A Escola de Calceteiros de Lisboa, que este ano celebra 40 anos, está “quase inativa”, denunciou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Município de Lisboa (STML), criticando o “definhamento” desta estrutura para formação de novos profissionais.

A propósito dos 40 anos das Escolas de Calceteiros e de Jardinagem de Lisboa, Nuno Almeida disse à Lusa que, “durante vários anos, a própria escola alimentou muito saber e captação de trabalhadores para estas áreas”, mas nos últimos 15 anos verificou-se uma redução “quase drástica” da atribuição de cursos e de formação.

A situação reflete-se na qualidade do trabalho que é prestado à cidade, apontou o dirigente sindical, referindo que há mais de uma década que o STML começou a apontar “bastantes críticas ao definhamento” das Escolas de Calceteiros e de Jardinagem.

Visão diferente tem a vereadora de Projetos e Obras em Espaço Público na Câmara Municipal de Lisboa (CML), Joana Baptista (independente eleita pelo PSD), que afirmou, em declarações à agência Lusa, que a autarquia tem reforçado a componente formativa.

No entanto, o STML reforçou que estas escolas deixaram de apostar nos cursos de formação mais intensivos e mais completos, sendo que, também por isso, deixaram “de captar a atenção de jovens trabalhadores que pudessem vir a seguir estes caminhos”.

O dirigente sindical adiantou ainda que se verifica “uma opção pela externalização” destes serviços, com a contratação de privados em vez de recrutamento de trabalhadores para os quadros da CML, o que considera que tem prejudicado a manutenção do espaço público da capital, quer da calçada, quer dos jardins.

“Esperamos e apelamos vivamente à Câmara que retome as Escolas de Calceteiros e de Jardinagem como um elemento formativo, mas também potenciador da captação de trabalhadores para estas áreas que tanto fazem à cidade”, realçou Nuno Almeida, reforçando a necessidade de apostar na formação interna de forma contínua.

Neste momento, segundo o sindicalista, os aprendizes passam logo para a prática, sem formação prévia, e têm de aprender com os colegas: “São os próprios calceteiros colegas que têm de os ensinar de raiz, porque estas pessoas poucas ou nenhumas terão experiência externa para esta profissão.”

Partilhando a preocupação de que as profissões de calceteiro e de jardineiro estejam em risco de extinção na cidade, o representante ressalvou que tal não se deve exclusivamente ao não funcionamento das escolas e destacou a questão dos salários e do não reconhecimento e valorização destes trabalhadores na administração pública.

Se o salário é mau, o trabalho é mau, é claro que não é apelativo, nem atrativo, vir para a administração pública e principalmente para este tipo de profissões”, expôs, reconhecendo que a CML tem aberto concursos para recrutamento de calceteiros e jardineiros, mas há vagas disponíveis que ficam por preencher.

No caso dos calceteiros, existiam cerca de 20 profissionais até ao final de 2025, sendo que já chegaram a ser 400 na década de 1940, referiu o responsável do STML, indicando que a CML tem recrutado novos trabalhadores — há, inclusive, um concurso aberto com 20 vagas, sendo previsível que seja concluído no final deste ano.

No entanto, Nuno Almeida assegurou que não existem, neste momento, 40 calceteiros em exercício efetivo de funções na cidade, contrariando as declarações da vereadora Joana Baptista à Lusa sobre o município ter duplicado o número de profissionais dedicados à calçada artística portuguesa: “Passámos de 20 calceteiros para 40 calceteiros.”

Num esclarecimento posterior, a assessoria da vereadora explicou que há cerca de 20 calceteiros e outros 20 estão em processo de recrutamento, prevendo-se que a prova física do concurso seja em setembro e a admissão destes novos trabalhadores ocorra entre outubro e novembro deste ano.

Na perspetiva do sindicato, é preciso “um ‘mix’ de medidas de valorização, não só dos salários, mas também da própria profissão e do saber associado”, atendendo às condições físicas de trabalho, com falta de máquinas, de ferramentas e até de viaturas para transportar estes trabalhadores, a que se junta a degradação dos locais de trabalho.

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