A NTGroup rejeitou esta terça-feira qualquer vínculo com o Estado português ou reclamação de indemnizações ao Governo após o negócio de aquisição das fragatas à Fincantieri e responsabilizou a empresa italiana pelo seu afastamento do processo.

Esta posição foi defendida pelo diretor-geral da empresa portuguesa NTGroup, Alexandre da Cruz Costa, que foi esta terça-feira ouvido na comissão parlamentar de Defesa a pedido do Chega. Em causa está uma notícia publicada em agosto pelo jornal online 24Horas que referia um afastamento à última hora da empresa, que participaria como intermediária da operação, que teria motivado a perda de uma comissão de cerca de 90 milhões de euros.

À pergunta do deputado do PSD Bruno Vitorino sobre se a empresa “tem ou teve representação, mandato, vínculo ou qualquer tipo de contrato” com o Estado português, o responsável negou. Já sobre se a empresa “reclamou, reclama ou admite reclamar” alguma comissão paga pelo Estado português, pergunta do deputado do CDS-PP João Almeida, o diretor-geral voltou a rejeitar.

“A NTG não foi afastada pelo Governo, a NTG foi afastada pela Fincantieri”, afirmou, adiantando que a empresa portuguesa iniciou relações com os italianos em “finais de 2020” e o contrato era renovado anualmente.

Em junho de 2025, segundo o diretor-geral, surgiu um pedido da Fincantieri para organizar uma reunião com o Chefe do Estado-Maior da Armada, a pedido do CEO dos italianos.

“No dia 14 de julho há essa reunião e é-nos comunicado que não é preciso participarmos. Foi a primeira vez que aconteceu, não sabemos qual foi a motivação, não sabemos o porquê, mas foi nesse momento que percebemos que não iríamos participar dessas reuniões”, acrescentou.

Alexandre da Cruz Costa explicou que o papel do NTGroup como intermediário neste tipo de operações é fazer estudos de mercado e estabelecer contactos com as Forças Armadas, relatando que participou numa reunião com o anterior chefe da Marinha, almirante Mendes Calado, para abordar o portfólio da Fincantieri, bem como com o almirante Henrique Gouveia e Melo.

“O que se passa é que, nessa altura, Portugal não sonharia em poder adquirir as fragatas FREMM EVO. Gostaria, mas estava fora do horizonte. O que veio alterar este cenário foi o SAFE”, realçou, referindo-se aos empréstimos europeus através dos quais Portugal vai conseguir adquirir estas fragatas num negócio que ascende aos 3,9 mil milhões de euros.

Foi na fase final das negociações que a NTGroup foi afastada, afirmou o responsável. Interrogado pela deputada do Chega Sandra Ribeiro sobre os motivos, Alexandre Costa disse não ter tido resposta.

“Nós continuamos a achar que temos direito a ser remunerados pelo trabalho feito, mas isso é uma coisa que nada tem a ver com o Governo, tem a ver com a relação comercial que existe entre a NTG e a Fincantieri”, frisou.

O responsável adiantou que caso não exista acordo a empresa portuguesa irá avançar para tribunal.

Quanto às comissões neste tipo de negócio, questionado pelo Chega, o diretor-geral disse não poder abordar valores “ao abrigo de um contrato de confidencialidade com a Fincantieri”.

Já na fase final da audição, o deputado do Chega, Nuno Simões de Melo, perguntou ao responsável se o eventual pagamento pelos italianos de uma indemnização poderia originar um “aumento dos custos para o Estado português”.

Alexandre Costa disse ter “a sensação que não”, remetendo para “valores de mercado” e acrescentou que caso a empresa portuguesa receba uma indemnização pagará os seus impostos, o que “é bom para o Estado português”.

Em resposta ao PS, o diretor-geral adiantou ainda que a NTGroup tem vários contratos estabelecidos com as Forças Armadas portuguesas.