Luís Represas destacou-se na dianteira dos Trovante, uma das bandas portuguesas mais relevantes do pós-25 de abril, e como cantor a solo. O músico, que morreu na manhã desta quarta-feira, com 69 anos, é recordado pela música, mas também pelo caráter e mensagem militante de esperança.
O guitarrista e compositor português João Gil lamentou a morte de Luís Represas, com quem fundou os Trovante em 1976. “Estamos agarrados às mesmas canções mas quando a voz e a alma desaparecem da nossa vista, há uma parte de nós que morre. Obrigado, Luís, devemos-te muito, devo-te muito. Até sempre, meu camarada!”
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, foi dos primeiros a manifestar o seu pesar pela morte do também compositor, que, numa publicação no X, considerou “uma perda para o país e para a nossa cultura”. Fazendo referência ao poema de Florbela Espanca que dá letra à música Perdidamente, o governante destacou que “o legado [de Represas] permanecerá tão contagiante como numa vida cheia de ‘sede de infinito… e dizê-lo cantando a toda a gente'”.
Luís Represas é uma das nossas maiores referências musicais.
A sua partida é uma perda para o país e para a nossa cultura, mas o seu legado permanecerá tão contagiante como numa vida cheia de “sede de infinito… e dizê-lo cantando a toda a gente”.
À família, aos amigos e a todos…— Luís Montenegro (@LMontenegro_PT) July 22, 2026
António José Seguro, por sua vez, publicou uma longa mensagem no site da Presidência da República, sublinhando que chora “a perda de um amigo”, mas que “enquanto houver quem cante as suas canções, Luís Represas continuará a regressar”.
“Partiu o homem. Ficou a voz”, admitiu o chefe de Estado. “Uma voz que soube transformar a nostalgia em esperança, a simplicidade em beleza e a música num lugar onde Portugal tantas vezes se reconheceu. Das praças aos palcos, dos dias de festa aos momentos de recolhimento, o seu talento ensinou-nos que há canções capazes de vencer o tempo.”
“O Luís Represas será sempre um dos nossos maiores. E Portugal, em dor, canta as suas canções”, lê-se ainda na mensagem. A Presidência não se ficou por aqui e numa homenagem musical está a passar canções de Represas a partir do Palácio de Belém para quem passa nas ruas.
▲ António José Seguro: “Em nome de Portugal, curvo-me perante a sua memória com gratidão. E abraço, com profunda solidariedade, a sua família, os seus amigos, os seus companheiros dos Trovante e todos aqueles que hoje sentem que perderam alguém da sua própria casa."
Presidência da República
O presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, recordou a atuação de Luís Represas nos Passos Perdidos do Parlamento, durante as comemorações do centenário da Sociedade Portuguesa de Autores. Numa mensagem de homenagem, publicada nas redes sociais, descreveu o concerto como “um momento singular, que ficará para sempre na memória do Parlamento”.
Aguiar-Branco destacou ainda o legado do fundador dos Trovante, sublinhando que foi “uma voz única”, com uma carreira marcada pelo “talento e generosidade”, levando a música e a língua portuguesas além-fronteiras. Citando uma das canções de Represas, acrescentou que, “como o próprio cantava, há sempre alguém que nos faz falta!”.
A ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, também prestou homenagem ao cantor na rede social X, onde escreveu que esta quarta-feira “desaparece uma das vozes mais icónicas da música portuguesa contemporânea, além de um talentoso compositor”. “A solo e com os Trovante, deixa uma marca inesquecível na nossa memória coletiva”, concluiu.
Morreu Luís Represas no ano em que celebrava 50 anos de carreira. Desaparece uma das vozes mais icónicas da música portuguesa contemporânea, além de um talentoso compositor. A solo e com os Trovante, deixa uma marca inesquecível na nossa memória coletiva.
— Margarida B Lopes (@margaridalopes) July 22, 2026
José Luís Carneiro e o PS lamentaram a morte, que o partido descreveu como a perda de “uma das vozes mais marcantes [de Portugal], um artista que soube transformar a música em memória, emoção e compromisso”.
Numa mensagem publicada no X, os socialistas recordaram em particular a canção Timor, descrita como “um hino de esperança, liberdade e solidariedade que acompanhou a luta de um povo e marcou profundamente a consciência de tantos portugueses”.
Portugal perde uma das suas vozes mais marcantes, um artista que soube transformar a música em memória, emoção e compromisso. O seu legado permanecerá vivo nas canções que atravessaram gerações e, de forma muito especial, em “Timor”, um hino de esperança, liberdade e… pic.twitter.com/3ZwgMybBhQ
— psocialista (@psocialista) July 22, 2026
No seu perfil particular, o secretário-geral do partido refletiu sobre uma obra que “uniu pessoas, despertou causas e mostrou que a cultura também é uma forma de cidadania”. “Há artistas cuja obra passa a fazer parte da nossa vida. Luís Represas foi um deles”, admitiu Carneiro, acrescentando que, “com a sua voz, a sua escrita e a sua forma de olhar o país e o mundo, [Represas] ajudou a construir uma banda sonora que atravessou várias gerações de portugueses”.
Há artistas cuja obra passa a fazer parte da nossa vida. Luís Represas foi um deles.
