Três distritos moçambicanos já apresentam o nível máximo de vulnerabilidade nutricional associado ao fenómeno El Niño, numa avaliação que identificou riscos elevados em quase todo o país e alertou para um agravamento da insegurança alimentar nos próximos meses.
Em causa estão os distritos de Doa, na província de Tete, e de Morrumbala e Lugela, na Zambézia, centro de Moçambique, classificados no nível máximo de vulnerabilidade nutricional associado ao fenómeno – que se espera com secas profundas no sul e chuvas intensas no norte – conforme análise recente do Cluster de Nutrição consultada esta quinta-feira pela Lusa.
Os três distritos surgem na categoria de severidade 4, a mais elevada do Índice de Vulnerabilidade Nutricional associado ao El Niño, que procura identificar territórios com maior risco de deterioração do estado nutricional da população devido a choques climáticos, insegurança alimentar, doença e outras vulnerabilidades.
A avaliação foi realizada no âmbito do Cluster de Nutrição, mecanismo de coordenação que reúne o Governo moçambicano, agências das Nações Unidas e organizações humanitárias, e baseia-se em análises conduzidas por entidades nacionais como o Secretariado Técnico de Segurança Alimentar e Nutricional (SETSAN) e parceiros do setor.
Os resultados indicam que a vulnerabilidade não se limita aos três distritos classificados no nível mais crítico, tendo a análise incidido em cerca de 70 distritos do país, dos quais 45 foram enquadrados em severidade 3 e outros 22 em severidade 2, mostrando que grande parte das zonas avaliadas enfrenta riscos nutricionais significativos.
Os dados apontam para 1,1 milhão de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda em Moçambique entre julho e setembro de 2026, incluindo cerca de 81 mil em situação de emergência. As projeções para o período entre outubro de 2026 e março de 2027 apontam para um agravamento da situação, com cerca de 1,8 milhão de pessoas em insegurança alimentar aguda e aproximadamente 254 mil em situação de emergência.
Paralelamente, a análise da desnutrição aguda estima que 103.617 crianças entre os 6 e os 59 meses sofram de desnutrição aguda, às quais se juntam 11.131 mulheres grávidas e lactantes também afetadas.
A degradação dos indicadores, acrescenta, resulta da conjugação de vários fatores, entre os quais a insegurança alimentar, surtos recorrentes de cólera, elevada incidência de doenças infantis, limitações no acesso a água potável e saneamento, fenómenos climáticos extremos e, em algumas regiões, os efeitos da insegurança e dos deslocamentos populacionais.
Refere ainda a preocupação com os atrasos na divulgação dos resultados de análise no terreno, reduzindo a capacidade de antecipação e resposta dos intervenientes humanitários.
Face aos indicadores apresentados, os parceiros defenderam que a resposta não deve centrar-se apenas no tratamento dos casos de desnutrição já identificados, mas também em medidas preventivas destinadas às populações em risco, incluindo assistência alimentar, suplementação nutricional, distribuição de micronutrientes, transferências monetárias e intervenções nos setores de água, saneamento e higiene.
O Presidente moçambicano pediu em 14 de setembro ações antecipadas para travar impactos do El Niño que se avizinha de forma “acelerada e assustadora”, apelando a novas formas de financiar a segurança alimentar num dos países mais afetados por desastres.
Daniel Chapo lembrou que o país é ciclicamente afetado por desastres naturais, pedindo atenção no reforço da segurança alimentar: “Precisamos de antecipar. Por isso (…) estamos a insistir em falar do El Niño exatamente para podermos antecipar, prevenir e construir resiliência, investindo na gestão de água, irrigação, tecnologia adaptada, sistemas de alerta precoce e armazenamento, com o El Niño a avizinhar-se, como fizemos referência, de uma forma acelerada e assustadora”.