1247kWh poupados 1247 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Israel 2026
Legislativas

Fonte: Observador

Uma Lua minguante, Vénus e até o canto das cigarras. As sete pistas que podem mudar a data de “A Noite Estrelada” de Van Gogh

Estudo sugere que o céu representado por Van Gogh corresponde ao que se podia observar a 22 de julho de 1889. Os investigadores cruzaram astronomia, matemática, meteorologia e cartas do pintor.

O óleo de 73,7 por 92,1 cm de Van Gogh está exposto no Museum de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA)
i

▲O óleo de 73,7 por 92,1 cm de Van Gogh está exposto no Museum de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA)

▲O óleo de 73,7 por 92,1 cm de Van Gogh está exposto no Museum de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA)

E se “A Noite Estrelada” de Van Gogh não tivesse sido pintada em junho de 1889? Esta é a data oficialmente atribuída a uma das obras mais conhecidas do mundo. Tem por base uma carta do pintor para o irmão Theo em que fala de um estudo que tinha feito do céu: todos acharam que esse estudo era a base do quadro que já estaria pintado quando enviou a carta. Mas depois começaram as dúvidas. Algumas coisas não batiam certo. A Lua era uma delas.

A discussão dura há mais de 40 anos. Agora, uma equipa de investigadores pensa ter chegado à data concreta da noite que serviu de inspiração ao pintor holandês. E afinal, não terá sido em junho, mas sim mais de um mês depois, em julho. Precisamente a 22 de julho de 1889.

Foi preciso um cruzamento de astronomia, meteorologia, matemática e cartas do pintor. Através de várias confirmações e descobertas, algumas delas já na ‘carteira’ de um dos cientistas envolvidos, a equipa de investigadores sul-coreanos concluiu que a pintura mostra o que se podia observar da janela do asilo em Saint-Rémy-de-Provence onde o pintor estava internado numa determinada data. Van Gogh pode ter começado o quadro em junho ou até antes, pode ter combinado várias observações de várias noites e pode, claro, ter usado a imaginação, a criatividade e a inspiração para chegar à composição final. Mas aquela configuração do céu e da meteorologia coincidiu mesmo com a data que apontam.

Há muitos anos que os cientistas tentam descobrir se o céu em que se inspirou Van Gogh era real ou imaginário. Houve investigações e datas. O ano foi sempre o mesmo: 1889. Os meses aproximavam-se. Em 1984, através de uma reconstrução astronómica, Albert Boime, um historiador de arte, apontou para 19 de junho. Logo depois, em 1986, um astrónomo, Charles Whitney, propôs 18 e 19 de junho, mas com base na astronomia e na criatividade do artista. O próprio autor principal deste novo estudo, Elijah Jeong-hyun Kim, já avançara com esta data, a de 22 de julho, num livro publicado em 2025. Agora juntou-se a outros colegas sul-coreanos, para confirmar a sua teoria. Com recurso a novas comparações matemáticas e a arquivos meteorológicos históricos, confirmaram a noite de 22. Na verdade, não a noite, mas sim o amanhecer. A investigação foi publicada na Scientific Reports, revista científica internacional do grupo Nature Portfolio, da Springer Nature.

E há sete pistas importantes que os levaram a chegar à conclusão a que chegaram.

[Duarte Lima admite ter estado com Rosalina Ribeiro na noite em que a herdeira milionária desapareceu mas nega ter sido a última pessoa a vê-la com vida. Conta que, depois da reunião que tiveram, no Rio de Janeiro, levou a cliente até Maricá, para um encontro com uma mulher chamada Gisele. É uma versão que não bate certo com as primeiras provas recolhidas pelas autoridades brasileiras. Enquanto Duarte Lima se torna, para a polícia, o principal suspeito do homicídio, perde força a outra linha de investigação. Olímpia Feteira era inimiga assumida da antiga companheira do pai mas garante que nunca desejou a morte dela. E, ao contrário de Duarte Lima, disponibiliza-se para prestar todas as informações necessárias à polícia brasileira. Já pode ouvir o segundo episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

A Lua não correspondia à data conhecida

“A data de execução, há muito estudada e consensual, tem sido junho de 1889”, lembram os próprios investigadores. De facto, tem sido assim. “A Noite Estrelada” é datada dessa altura, com base na carta que Vincent escreveu ao irmão Theo na qual menciona um estudo do céu cheio de estrelas que via em Saint-Rémy-de-Provence, no sul de França, onde estava internado. A carta é de dia 18. E a ideia que ficou é que nessa altura o quadro ou estaria pronto ou perto disso, e tinha esse estudo por base. Daí a datação. Mas a posição da Lua não batia certo com o céu de meados de junho daquele ano.

