Entre o longo comunicado de cinco páginas de Cristiano Ronaldo para explicar a “sua” verdade depois de ter abandonado a concentração da Seleção em Copenhaga, depressa houve uma parte que ganhou outro peso face a tudo o resto: o pequeno documento com oito pontos que tinha sido preparado para Jorge Jesus ler na conferência de imprensa de antevisão à partida com a Dinamarca. Por partes: houve a reunião entre Ronaldo, Jesus e Simão Coutinho, depois uma videoconferência dos três com Tiago Craveiro, de seguida foi elaborado o rascunho que passou pelo jogador para ser validado e chegou ao destinatário. O treinador não o leu.
Ainda assim, terá Jorge Jesus passado completamente ao lado do seu conteúdo? Não. O facto de utilizar os nomes de Pelé e Maradona como exemplos de grandes ícones que não gostariam de estar 20 ou 30 minutos a aquecer para depois não entrarem é um exemplo paradigmático disso mesmo, bem como a forma como Jorge Jesus fez questão de desmentir que alguma vez Ronaldo se tivesse recusado a treinar. Depois, houve vários outros pontos abordados mas “à maneira” do selecionador, que pelo meio quis também reforçar o seu papel enquanto líder para dizer que todas as decisões técnicas passavam apenas por si. Juntando tudo o que foi referido, mesmo sem ler o supracitado documento, foi mais o que disse do que o que não disse.
“Propus ao Cristiano eu mesmo, sem mais ninguém, um plano para ele, esta época desportiva, na Seleção Nacional. Foi uma conversa demorada e muito boa”
Na conferência de imprensa de antevisão ao jogo com a Dinamarca, Jorge Jesus recuou ao encontro feito em Oslo e utilizou Bruno Fernandes também como termo de comparação do que estava planificado para estes quatro encontros da Liga das Nações. “É verdade que eu combinei isso com ele, criámos um plano como com o Bruno Fernandes e disse ao Cris que no jogo na Noruega e no jogo na Dinamarca ele não iria jogar. Porque eu trabalhei um ano com o Cris. Não cheguei há três meses à Seleção e conheci o Cris, eu conheço completamente as condições físicas do Cris e sei, porque já o fazia na Arábia Saudita, que quando havia jogos de três em três dias, raramente o Cris jogava”, começou por referir o selecionador.
“O Cris nunca treina no primeiro nem no segundo dia após o jogo. Nunca. Combinei isso com ele. Quando tivemos a primeira conferência de imprensa em Portugal [na Cidade do Futebol] falou sobre isto: ‘Se é para jogar jogo, se é para ficar no banco fico, o que o míster quiser’. Nunca se negou a nada. Foi isso que aconteceu. Só que eu sou um treinador que não vou para o banco a pensar que aos 60 minutos vou tirar o Carlos Daniel ou outro, não é assim que funciono no banco. O jogo é que me vai dizer o que vou fazer. Tinha combinado com ele que não jogava estes dois jogos, mas se calhar até ia precisar dele nos últimos minutos. Mas o jogo disse-me outras coisas e eu não o coloquei no jogo. Isto é o ponto verdadeiro”, acrescentou. Ou seja, sobre isto não havia dúvidas: foi Jorge Jesus que traçou o plano de utilização para o avançado, que ficou fechado em vésperas do anúncio da convocatória com as explicações técnicas e táticas para essa opção.
Sei o quanto ele vive e ama a Seleção e o peso que tem no mundo, mais ainda, o peso e a influência positiva que tem na Seleção há 24 anos consecutivos
Nessa conferência antes do jogo com a Dinamarca, Jorge Jesus não fez qualquer alusão em específico a este tema. Antes, já o tinha feito – e por várias ocasiões. Ainda como treinador do Al Nassr, o selecionador falou por mais do que uma vez dos inúmeros fãs que enchiam os estádios só para verem o avançado jogar ao vivo. Mais tarde, na apresentação como novo técnico principal de Portugal, Jesus falou na importância de CR7 para Portugal: “O Cris nunca vai ser um problema nem para a Seleção nem para mim. É um símbolo do futebol português, da Seleção, um símbolo de Portugal. É fácil trabalhar com ele desde que ele perceba até onde pode chegar, na relação treinador-jogador”. Mais tarde, o tema voltou a ser referido.
