Cristiano Ronaldo

no comunicado que quebrou o silêncio após deixar a Seleção

Tal como prometi, decidi contar, na primeira pessoa e de forma direta, as circunstâncias que envolveram o último estágio da Seleção Nacional. Após o Mundial-2026 preparei uma carta aos portugueses, que ainda guardo, com as palavras que lhes quero dirigir quando abandonar, definitivamente, a nossa equipa. No final da competição, logo no voo de regresso dos Estados Unidos, o presidente da Federação pediu e insistiu que eu ponderasse a decisão de sair porque a FPF queria que eu continuasse.”

Cristiano Ronaldo começa a carta a assumir pela primeira vez aquilo que há muito se percebera: entendia que a sua era na Seleção tinha terminado, apesar de não ter conseguido concretizar o último desejo de ser campeão mundial (único título que não conseguiu ganhar pela Seleção A, e foi demovido por Pedro Proença, algo que também já era do conhecimento. Acrescenta um pormenor: essa primeira conversa aconteceu logo no regresso a Portugal, numa altura em que se fazia uma espécie de “luto” não só por aquilo que tinha sido o resultado desportivo mas também pelo anúncio da saída de Roberto Martínez, confirmado pelo próprio. Apesar de não ser o contexto ideal, até pela relação próxima que o avançado mantinha com o técnico espanhol, o líder da FPF tentou demover o número 7 da saída e conseguiu mesmo atingir o objetivo.

Logo a seguir pediu que lhe desse a minha opinião sobre o nome do atual selecionador e que ele estava a ponderar, a par de outros nomes que não me revelou. Respondi ao presidente da Federação que, em minha opinião, seria a escolha certa. Por isso, no dia em que o atual selecionador foi apresentado fiquei genuinamente feliz pela escolha. Era a opção certa, como os resultados vão comprovando. Poucos dias depois recebi um primeiro contacto do novo selecionador nacional a dizer que gostava de estar comigo pessoalmente. Respondi que sim e agendámos para o final das minhas férias.”

Em junho de 2025, e Ronaldo também sabia que essa era uma possibilidade em cima da mesa, Martínez era um selecionador “a prazo”. De forma mais concreta: se não ganhasse a Liga das Nações, por ser um técnico que vinha da gestão de Fernando Gomes e por haver a convicção de que Portugal podia conquistar mesmo o Mundial, o espanhol ia sair. O que mudou? Após vencer Alemanha e Espanha, a Seleção ganhou o segundo título na competição depois da estreia, em 2019. Martínez ficou, José Mourinho, que era a escolha número 1 para a FPF, não foi “acionado”. Agora, a realidade era outra e, apesar de haver mais nomes ponderados como Sérgio Conceição ou o próprio Mourinho (que entretanto acertara contrato com o Real Madrid), Jorge Jesus reunia a preferência – de Proença, de uma parte substancial do núcleo duro do grupo, do próprio Ronaldo. É isso que o capitão confirma: “ratificou” o nome do técnico com quem tinha sido campeão no Al Nassr.

Encontrámo-nos na Cidade do Futebol onde o meu clube fazia estágio de pré-temporada. O selecionador disse-me nesse dia que contava comigo e que a minha presença era fundamental para o seu projeto. Apresentou-me, logo ali, um plano para a minha participação. Disse-me que jogaria o primeiro jogo e o último e que por razões de gestão física iria fazer sempre três a quatro mudanças por jogo. Nessa altura colocou-me a hipótese de eu não viajar com a Seleção para a Noruega e a Dinamarca. Propôs-me que fizesse o primeiro jogo e ficasse em Portugal, para depois me juntar de novo antes do jogo do Dragão. Recusei de imediato esta proposta. Parecia-me evidente que não a poderia aceitar. Não seria por não jogar os jogos no estrangeiro que deixaria de capitanear a nossa equipa. Esse privilégio de ficar em Portugal não seria um bom exemplo. O selecionador acabou por concordar com a minha análise.”