Com a sua voz, a sua escrita e a sua forma de olhar o país e o mundo, ajudou a construir uma banda sonora que atravessou várias gerações de portugueses. A sua música uniu pessoas, despertou… pic.twitter.com/4j0cIwO23F
— José Luís Carneiro (@jl_carneiro) July 22, 2026
Marcelo Rebelo de Sousa deixou uma mensagem ao músico e amigo que conhecia desde a infância, no site do gabinete do antigo Presidente da República. “Andámos e ficámos amigos na mesma escola infantil e primária. Ele uns anos mais novo. Já lá vão quase 70 [anos]”, escreveu Marcelo. “A última vez que o vi foi na Meo Arena, em março. Feliz”.
Já o presidente da Câmara de Lisboa sublinhou, na rede social X, o legado de “uma das vozes mais inesquecíveis da nossa música e de um dos homens mais generosos e admiráveis da cultura portuguesa”.
“Luís Represas cantou o amor, a paz e a liberdade com uma sensibilidade e elegância ímpares”, escreveu Carlos Moedas, recordando a relação especial que o falecido músico manteve com Lisboa. A cidade onde nasceu e que “tanto o inspirou”, foi celebrada “através das suas canções e de concertos que fazem parte da história” da capital. O autarca despediu-se com um “até sempre”.
Despedimo-nos de uma das vozes mais inesquecíveis da nossa música e de um dos homens mais generosos e admiráveis da cultura portuguesa. Luís Represas cantou o amor, a paz e a liberdade com uma sensibilidade e elegância ímpares.
Foi um lutador incansável pela independência de… pic.twitter.com/k3dEeA1SbC
— Carlos Moedas (@Moedas) July 22, 2026
Em declarações à Rádio Observador, Júlio Isidro, apresentador e entusiasta da música portuguesa — que promoveu nos vários programas que fez na televisão e na rádio ao longo dos anos — admitiu estar em “choque” com a morte do vocalista dos Trovante.
“Não me passava pela cabeça que ele estivesse a desenvolver uma doença”, admitiu. “Fiz uma entrevista coletiva [do grupo], fui sempre acompanhando… eles foram lançando os seus discos em programas meus…”, contou, destacando a “qualidade da inovação” de Represas. “Às vezes até fico tímido quando digo isto, mas lancei inúmeros grupos [e os Trovante] sublimaram a música tradicional portuguesa”.
Herman José fez eco dos votos de pesar numa publicação de Instagram, em que citou os Lusíadas de Camões para homenagear “outro Luís insubstituível”: “E aqueles que por obras valerosas / Se vão da lei da morte libertando”, escreveu o humorista na legenda de um excerto do programa Cá por Casa (emitido pela RTP) em que Luís Represas foi convidado.
Entre os colegas da música, Simone de Oliveira recusou falar apenas do cantor: “Apetece-me falar da pessoa”, admitiu a artista, que escreveu o tema Desencontro com o vocalista dos Trovante, à Rádio Observador. “Fui apanhada com um soco no alto da cabeça”, acrescentou, incrédula diante da morte inesperada do músico a quem chamou de “amigo”. “Que Deus o tenha em bom lugar; eu vou levá-lo no meu coração até a vida me deixar”, confessou.
A intérprete da banda The Gift, Sónia Tavares, recordou “aquela voz incomparável, das vozes mais bonitas que Portugal conheceu”, mas também “o património” que Luís Represas e a banda que fundou deixaram à música portuguesa. “Acho que a sua obra se confunde com a própria história do país“, admitiu à Rádio Observador. “Estas canções passaram a ser uma espécie de memória coletiva”, com destaque para o tema Feiticeira, que a cantora enalteceu num texto publicado no Instagram. “’O Represas faz canções tão bonitas que, mesmo que alguém as cante mal, continuam a ser bonitas”, dizia a minha mãe, rendida, enquanto ouvia a sua Feiticeira uma e outra vez'”, concluiu Sónia.
Pedro Abrunhosa interpelou Luís Represas na respetiva conta de Instagram, onde escreveu: “Tu que soubeste dar Voz aos poetas e cantar mais alto a profundidade, que incandesceste mundos escuros com o danzón cubano de gingado tuga, que nos prometeste estradas de azul há 125 anos, que batalhaste pelas causas mais nobres dos desprotegidos, acordaste hoje num outro Azul.” Num agradecimento ao músico, destacou que “a morte não devia levar os que cantam o Poema mais difícil: o da dignidade humana”.
Tony Carreira foi mais um dos cantores que se juntou ao coro de lamentos com uma reflexão sobre a voz “inconfundível”, da qual “ficam as canções, que merecem continuar a ser ouvidas, cantadas e partilhadas”. “Fica também o enorme sentido de humor que levava para todos os momentos. De todas as vezes que nos encontrámos, em estúdio, em palco ou em situações informais, havia sempre espaço para um sorriso, uma boa conversa e uma gargalhada”, continuou, deixando um voto de pesar à família do finado.
Sérgio Godinho recordou, numa mensagem publicada nas redes sociais, os tempos da sua “vida de palco com o Trovante””, “tão jovem e energética”. “Deixa-nos saudades, claro. E hoje, de repente, tenho uma grande saudade do Luís”, afirmou.
O músico admitiu que, “mais tarde, já na sua carreira a solo”, recebeu um convite de Luís Represas, “que trazia agarrada uma constatação: nunca tínhamos composto uma canção juntos – e ele queria cantá-la”. “Para isso, mandou-me uma música, e eu congeminei esta ‘Chave dos sonhos’. Hoje, em que ele partiu para outros sonhos, para nós tão misteriosos e desconhecidos, resta como uma forma de ele poder continuar connosco”, concluiu.