“O foco tem de ser a Seleção, o jogo com a Noruega, o que temos de fazer bem, em sintonia com o nosso povo. Mas isso não me faz ignorar o Cris. É um símbolo da Seleção portuguesa, é um símbolo de Portugal, que isso fique bem claro. Depois do jogo, há tempo para falar sobre isso”, comentou antes da partida no Dragão com a Noruega. “Concordo completamente com o que o Bruno [Fernandes] disse, essa também era a minha ideia. Uma das coisas que disse ao Cris era que não podia acabar de jogar na Seleção no Campeonato do Mundo a perder e a chorar. Tinha de acabar na Seleção a jogar. Por isso é que foi jogar no primeiro jogo no Estádio de Alvalade, era para jogar hoje aqui…”, recordou após esse mesmo encontro com a Noruega.
O plano que propus ao Cristiano foi aceite
Jorge Jesus falou por mais do que uma ocasião do plano que tinha sido falado com Cristiano Ronaldo e que tinha sido aceite pelo próprio. “É verdade que combinei com ele, criámos um plano como com o Bruno Fernandes e disse ao Cris que o jogo na Noruega e o jogo da Dinamarca ele não iria jogar. Estive um ano a trabalhar com o Cris. Não há caso nenhum. Já tive casos com muitos jogadores, não queriam fazer disto um caso que não existe. Tinha um plano com o Bruno, tudo igual. Isto para vos dizer que o estatuto é uma coisa, as regras são iguais para todos. O estatuto é o respeito pela carreira deles, como faço com todos, com o Cris, com outros que tive na carreira. Coloco sempre a questão do que quero fazer, do plano que quero traçar com o jogador e depois quem decide sou eu. Eles sabem, todos sabem que trabalharam comigo: num clube manda um presidente, na equipa mando eu, em tudo o que eu estiver”, destacou.
Apesar de não ter detalhado mais sobre a questão, essa parte era uma espécie de não questão tendo em conta tudo o que tinha sido escrito e não desmentido sobre esse ponto em específico: Jesus falou com Ronaldo a propósito do plano que tinha para os quatro encontros, o avançado concordou, contra o País de Gales acabou por sair a meio da segunda parte, não teve depois oportunidade de voltar a ser titular contra a Noruega. Aqui, só um ponto mudou em relação ao que estava previsto: Jesus recuou e disse a CR7 que contava com ele se estivesse em condições para fazer meia hora em Oslo se fosse necessário (como não foi).
Ele nunca questionou as minhas opções. Foi exemplar, leal e profissional
Também este ponto não foi referido de forma direta, havendo apenas a defesa do jogador por parte de Jorge Jesus perante a possibilidade de Ronaldo não ter treinado na véspera por opção própria. “Não, não se recusou a treinar. Não treinou o Francisco Conceição, que estava lesionado, o [João] Félix, porque tentámos descarregar a fadiga e vamos ver amanhã. O Cris fez trabalho de ginásio, fez mobilização no campo e depois fez trabalho de reforço para o hotel. Não recusou treinar, ele hoje vai treinar. É o quarto dia, portanto vai treinar. É impossível recusar treinar, vocês acham mesmo isso? Não é o Cris. Acham que algum jogador de uma seleção se recusa a treinar? Não é de Portugal, de qualquer outra Seleção? Só se se quiser ir embora e tiver outras ideias, ninguém se recusa a treinar”, assegurou o selecionador nacional.
A última frase foi depois muito utilizada como uma espécie de premonição para o que aconteceria no final desse dia, quando o jato privado de Ronaldo levou o jogador de Copenhaga para Madrid, mas, naquela que foi descrevendo a pessoas próximas como uma explicação “à sua maneira”, enfatizou essa ideia de que nunca Ronaldo tinha recusado treinar, estando apenas a cumprir um programa específico como já era prática quando ambos trabalhavam juntos no Al Nassr – e que nunca foi colocado em causa por ninguém.
Do plano que tracei para ele não constava o jogo da Noruega. No entanto, senti que ele tinha conseguido recuperar fisicamente do primeiro jogo e avisei-o que poderia ter de o utilizar. O Cristiano concordou
Com outras palavras, foi isto que Jesus defendeu – com a nuance de que Ronaldo considera que houve essa “promessa” de que seria utilizado nesse período de 30 minutos e o selecionador referiu que falou apenas da possibilidade de utilizar o capitão nesse período durante a partida caso a equipa precisasse do contributo do avançado, tendo em conta que Gonçalo Ramos iria começar esse encontro com a Noruega como titular. No entanto, em relação a esse ponto, e provavelmente também pela forma como a pergunta foi elaborada, Jesus acabou por ser mais intempestivo na defesa e afirmação da sua liderança no banco de Portugal.
“Posso prometer o que eu quiser, eu é que sou treinador. Isto é muito confuso para a tua cabeça. Sou o treinador, quando disse ao jogador não era para jogar. Disse: ‘Vou levar-te para o banco. Se precisar de ti 30 minutos vais jogar, se não, não vais jogar’. Nunca nenhum jogador vai mudar as minhas ideias, nem ele nem ninguém no futebol, nem nenhum presidente. Nunca, zero”, comentou a esse propósito.
