Era um clássico europeu recheado de reencontros. Entre duas equipas que já discutiram duas finais da Taça dos Campeões Europeus, sempre com alegria italiana e desilusão portuguesa, acumulavam-se as coincidências. Ruben Amorim reencontrava o Benfica, onde jogou, e também João Palhinha, que treinou no Sporting. Gonçalo Ramos reencontrava o mesmo Benfica, onde realizou a formação. Ruben Amorim e Marco Silva reencontravam-se, depois de terem sido adversários na Premier League. E também Rui Costa voltava ao estádio do AC Milan, que representou durante cinco anos.

Visitar San Siro, portanto, não era apenas mais um dia para o Benfica. Os encarnados começavam a Liga Europa com um jogo que podia ser de Liga dos Campeões, vindos de sete vitórias consecutivas e antes de um clássico no Dragão contra o FC Porto — ou seja, era necessário tentar ganhar e começar bem uma competição europeia onde existem objetivos palpáveis, mas também gerir o plantel para o próximo domingo frente aos dragões. Pelo meio, Marco Silva defrontava Ruben Amorim. Ou, noutras palavras, o novo treinador do Benfica defrontava aquele que foi a primeira opção para ser o novo treinador do Benfica.

Ficha de jogo

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AC Milan-Benfica, 0-2

Fase de liga da Liga Europa

San Siro, em Milão (Itália)

Árbitro: Jarred Gillett (Austrália)

AC Milan: Mike Maignan, Filippo Terracciano (Mario Gila, 45′), Koni De Winter, Pavlovic, Samuel Chukwueze, Yunus Musah, Ardon Jashari (Adrien Rabiot, 74′), Davide Bartesaghi (Saelemaekers, 57′), Omari Hutchinson (Christian Pulisic, 45′), Alphadjo Cissé (Diego Moreira, 57′), Gonçalo Ramos

Suplentes não utilizados: Lorenzo Torriani, Pervis Estupiñán, Ruben Loftus-Cheek, Luka Modric, Fikayo Tomori, Matteo Gabbia, Francesco Camarda

Treinador: Ruben Amorim

Benfica: Trubin, Daniel Banjaqui, Alessandro Circati, Tomás Araújo, El Karouani (Samuel Dahl, 88′), Fredrik Aursnes (Leandro Barreiro, 70′), João Palhinha, Jakub Kaminski (Schjelderup, 80′), Sudakov (Prestianni, 70′), Lukebakio, Jhon Durán (Pavlidis, 80′)

Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Lenglet, Enzo Barrenechea, Manu Silva, Rafa Silva, Claudio Echeverri, Anísio Cabral

Treinador: Marco Silva

Golos: Lukebakio (16′), Jakub Kaminski (53′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Pavlovic (11′), a El Karouani (26′), a Jhon Durán (37′), a Daniel Banjaqui (77′), a Pavlidis (90+2′)

“Em relação ao conhecimento que ele tem de mim… É recíproco. Ele sabe perfeitamente, defrontámo-nos muitas vezes, não em Portugal, mas em Inglaterra. Há um conhecimento mútuo, isso faz parte. E, mesmo que não houvesse, naturalmente que como grande treinador que é teria feito a sua análise, como nós fizemos a nossa. Mas é uma realidade. No pouco tempo em que ele esteve em Inglaterra defrontámo-nos algumas vezes e é normal que ainda estejam algumas coisas na mente de um e do outro. Mas hoje em dia também já não há segredos, mesmo que não existisse esse conhecimento entre ambos e a ligação do Ruben ao futebol português é fácil ter acesso hoje em dia. Será um jogo muito complicado e esperamos estar à altura, como é nossa obrigação”, disse Marco Silva na antevisão da partida.

Assim, em Milão, o treinador encarnado definia claramente as prioridades e só mantinha dois jogadores face ao último jogo contra o Gil Vicente, Tomás Araújo e Daniel Banjaqui, mudando todos os outros. Trubin aparecia na baliza, Alessandro Circati e El Karouani completavam a defesa, João Palhinha e Fredrik Aursnes eram a dupla de meio-campo e Sudakov, Lukebakio e Kaminski apoiavam Jhon Durán. Do outro lado, num AC Milan que vinha de dois empates, Ruben Amorim também geria e deixava Luka Modric, Pulisic e Adrien Rabiot no banco, com Omari Hutchinson, Alphadjo Cissé e Gonçalo Ramos no ataque, sendo que Diego Moreira era também suplente.