Outro ponto importante que serve de contexto para tudo o que aconteceu depois, também ele noticiado e confirmado por Ronaldo: Jorge Jesus teve uma conversa em privado com o campeão onde explicou o plano que tinha para o avançado, nomeadamente essa vontade de contar com o número 7 para os dois encontros em Portugal e acrescentou que ia fazer três/quatro alterações por jogo (algo que o próprio selecionador frisou em conferências de imprensa de antevisão). Mas há uma primeira “farpa” deixada pelo capitão ao técnico que acaba por visar todas as críticas em relação à forma como encara a Seleção: recusou a ideia de Jesus que ficasse a trabalhar na Cidade do Futebol mesmo não jogando porque “não deixava de ser o capitão”.

Esta conversa foi acompanhada pelo Simão Coutinho, diretor desportivo do Al Nassr, pessoa a quem reportava o atual selecionador durante toda a época passada e um dos responsáveis pela sua contratação pelo clube em 2025. Na véspera do estágio começar, o selecionador deslocou-se à minha casa, em Lisboa, para ter nova conversa comigo, a seu pedido. A conversa foi tranquila e todos os princípios combinados em agosto foram mantidos. Joguei o jogo de Alvalade, e apesar de substituído, não fiz nenhum problema. Coloquei a braçadeira eu mesmo ao Bruno Fernandes, longe de imaginar que pudesse estar a dar os últimos passos, como atleta e capitão da Seleção Nacional. O importante desse dia, para mim, foi a nossa vitória. Ganhar é sempre bom, em Portugal e pelo meu país, ainda melhor.”

Para que não existissem dúvidas, Ronaldo introduz o nome de Simão Coutinho pela primeira vez. O diretor desportivo do Al Nassr, que trabalhou com a dupla na Arábia Saudita, tinha sido apontado como o “terceiro elemento” que estava na reunião entre Ronaldo e Jesus na noite de terça-feira antes da chegada de Pedro Proença à Escandinávia mas, de acordo com o comunicado do capitão, estava também na primeira conversa com o selecionador que se realizou na Cidade do Futebol. Aqui, para que não existam dúvidas, Ronaldo quer fazer um statement: apesar das críticas e dúvidas suscitadas sobre a presença de alguém fora da esfera FPF neste tipo de encontros, como aconteceu em Malmö, fez questão de dizer que esteve noutros momentos.

À hora de almoço do dia do jogo na Noruega um adjunto do selecionador veio à mesa onde o grupo estava a almoçar e informou-me que o selecionador me queria falar. Para minha absoluta surpresa, o selecionador perguntou-me se estava bem para jogar 30 minutos. Eu estava totalmente focado na minha recuperação física, integrado com os meus companheiros como sempre e a pensar que não jogaria naquele dia. Sem nenhum problema. Este pedido era algo fora do meu plano de recuperação física e de treino – porque apenas iria jogar dia 4 no Dragão – mas obviamente disse que sim. Respondeu-me que então estivesse preparado porque jogaria 30 minutos. O resto todos conhecem. Aqueci desde o intervalo, vi os minutos a passar e não fui chamado. O selecionador tinha-me falhado com a sua palavra.”

Aqui entra o primeiro “choque” que acaba por ser mais um diferendo de interpretação do que outra coisa. Sendo certo que todos sabiam que não iria jogar em Oslo e em Copenhaga, ficando na bancada, Jesus mudou de ideias (e por uma razão simples, embora não estivesse explicada no comunicado: o técnico não quis correr o risco de se ver numa situação de desvantagem na segunda parte, por exemplo, e ter apenas Fábio Silva para lançar no encontro). A seguir, surge a divergência: para o jogador foi feita uma “promessa” ou foi dada “a palavra” que iria jogar; para o selecionador foi questionado se podia fazer 30 minutos… assim o jogo pedisse a entrada de mais um elemento na frente. Pela primeira vez ao longo do comunicado, Ronaldo aponta de forma mais direta o dedo a Jorge Jesus: “O selecionador tinha-me falhado com a sua palavra”.

No fim do jogo só queria que tudo acabasse com a vitória e ficar sozinho. Não fui cumprimentar os adeptos. Uma falha que é apenas da minha responsabilidade e que não deveria ter acontecido. Peço desculpa aos portugueses que ali nos apoiaram intensamente, peço desculpa aos adeptos e peço desculpa aos que, sem serem portugueses, ali se possam ter deslocado para me ver e a quem eu possa ter desiludido.”