Errei ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo. Se fosse hoje não o faria
Agora que se conhecem os oito pontos do documento elaborado para que Jorge Jesus lesse na conferência e se compara com aquilo que o treinador referiu nesse momento, há dois nomes que saltam à vista: Maradona e Pelé, as duas antigas estrelas nomeadas pela entourage do jogador nesse mea culpa que deveria ser feito de novo passando ao lado de outras grandes figuras do futebol mundial como Lionel Messi, jogador com mais Bolas de Ouro de sempre (oito). O técnico utilizou esses mesmos exemplos na explicação.
“Pensei durante o jogo que se calhar ia precisar e foi aquecer, depois não o pus no jogo. Qualquer jogador, quando anda ali a aquecer 20 ou 30 minutos e depois não entra, fica chateado. Não há nenhum que fique contente, quanto mais o Cris. Quanto mais fosse o Pelé, o Maradona… 30 minutos ele, Pelé ou Maradona? É esse o estatuto. Os direitos são iguais e como treinador decidi que não entrava. O que prometi? Como disse, não ia lançá-lo mas percebi, antes de irmos para o jogo, que podia precisar dele 20/30 minutos, e ele disse tudo bem. Chegou ao jogo mandei aquecer aos 46′. Não sabia o que ia fazer. Isso foi o que fiz mal, devia tê-lo metido a aquecer uns 15 minutos mais tarde. Não sabia o que ia acontecer, comecei a ver o jogo e não o pus no jogo”, justificou Jorge Jesus, que assumiu aí um erro e por essa questão do “estatuto”.
Para encerrar o assunto: Eu quero o Cristiano na Seleção Nacional. Aliás, não quero pouco, quero muito. Felizmente ele também acredita em mim. Acreditou no Al Nassr e aqui também
Jorge Jesus também não referiu nessa conferência de imprensa antes do jogo com a Dinamarca que “queria” Ronaldo na Seleção – e que “queria muito”. Mas, como se percebeu na primeira conferência de imprensa de Jesus como treinador de Portugal ou nas explicações que deu sobre o plano que tinha definido agora para o avançado, essa é uma ideia que fica sempre implícita no seu discurso. Mais: tinham surgido múltiplas notícias e informações sobre a conversa que Jesus teve com Ronaldo depois do Mundial-2026, quando fez ver ao jogador com quem tinha acabado de trabalhar no Al Nassr que não podia deixar a Seleção.
Compilando tudo aquilo que Jorge Jesus foi dizendo em termos públicos mais alguns dados que surgem no comunicado de Cristiano Ronaldo, sobram três garantias: 1) Jesus foi uma das pessoas que abordou CR7 para dizer que não podia deixar a Seleção e que tinha importância no grupo; 2) Jesus fez questão de reforçar por mais do que uma vez que CR7 era um símbolo da Seleção mas também de Portugal; 3) em nenhuma ocasião todo esse “estatuto” validava que tivesse uma espécie de lugar cativo na equipa – sendo convocado, como aconteceu, já teria a sua utilização doseada e dependente do encontro (como o próprio aceitou).
Sobre não ter cumprimentado os adeptos. Já falámos sobre isso. Quem faz mais de 230 jogos pela Seleção não recebe de mim lições de amor a Portugal. Foi um momento de frustração que não apaga coisa nenhuma. É o jogador que mais autógrafos dá, que mais selfies tira, que mais acarinha os adeptos. Não inventemos problemas onde eles não existem. Quando não estamos contentes reagimos. Foi só isso
A pergunta foi feita, a resposta não surgiu porque entretanto outros assuntos se foram colocando no meio dessa questão em específico, em parte a explicação tinha sido dada logo após a partida da Noruega. Mais: como já foi supracitado, Jorge Jesus foi falando em diversas ocasiões do peso mediático que Cristiano Ronaldo tem junto dos adeptos e das verdadeiras romarias que promovia em qualquer estádio que jogasse.
“Não me apercebi. Apercebi-me depois do jogo, já me fizeram várias questões em relação a isso, só ele pode responder. O que é facto é que não é por não ter jogado hoje, não deixei de contar com ele. Como é óbvio tenho de falar com ele, não é? Mas eu conheço-o muito bem. Claro que a Seleção portuguesa é a Seleção portuguesa, não é a mesma coisa que um clube, mas para mim não é nenhuma novidade. A Seleção é de todos nós e ele como capitão de equipa… Não sei responder concretamente ao pensamento dele, só depois de falar com ele”, tinha dito antes, na conferência de imprensa depois da vitória em Oslo com a Noruega.