Para a Gazzetta dello Sport, o AC Milan “não está lá”. Para o Corriere dello Sport, foi uma “tempestade de Amorim”. Para o Tuttosport, os rossoneri foram um “pobre diabo”. Esta quinta-feira, na ressaca da vitória do Benfica em San Siro, as capas dos jornais desportivos italianos não pouparam o AC Milan — e muito menos pouparam Ruben Amorim. 

Os italianos começaram a Liga Europa da pior maneira, somando o terceiro jogo consecutivo sem ganhar e a primeira derrota da temporada, e a comunicação social do país vinca principalmente a exibição pobre da equipa de Ruben Amorim. Sem algumas das principais figuras no onze inicial, mas também contra um Benfica onde Marco Silva geriu e muito o plantel, nem sequer a entrada de Pulisic, Rabiot, Diego Moreira ou Saelemaekers na segunda parte virou o destino de um jogo que pareceu estar sempre decidido.

Marco escreve direito por segundas linhas que não são nada tortas (a crónica do AC Milan-Benfica)

Para lá das capas, aliás, as conclusões não foram mais simpáticas. A Gazzetta dello Sport defende que “não há nada” no AC Milan e sublinha que Ruben Amorim foi assobiado depois do apito final. “Não há uma fase ofensiva convincente e atrás é como estar numa autoestrada norte-americana: faixas largas para entrar, espaços enormes. Seria melhor uma autoestrada italiana em obras: atenção, estreitamento da faixa de rodagem, passa um de cada vez”, acrescenta o jornal.

Para o Corriere dello Sport, o problema começou logo no início. “Não há dúvidas, errou na escolha do onze inicial. E, feitas as contas, é o quarto jogo consecutivo em que isso acontece. Tem de rever algumas das suas opções”, escreveu o jornal, que personalizou ainda a má exibição de Gonçalo Ramos. “Já são três jogos em que não remata à baliza e ontem teve dificuldades até para controlar a bola. É verdade, mas também é chamado a levar a equipa às costas. A equipa não o ajuda, mas ele também faz pouco para se ajudar a si próprio”, pode ler-se sobre o internacional português.

Por fim, no Tuttosport, fala-se em “desastre total”. “Já é noite cerrada para o AC Milan, justamente assobiado de forma ensurdecedora pelo San Siro depois da derrota em casa frente ao Benfica. Nada está comprometido, mas a sensação é de que a jogar desta forma o AC Milan irá percorrer um caminho curto esta temporada, tanto na Europa como no Campeonato, tendo em conta que ainda está bem presente na memória o rocambolesco empate em Roma frente à Lazio. Os dois jogos apresentaram inquietantes semelhanças, o que deve obrigar a uma importante reflexão a todos os níveis dentro do clube”, defende.

Logo depois do jogo, entre a zona de entrevistas rápidas e a conferência de imprensa, Ruben Amorim também não procurou encontrar muitas explicações e rendeu-se às evidências. “Faltou muita coisa. Assim que sofremos o golo nunca mais nos encontrámos, desorganizámo-nos e o Benfica deu-nos a bola para que nós próprios a perdêssemos. Ainda temos de trabalhar muito nesse aspeto. O Benfica esteve sempre muito confortável, à espera do nosso erro, enquanto que a nossa equipa ficou muito ansiosa a jogar em casa e a querer fazer tudo demasiado rápido. O Benfica matou o jogo com o segundo golo, esperou pelas transições e nós tivemos a bola junto à área, mas faltou-nos criatividade”, começou por dizer o treinador português.

Mais à frente, Amorim reconheceu que é preciso tirar “um peso” ao AC Milan. “A pressão é grande, mas também é por isso que estamos em clubes grandes. Temos de saber lidar com essa pressão e combatê-la. Estes momentos são difíceis, mas temos de continuar a trabalhar e pensar já no próximo jogo. Não gosto de estar sempre a falar sobre as mesmas coisas, parece que estou há dois anos e meio a repetir as mesmas coisas. É pensar no próximo jogo e tentar vencer”, atirou, aparentemente comparando a situação atual à que encontrou no Manchester United quando chegou a Inglaterra.

Fora dos jornais, as vozes também não foram propriamente animadoras. Paolo Di Canio, antigo jogador do AC Milan nos anos 90 que foi também treinador, arrasou por completo as decisões de Ruben Amorim. “A diferença é brutal entre o Benfica, que tem jogadores que jogam de olhos fechados, e o AC Milan, que é uma equipa ainda em construção e com um treinador que tenta impor as suas próprias ideias. Viu-se isso. O adulto Rabiot fica de fora do onze titular porque Amorim não fala com os jogadores mais velhos, que têm experiência e peso superiores ao dele. Certos treinadores jovens são assim. As mesmas coisas aconteceram quando ele treinava o Manchester United, tanto na relação com o grupo como com os jogadores”, indicou o antigo avançado.

Dentro desse grupo e entre esses jogadores, contudo, surgiu a principal defesa de Ruben Amorim. Ardon Jashari, que foi titular, explicou que a equipa tem de “acreditar neste projeto”, mas que “assim não é suficiente”. “Temos de ser agressivos e isso não tem nada a ver com o projeto. Se somos agressivos, despertos, se estamos lá desde os primeiros segundos e com espírito de equipa… Agora, se fazemos m****, se não criamos problemas ao adversário… Isso não tem a ver com o projeto. Faltou-nos algo, tanto com bola como sem bola. Não é suficiente quando não dás 100%, sofres golo e não marcas. Penso que é essa a análise ao jogo”, disse o médio suíço, com Koni De Winter a concordar e a lembrar que “o mister dá a base”, mas os jogadores é que têm de “colocar intensidade e criatividade para criar ocasiões”.