A Lua de Van Gogh surge em quarto crescente. Quer a 18 de junho (ou a 19), a Lua estava numa fase mais cheia. Tem sido esta a grande discrepância a gerar discussão sobre a data da inspiração do quadro: “A discrepância entre a Lua minguante na pintura e a fase lunar” da data de referência é grande, lê-se no estudo. Já 22 de julho tem uma grande aproximação. Nessa madrugada de 1889, “a fase lunar desce para 28,44%, correspondendo mais de perto à forma [representada]”. O que quer dizer que a Lua tinha 28,44% do disco iluminado, muito semelhante à de “A Noite Estrelada”.

Mas, além disso, a Lua estava a 18,6 graus de Vénus. E há ainda que considerar estrelas de uma constelação, as Híades, para o quadro, verdadeiramente, se compor.

▲ Imagem do estudo. O campo de visão de Van Gogh: reconstrução do enquadramento da paisagem e da posição da Lua, de Vénus e das Híades

A posição de Vénus

Vamos lá olhar para o quadro novamente. Nunca cansa, na verdade. Há um ponto brilhante, por cima das colinas, mais para a esquerda na zona central. É talvez o ponto mais brilhante na pintura. Qualquer criança sabe a resposta a esta pergunta: não é uma estrela aquele ponto brilhante no céu que se vê antes do nascer do Sol. É o planeta Vénus. A posição de Vénus é fácil de calcular com grande precisão histórica. E a 18 de junho não estava ali. Nem de perto. Não bate certo de forma alguma.

Os cálculos matemáticos mostram duas coisas. Uma, que a 22 de julho de 1889 Vénus estava separado da Lua em cerca de 18,6 graus. E que nessa data a Lua estava em quarto minguante, como já se disse. Quer essa separação entre Vénus e a Lua, quer a fase lunar, essas sim, estão de acordo com a configuração reconstruída a partir da pintura. Até porque nas noites anteriores a distância entre os dois astros era bem diferente: 21,7º a 21 de julho e 7,66º dia 23.

“A Lua e Vénus encontram-se perto de cantos opostos do enquadramento”, escrevem os autores sul-coreanos. Isso e a “separação entre a Lua e Vénus de 18,6 graus” é o que “reforça a possibilidade de Vincent ter captado esta configuração celeste”. Claro que se trata de uma hipótese, não de uma observação literal. Não se trata do desenho de um mapa astronómico por parte de Van Gogh. Há proporções alteradas, luminosidade intensificada, uma organização artística da paisagem. Mas o essencial é, ou será, real.

▲ Imagem do estudo. A comparação entre quatro madrugadas: a razão que leva os investigadores a destacar 22 de julho

E juntaram-se as estrelas

Em “A Noite Estrelada” há obviamente estrelas. Parecem uma constelação. Usando também um método matemático para perceber que estrelas estariam naquelas posições em que datas no ano de 1889, os investigadores chegaram igualmente a uma constatação científica. Tratava-se das Híades, um aglomerado de uma constelação, de facto, neste caso a de Touro. A sua posição real a 22 de julho era aproximada à que surgia no quadro e batia certo com a fase lunar e com a posição de Vénus.

As Híades são aquele conjunto de pontos luminosos em forma de V na zona central da pintura de Van Gogh. As verdadeiras podem ver-se a olho nu, se as condições atmosféricas o permitirem, em muitas noites e até é fácil reconhecê-las no céu. Só não se espere encontrar as do quadro: o pintor holandês fez uma interpretação artística das estrelas. Mas a “grande semelhança de forma com a disposição em V”, não deixou dúvidas.

Esta é a parte mais interessante da investigação. Primeiro, os investigadores procuraram cinco pontos de referência em “A Noite Estrelada” e associaram-nos às principais estrelas da estrutura em V das Híades. Depois, via análise de Procrustes, uma técnica matemática, compararam formas, sobrepuseram os dois desenhos para perceber até que ponto coincidiam. Essa correspondência foi testada estatisticamente. Primeiro, avaliaram 120 formas de associar os cinco pontos às estrelas para encontrar a melhor correspondência. Depois, compararam 462 subconjuntos possíveis de cinco pontos. E assim chegaram à “única solução com o menor desvio normalizado”: só há uma diferença de 8,17% entre a disposição das estrelas na pintura e a configuração astronómica que reconstruíram. Numa outra análise, feita a uma réplica da obra (o desenho a lápis), a diferença foi ainda inferior: 6,62%. “A representação assenta numa observação real”, escrevem.

▲ O grupo de estrelas na pintura, a réplica desenhada por Van Gogh e a simulação do céu de 22 de julho de 1889. Sobreposição das imagens e difernças

A madrugada que melhor encaixa

Tudo começou a partir desse desenho anterior de Van Gogh. Foi ele que serviu de base ao óleo famoso “A Noite Estrelada”. Os investigadores sul-coreanos isolaram o céu que Van Gogh poderia ver. Era um cenário estreito, na diagonal, com cerca de 18,4 graus. A partir daí procuraram matematicamente as madrugadas em que a fase da Lua e a posição de Vénus cabiam no enquadramento, sabendo que a Lua tinha de ficar acima de Vénus. Chegaram a três datas: 23 de junho, 22 e 23 de julho de 1889. Faltava colocar as Híades neste modelo. E o dia 22 de julho reunia essa terceira condição: as cinco estrelas estavam no centro. Às três da madrugada, na hora local, a Lua e Vénus estavam nos extremos e as Híades no centro. Era o mais próximo da pintura.