O Benfica teve o primeiro lance de algum perigo, com Jhon Durán a receber na área e a rematar contra um adversário (5′), mas a verdade é que não foi preciso esperar muito para perceber que o AC Milan demorou a entrar no jogo. Os encarnados arrancaram mais pressionantes, mais intensos e rápidos, e só precisavam de alguns passes e alguns segundos para chegar ao último terço contrário. Lukebakio avisou uma vez, com um remate que Mike Maignan encaixou à passagem do quarto de hora inicial (15′), mas à segunda deixou muito mais do que um aviso.

O avançado belga recebeu descaído na direita à entrada da grande área, puxou para dentro e levou consigo vários adversários antes de atirar forte e colocado para abrir o marcador (16′). O ascendente dos encarnados manteve-se depois do golo, com Sudakov a ficar muito perto de aumentar a vantagem com um pontapé que acertou no poste (24′), mas a aproximação da meia-hora equilibrou as circunstâncias.

O AC Milan subiu as linhas, juntou os blocos já para lá do meio-campo e ganhou alguma motivação com um remate de muito longe de Filippo Terracciano que Trubin defendeu em voo (27′). Ainda assim, toda a reação italiana era inconsequente. O Benfica não voltou a criar perigo durante toda a primeira parte, mas também não permitiu praticamente nada ao adversário e manteve-se coeso e muito organizado defensivamente, enquanto que a equipa de Ruben Amorim trocava a bola nas imediações da grande área, mas acumulava cruzamentos inofensivos ou passes errados.

Os italianos ainda beneficiaram de uma fase de maior controlo mesmo na ponta final da primeira parte, numa altura em que os encarnados pareciam já algo desconcentrados, com Ardon Jashari a rematar por cima (41′), Omari Hutchinson a falhar também o alvo (44′) e Cissé a atirar para Trubin encaixar (45+1′), mas já nada mudou. Ao intervalo, em San Siro, o Benfica estava a vencer o AC Milan pela margem mínima. 

Ruben Amorim mexeu logo no início da segunda parte e lançou Pulisic e Mario Gila, abdicando de Omari Hutchinson e Filippo Terracciano, com o AC Milan a regressar do balneário com outra atitude e intensidade, criando desde logo uma enorme oportunidade para empatar com um remate de Koni De Winter que passou ao lado (50′). Os italianos puseram uma velocidade abaixo para acelerar, iam aproveitando a quebra física de Lukebakio para atacar pela esquerda e os encarnados demoravam a acordar.

Quando acordaram, porém, foram letais. Na primeira vez em que se aproximou da baliza contrária na segunda parte, o Benfica viu El Karouani subir pela esquerda para cruzar atrasado para a área e à procura de Kaminski, que apareceu a rematar forte e de primeira para aumentar a vantagem e estrear-se a marcar (53′). Ruben Amorim reagiu com outras duas alterações, colocando Diego Moreira e Saelemaekers, e os italianos fizeram uma espécie de all in de quem não tinha nada a perder — com Pulisic a ficar muito perto de reduzir com um remate rasteiro na área que Trubin encaixou (62′).

Marco Silva respondeu com as primeiras substituições, lançando Leandro Barreiro e Prestianni nos lugares de Sudakov e Aursnes, e Ruben Amorim esgotou as alterações com a entrada de Adrien Rabiot — que entrou para rematar por cima da trave no espaço de segundos (75′). O jogo entrou numa toada mais calma, com os encarnados a terem o mérito de terem conseguido estancar a entrada em campo de alguns dos melhores jogadores dos italianos, e os minutos foram passando sem que Trubin passasse propriamente por grandes sobressaltos.

Pavlidis, Schjelderup e Samuel Dahl ainda tiveram alguns minutos, mas já nada mudou. O Benfica venceu o AC Milan pela primeira vez na história em jogos oficiais e começou a Liga Europa da melhor maneira em San Siro, conquistando os primeiros três pontos na fase de liga da competição europeia. Num dia em que optou pelas segundas linhas na antecâmara da visita ao Dragão para o clássico contra o FC Porto, Marco Silva ganhou a aposta e mostrou que tem plantel para dar e vender.