Esta é a primeira de duas ocasiões em que Ronaldo pede desculpa por algo, neste caso pelo momento que foi criticado de forma mais acérrima depois da partida com a Noruega e que teve a ver com o facto de ter ido diretamente para os balneários após o final do encontro em Oslo. Pede desculpa aos 700 portugueses que se deslocaram ao jogo, pede desculpa aos adeptos em geral e pede desculpa aos “não portugueses”. A mensagem aqui é clara: muitas das pessoas que tinham comprado bilhete para aquele jogo levavam a expetativa de ver ao vivo o capitão da Seleção, num peso que fez questão de reforçar e que foi percetível, por exemplo, nos preços dos bilhetes de última hora para as partidas em Copenhaga e no Dragão. Com uma nuance: em condições normais, e puxando o filme atrás, o “normal” seria Ronaldo ter ficado apenas na bancada…

Passadas 48 horas tivemos uma conversa, eu, o selecionador e o Simão Coutinho uma vez que tinha sido ele a acompanhar as nossas conversas de agosto. Foi um momento profundo, muito frontal, sem qualquer tipo de filtro. Concordámos que só havia uma maneira de encerrar este ‘caso’: que o selecionador repetisse o que acabara de me dizer ali em privado, na presença do Simão Coutinho, mas na sala de imprensa. O que foi combinado era simples: o selecionador começaria a conferência de imprensa por este tema, procurando encerrar o assunto contando a verdade. Diria que nunca pedi para jogar minutos nenhuns, que foi o selecionador e mais ninguém, quem me propôs o plano para este estágio e que foi um erro colocar-me a aquecer para não entrar e que se voltasse a acontecer não o faria.

É a partir daqui que Ronaldo começa a fazer o xeque a Jesus no discurso. Passando de novo ao lado de todas as potenciais críticas pela presença de Simão Coutinho na reunião, que neste caso estava num espaço que deveria ser restrito apenas a elementos da FPF, o jogador diz que houve um acordo entre ambos de que só havia uma maneira de estancar o problema e que passava por um mea culpa, não “pedido de desculpas” da forma mais literal, na conferência seguinte. No fundo, a “novidade” não é tanto o conteúdo mas sim a forma, tendo em conta que, “à sua maneira”, o treinador admitiu que não teria colocado o avançado a aquecer se não fosse entrar. Sobra a mesma dúvida: se a Noruega confirmasse a subida de rendimento na segunda parte e voltasse a empatar a dois, Ronaldo iria ser chamado. Nesse cenário, entrava no jogo “a frio”?

Acabámos essa reunião com o selecionador a pedir-me um abraço, a prometer-me que ia dizer na conferência o que acabara de me dizer a mim e que o assunto se ultrapassava. Eu não jogaria na Dinamarca e jogaria o jogo do Dragão. Tudo isto na presença do Simão Coutinho, sempre. A pedido do selecionador, decorreu depois uma reunião entre ele mesmo, o Simão Coutinho e o Tiago Craveiro em videoconferência, em que se resumiu aquilo que falámos. Foi produzido um pequeno documento que eu mesmo validei e que, com o meu conhecimento, foi entregue ao selecionador, tal como ele havia solicitado. A conferência foi o que se conhece: a postura não teve nada a ver com a nossa reunião, ouvi expressões e uma agressividade que julgo não merecer, uma atitude de quero, posso e mando que nunca me manifestou, nem de perto nem de longe, em privado, na véspera.

Pela primeira e única vez, Ronaldo faz alusão a Tiago Craveiro, consultor estratégico da holding CR7 S.A. e consultor da UEFA que já foi CEO e diretor-geral da FPF. Mais: diz que foi Jorge Jesus que pediu para que fosse feita uma reunião por videoconferência para resumir o que tinha sido falado. Em paralelo, e sem dizer isso de forma textual, o avançado deixa no ar que foi Tiago Craveiro que escreveu o documento que seria mais tarde entregue ao selecionador para ler na conferência, após validação do próprio Ronaldo. Aqui, em nenhuma ocasião é comentada uma acusação feita por Carlos Padrão, antigo guarda-redes e amigo de Jesus, de que Tiago Craveiro teria deixado uma ameaça velada à entourage de Jesus de que, se não dissesse o que tinha ficado definido no documento supracitado, iria deixar o cargo de selecionador nacional.

