegar.