O que uniu neste fim de semana Long Beach, na Califórnia, e Las Vegas, no Nevada? A pergunta não é para um milhão de dólares, nem faz parte de nenhum jogo de casino da cidade que nunca dorme. Também não está ligada a qualquer competição de surf na praia do Pacífico. É bem mais simples, mas ao mesmo tempo meteorologicamente complicada: a chuva recorde que caiu em Vegas e as ondas monstruosas que deitaram abaixo oito casas, deixaram outras em risco e acabaram com grande parte do passadiço de Long Beach tiveram como origem os restos da tempestade tropical/ex-furacão Rachel.

As complicações começaram primeiro na costa. Pelo menos oito casas/restaurantes ou lojas foram classificados como inseguros, mas nove acabaram por ser interditados e um ficou com utilização condicionada. Depois foram ordenadas evacuações, com a saída dos residentes da zona mais afetada e com restrições de acesso a essa mesma área. As imagens são muitas e não deixam quase nada por dizer: o passadiço está completamente destruído, as varandas danificadas, há água a entrar nas habitações e casas com as estruturas totalmente comprometidas.

A culpa, desta vez, é da passagem da tempestade Rachel. Mas antes dela, já muitas outras tinham provocado uma enorme erosão. Na verdade, apenas se agravou um litoral já muito fragilizado por tempestades anteriores. Agora, juntou-se a força das ondas, combinada com marés muito altas e a essa erosão que se vem acumulando a cada ano. A maior parte das casas não colapsou, mas está ameaçada de colapso, porque tem todas as estruturas já à mostra e com grande parte com danos relevantes. Em setembro, após a ondulação associada ao furacão Marie, havia locais onde se observava um desnível de cerca de 4,6 metros entre o passadiço e as rochas expostas, mesmo na maré baixa.

O serviço meteorológico norte-americano admitiu que a inundação costeira associada à ex-tempestade Rachel pode ser a mais significativa desta temporada. Mas o LA Times escreve que isso não equivale a um máximo histórico de erosão. Até porque os furacões Marie e Nolo já tinham escavado por baixo das casas. E, assim, a areia deixou de proteger partes do muro da costa e das fundações. Os ‘restos’ da Rachel só vieram agravar essa vulnerabilidade, com novas ruturas no passadiço e entrada de água nas habitações. As ondas foram de 2 a 2,7 metros, a que se juntou uma maré alta de 2,35 metros (nível no porto de Los Angeles, sábado), cerca de 49 centímetros acima do previsto. Além disso, o intervalo entre ondas em Long Beach era de 20 segundos, o que mostra uma ondulação de longo período, capaz de transportar muita energia — destrutiva.

As autoridades planeiam repor areia para alargar a praia em cerca de 61 metros. As reparações permanentes devem custar entre 1,5 e 3,6 milhões de dólares. Mas, até lá, a situação continua delicada: estão previstas novas marés altas até esta terça-feira, 13.

Os recordes de Vegas

Depois, na tarde de domingo, os mesmos ‘restos’ da Rachel deslocaram-se para o interior. E a tempestade descarregou no Nevada, mesmo em cima de Las Vegas. Com um recorde de chuva, houve cheias rápidas por toda a cidade. As ruas transformaram-se em rios, as imagens mostram automóveis a ser levados pela água e inundações em zonas próximas da Strip, a avenida principal, junto à qual estão os grandes casinos. O aeroporto, Harry Reid, registou cerca de 27,4 mm de chuva, um recorde diário, ultrapassando o anterior máximo, de cerca de 19,8 mm, registado em 2012.

O Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA lançou um aviso especial e classificou as cheias como potencialmente perigosas para a vida. No fim do dia havia zonas sob aviso com acumulados de 38 a 76 mm, segundo os radares. Las Vegas situa-se numa região desértica, com solos e áreas urbanizadas que favorecem um escoamento muito rápido. Mas a chuva intensa e concentrada em poucas horas acabou por causar enxurradas em ruas e canais. E a que caiu no domingo representou mais de um quarto da precipitação média anual da cidade. Contudo, não foram as maiores cheias de Las Vegas. As de 1999 e as de 2012 estão entre as mais graves da história. Em 1999 houve duas mortes e centenas de casas danificadas.

Grande detalhe: a Rachel esteve longe de ser o furacão mais perigoso no Pacífico este ano. Chegou apenas à categoria 3, com ventos máximos sustentados de 195 km/h. Quando se aproximou da Califórnia, sábado, 10 de outubro, já tinha enfraquecido para tempestade tropical, com ventos de 95 a 100 km/h. Antes dela, o Nolo entrou em terra pelo México ainda como furacão, chegou a ter categoria 5 e ventos de 300 km/h, mas não causou tanta devastação. Tudo porque a Rachel gerou ondulação longa, capaz de transportar muita energia até à costa. Apanhou o mar já anormalmente elevado devido ao El Niño e uma onda de Kelvin (que se propaga no oceano e pode provocar uma subida temporária do nível da água). E ainda, como se não bastasse, as suas maiores ondas coincidiram com as marés mais altas, fazendo com que a água ultrapassasse as defesas da costa, já enfraquecidas pela longa erosão.

A Rachel não foi necessariamente mais forte do que o Nolo. Mas foi mais destrutiva porque apanhou zonas mais vulneráveis e isso amplificou as consequências — erosão e inundações costeiras na Califórnia; chuva intensa e cheias rápidas em Vegas.

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