“Acrópole do modernismo português”, como um dia lhe chamou Rui Afonso Santos, o Hotel Ritz em Lisboa, desde 1997 associado ao grupo Four Seasons — Rita  Múrias e Paulo Barata Corrêa puderam recolher em 2015, para a sua colecção, as quatro letras originais com néon do alto da fachada, com monumentais 2,5 m de altura —, recebeu em 2025 uma reformulação das suas galerias e do terraço virado a nascente e ao  Parque Eduardo VI, agora tema e objeto deste livro cartonado da editora  Caleidoscópio.

Tratando-se duma intervenção supletiva num edifício classificado e representativo como poucos do trabalho do arquiteto Porfírio Pardal Monteiro, e da sua equipa, porém construído em 1956-59 e carente, há muito, de atualização nos domínios agora melhorados, passar a livro — isto é, a uma memória perene — a memória duma renovação como esta, constitui tarefa já considerada intrínseca ao desempenho dos ateliers de arquitectura e design decorativo (e ainda bem).

Nas páginas iniciais, a administração do hotel diz tratar-se mais do que “uma simples renovação; é uma transformação onde desafiamos os limites enquanto preservarmos a herança e a memória histórica do Ritz, a sua importância, as suas referências e a sua singularidade” (p. 5). Numa nota também breve, o atelier Openbook esclarece que “anos passaram sobre os  primeiros traços” e campanhas de discussão, testagem e revisitação de abordagens  díspares que “nos conduziram ao objecto e à solução final” (p. 7) de estabelecimento do  que agora constitui um “resort na cidade” (p. 20).

A intervenção consistiu na renovação do terraço, com uma piscina exterior servida por um bar, a reabilitação das galerias em espaços de escritório e a restruturação e ampliação da garagem original. Lioz amaciado, aço galvanizado e lacado, latão, alumínio anodizado na cor bronze, azulejos de terracota  castanhos e verdes e mármore de Trigaches e pedras Verde Guatemala e Verde Índia são os principais materiais construtivos adoptados nesta renovação, que um sumário portefólio fotográfico documenta. Como reconhecido na p. 46, as formas orgânicas da área exterior inspiram-se no trabalho do grande arquitecto paisagista Roberto Burle Marx (1909-94). (p. 46).

Título: “Terraço e Galerias do Hotel Ritz Lisboa. Projecto de Renovação” | Autores: Openbook Architecture e Openbook Studio | Textos: Pedro Belo Ravara, Ana Salvado e outros | Fotografias: João Guimarães e Ana Salvado | Design: Gustavo Suarez | Editor: Caleidoscópio | Páginas: 120

Tapumes de grande dimensão foram fixados na envolvente, exibindo “reintreptações artísticas” (sic) de murais que celebrizaram o Ritz, de José de Almada Negreiros a Salvador Barata Feyo e Joaquim Correia, relembrando a impactante contribuição dos artistas portugueses para a decoração do Ritz. As peças cerâmicas de Estrela Faria ganharam maior destaque no corredor do hotel à garagem (v. pp. 114-15). O novo mobiliário e iluminária foram integralmente desenhados pela Openbook. O paisagismo a cargo da empresa Jardins do Paço, SA, dá maior conforto ao hotel muito estrelado, já por si debruçado sobre um parque de grande dimensão.

Este é o primeiro livro sobre o hotel da Rua Rodrigo da Fonseca depois de Ritz: quatro décadas de Lisboa, de Helder Carita, publicado pelo Ritz no ano 2000. Pedro Belo Ravara assina um ensaio que desilude quando bate repetidamente na tecla já descambada do maléfico e ostracizado regime em que o hotel foi construído — “a sociedade que se afundava nas suas tradições impregnadas de imobilismos”, “a ideia corporativa que promovia a miserabilidade intelectual nacional” (p. 14), “modelo bucólico que o autoritarismo governativo insistia em perseguir”, “todos os momentos de estagnação” (p.  16) —, ao mesmo tempo que admite que, quiçá inexplicavelmente à luz do que por ele ficara dito, “Lisboa internacionalizava-se e a arquitectura acompanhava essa mudança, com obras intensamente relacionadas com um mundialismo que se ia tornando cada vez  mais inevitável”.

O arquiteto prescindiu por completo da avaliação do alcance que o edifício hoteleiro sobranceiro ao parque haveria de ter sobre práticas de sociabilidade emergentes, como a do seu famoso snack-bar, a partir de 1969, dedicando-lhe pouco mais do que meia linha, senão mesmo evitando comentar até que ponto o Ritz criaria, com a sua galeria comercial, uma nova centralidade para o consumo das classes média e alta, estendida à propiciadora fixação de lojas de referência na subjacente Rua Castilho.