Os dias antes e depois não se encaixavam tão bem. Ou Vénus e a Lua ficavam demasiado próximos ou demasiado afastados. E ainda havia os registos meteorológicos: na véspera e no dia a seguir, houve nuvens. Naquele, mesmo com alguma nebulosidade, a observação do céu podia ter sido perfeita: “A correspondência simultânea […] atinge o seu máximo.”

Que tempo fazia naquela madrugada?

Não houve recurso apenas à astronomia. Foram usados também os registos meteorológicos do século XIX. Só assim se podia saber se Van Gogh podia ter visto o céu de 22 de julho de 1889. O estudo cruzou os cálculos astronómicos com os arquivos de estações do sul de França, nomeadamente Avignon, Nîmes, Montpellier e Aix-en-Provence, as regiões mais próximas de Saint-Rémy-de-Provence, o local do asilo onde Van Gogh estava internado, que não tinha a sua própria estação meteorológica.

A prova meteorológica também bate certo. Na madrugada de 22 de julho havia poucas nuvens, ao contrário do dia 21 e do dia 23, em que o céu já estava completamente nublado. É impossível dizer se o céu visto do quarto de Van Gogh naquela data estava limpo, mas as condições apontam nesse sentido. Há informação histórica sobre o estado da atmosfera que o comprova. O estudo, publicado na Scientific Reports, é por isso uma reconstrução multidisciplinar.

▲ A nebulosidade de 22 de julho

O calor, as cigarras e as cartas de Van Gogh

As cigarras são a pista mais curiosa do estudo, que é suposto ser astronómico e meteorológico. Para perceber se estava mais ou menos calor, se a data do quadro se aproximava mais de junho ou julho, os investigadores recorreram novamente às cartas de Van Gogh e às suas referências sobre o canto das cigarras. Comparar isso com as temperaturas de junho e julho de 1889 acabaria por ser revelador.

“As cigarras são mencionadas sete vezes na correspondência de Vincent”, em concreto, nas cartas de 6, 14 e 15 de julho de 1889. Nesta intensa correspondência, os bichos barulhentos da Provença aparecem sempre associados ao calor do verão e à paisagem. Não é que defina uma data, mas o canto das cigarras é típico do calor, que no sul da França, no fim do séc. XIX, ainda acontecia mais em julho do que em junho. Nos arquivos meteorológicos, de 4 a 18 de julho, houve 15 dias consecutivos com máximas entre 30 e 34°C. Já entre 16 e 19 de junho, estiveram entre 26,8 e 29°C. Julho foi, portanto, “mais favorável a uma atividade diurna persistente das cigarras”, tão referidas pelo pintor.

O mistério da data resolvido? Ainda não

Com este estudo fica definitivamente fechada a data do quadro de Vincent Van Gogh? Não. Ainda não. “A Noite Estrelada” continua datada de junho de 1889 e mesmo que os investigadores tenham uma teoria credível e científica para apontar para 22 de julho, há que diferenciar sempre três momentos: quando começou o pintor a trabalhar nela, quando olhou para o céu que o inspirou e quando terminou a pintura.

Na carta que escreveu ao irmão Theo a 18 de junho de 1889, Van Gogh faz referência ao estudo do céu estrelado. Mas não identifica o estudo com o quadro que está exposto no MoMA de Nova Iorque, nem diz em que data terminou o quadro. Além disso, o pintor fazia observações que pintava depois ou que ia incorporando nas pinturas. E não fazia reproduções fiéis. Fazia combinações artísticas. Podia ter começado em junho a pintar e incluído a observação do céu de julho. A reconstrução astronómica aponta uma data para a inspiração, nada mais.

Por isso, o estudo não encerra o debate histórico. A hipótese de 22 de julho ainda vai ser confrontada com mais cartas, com a cronologia das outras obras de Van Gogh e com os testemunhos da época. E vai ter de considerar a liberdade artística do pintor. “Poderão ter sido integradas impressões de observações repetidas ao longo de várias noites próximas”, admitem os próprios investigadores. A equipa nunca diz que descobriu o dia em que Van Gogh pintou “A Noite Estrelada”. Só aponta uma madrugada específica de julho que poderá estar representada numa das obras mais reconhecidas do mundo e que, mais de um século depois, continua a ser estudada.

▲ Réplica da carta de Vicent ao irmão Theo de 18 de junho que serve como data de referência para a data do quadro

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.