As notas que validei eram as seguintes. Acho importante, até porque é a verdade, esclarecer algumas coisas antes de falar da Dinamarca: 1. Propus ao Cristiano eu mesmo, sem mais ninguém, um plano para ele, esta época desportiva, na Seleção Nacional. Foi uma conversa demorada e muito boa; 2. Sei o quanto ele vive e ama a Seleção e o peso que tem no mundo, mais ainda, o peso e a influência positiva que tem na Seleção há 24 anos consecutivos. 3. O plano que propus ao Cristiano foi aceite; 4. Ele nunca questionou as minhas opções. Foi exemplar, leal e profissional; 5. Do plano que tracei para ele não constava o jogo da Noruega. No entanto, senti que ele tinha conseguido recuperar fisicamente do primeiro jogo e avisei-o que poderia ter de o utilizar. O Cristiano concordou. 6. Errei ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo. Se fosse hoje não o faria. 7. Para encerrar o assunto: eu quero o Cristiano na Seleção Nacional. Aliás não quero pouco, quero muito. Felizmente ele também acredita em mim. Acreditou no Al Nassr e aqui também. 8. Sobre não ter cumprimentado os adeptos. Já falámos sobre isso. Quem faz mais de 230 jogos pela Seleção não recebe de mim lições de amor a Portugal. Foi um momento de frustração que não apaga coisa nenhuma. É o jogador que mais autógrafos dá, que mais selfies tira, que mais acarinha os adeptos. Não inventemos problemas onde eles não existem. Quando não estamos contentes reagimos. Foi só isso.”

Este é o momento do comunicado que mais salta à vista, a vários níveis: 1) Ronaldo assume que existia um documento feito para Jorge Jesus ler numa conferência de imprensa como se estivesse a falar por si; 2) os oito pontos não diziam apenas respeito ao que se tinha passado na partida com a Noruega mas sim a toda a importância e quase dependência da Seleção face a Ronaldo; 3) a parte que o avançado aproveitou para pedir desculpas, e que tinha a ver com a saída para o balneário quando terminou o encontro, acabava por ser quase relativizada como um mero “momento de frustração”; 4) Jesus teria de vestir o papel de vilão ao mesmo tempo que valorizava a figura “heroica” de Ronaldo; 5) analisando a conferência de imprensa de Jesus, o técnico, por outras palavras e “à sua maneira”, tocou em vários pontos, admitindo o erro que foi ter mandado aquecer Ronaldo demasiado cedo por estar focado no jogo, invocando até os nomes de Maradona e Pelé (e não de Lionel Messi, que nunca entrou nestas contas); 6) além de ter marcado uma posição enquanto “líder” nas decisões técnicas, Jorge Jesus foi também mais longe e referiu que Gonçalo Ramos ia ser titular.

Nenhuma destas notas dizia, portanto, que o selecionador me pedisse sequer desculpa. Era a segunda vez que me estava a faltar à palavra dada. Decidi abandonar o estágio sem esperar por mais nenhuma quebra de palavra. Para mim a verdade ainda é a coisa mais importante na relação entre as pessoas. Por muito que doa, que me digam a verdade. Aliás, numa conversa que mantive com o presidente da FPF e com o selecionador na manhã do dia dessa conferência de imprensa, podem confirmar seguramente, reafirmei que se não me quisessem ali me dissessem. Bastava serem francos comigo. Eu aceitaria isso e prometi que prepararíamos algo bonito, como sonho que aconteça, e ninguém ficaria zangado. Lembro-me como se fosse hoje. Responderam em uníssono que não. Que o meu lugar era na Seleção.

Ronaldo faz questão de tirar da equação a expressão “pedir desculpa” e justifica o abandono da Seleção por lhe terem faltado à palavra uma segunda vez, puxando também a reunião que houve na manhã de quarta-feira onde esteve presente Pedro Proença onde terá dito que estava disponível para deixar a Seleção caso não contassem mais com o seu contributo – algo que não aconteceu. Com algo também que não é referido mas que faz parte da análise: o lugar de Ronaldo é na Seleção mas isso não “obriga” a que seja sempre utilizado.

Nunca, em nenhum momento, me intrometi em qualquer decisão técnica ou tática de qualquer treinador ou selecionador em quase 25 anos de carreira. Aceito melhor ou pior o que me propõem fazer. Respeito a decisão e quando me faltam à palavra, sinto que o meu lugar não é ali. Devo também um pedido de desculpas aos meus companheiros de Seleção por ter abandonado o estágio. Apesar da absoluta quebra de confiança na palavra do selecionador, como poderá testemunhar quem assistiu a estas conversas, eu não o devia ter feito. A responsabilidade é exclusivamente minha. Peço desculpa aos portugueses mais uma vez, mas a quebra da palavra tem, para mim, um impacto definidor. Senti que, a partir dali, a minha permanência iria apenas prejudicar o grupo de trabalho e fiz o que sempre disse que faria se não me sentisse útil: peguei nas malas e saí.

Ronaldo justifica o abandono da Seleção por lhe terem faltado à palavra mas não deixa de pedir desculpas pelo ato incluindo os companheiros de equipa (sem utilizar a expressão “sem exceção”, como fizera no primeiro comunicado a anunciar a saída) antes de generalizar a todos os portugueses. Ainda assim, há uma mensagem mais forte que quer também passar: apesar de todas as considerações que possam ser feitas, até por vários aspetos que se tornaram públicos no meio deste caso sobre a influência que o capitão tem no seio da Seleção, nunca teve qualquer interferência em partes técnicas e táticas de qualquer treinador na carreira.

A consequência deste meu ato deve ser avaliada e punida pela Federação Portuguesa de Futebol. Entendo que a punição não deve ter atenuantes. Não sou um jogador qualquer, sou capitão de equipa e isso constitui uma agravante. Já pedi desculpa, mas sei que as atitudes têm de ter consequências. Quem está no futebol como estou sabe que, independentemente do estatuto de cada um, as regras são iguais para todos. A este propósito, tenho ouvido muito falar em jogos de despedida, que tenho que ter uma despedida digna e que a Federação me quer dar essa oportunidade. Aprendi na vida, com fome e sem nada para comer muitas vezes, que ninguém dá nada a ninguém.

Para que não existam dúvidas em relação aos posicionamentos que teve no passado, nomeadamente quando assumiu que Ricardo Carvalho deveria ser punido depois de abandonar a Seleção (algo que aconteceu e que não invalidou que mais tarde regressasse à equipa e estivesse mesmo na vitória no Campeonato da Europa), Ronaldo quase “pede” para ser castigado, numa fase em que não existe sequer um processo disciplinar aberto sem o qual nunca poderá haver a sanção prevista nos regulamentos, entre um e seis meses. Ao mesmo tempo, o avançado deixa outra garantia: nesta fase não está propriamente a olhar para nenhum jogo de despedida…

Posso prometer a todos os meus fãs, naturalmente e em especial a todos os portugueses, que faremos um ou mais jogos de despedida, haverá tempo para isso. Mas quando penso na Seleção o que eu penso mesmo é em competir. Foi nisso que pensei no dia em que me deram a notícia da morte do meu pai. Estava em estágio da nossa Seleção e lá decidi ficar até terminar o jogo do dia seguinte. Fiz por isso pelo País o que jamais faria por clube algum. Portanto se estiver bem fisicamente, a jogar no meu clube, com golos espero, a seguir ao cumprimento da suspensão que me for aplicada, estarei disponível, como sempre estive até hoje, para competir e ganhar pela nossa Seleção. Esta é, acreditem, a mais pura das verdades.

A parte final do documento funciona como o “passar da bola” para o outro lado, entre FPF e Jorge Jesus: Ronaldo quer estar na Seleção mas para “competir” em encontros oficiais e diz que está disponível para ser convocado pelo selecionador “caso esteja bem fisicamente, a jogar no clube e com golos” depois de cumprir a suspensão pedida. Em paralelo, o avançado recordou ainda um dos momentos mais complicados que teve numa fase em que estava concentrado com a equipa portuguesa, neste caso da Rússia, onde foi informado pelo então treinador Luiz Felipe Scolari de que tinha perdido o pai – e não só ficou como acabou por jogar.

[Pela primeira vez em doze anos, Annie regressa finalmente a Lisboa. A revolução está nas ruas e Fernando Silva Pais está preso em Caxias. A filha vai fazer tudo para o tentar libertar, mas também vai aproveitar para festejar — e não só. Já pode ouvir “Uma ‘deusa’ no 25 de Abril”, o quarto episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]