Em 2014 houve menos portugueses a morrer por causa do cancro antes dos 65 anos, confirmando a tendência de redução da mortalidade precoce que vem sendo registada desde 2011, revela o relatório “Portugal – Doenças Oncológicas em Números 2015”, que está a ser apresentado, esta quinta-feira, no Instituto Português de Oncologia, em Lisboa.

Também a taxa de mortalidade por cancro padronizada, ou seja, aquela que exclui o efeito do envelhecimento da população, desceu ligeiramente em 2014. Nesse ano, 151,5 pessoas em cada 100.000 habitantes acabaram por falecer devido a uma doença oncológica, menos do que as 152,4 do que no ano anterior.

Já se olharmos para a taxa bruta de mortalidade, que não exclui o efeito da idade, essa continuou a subir, tendo passado de 247,4 para 251,6 pessoas por cada 100.000 habitantes.

Só os 10 tipos de cancro mais frequentes em Portugal mataram mais de 15 mil portugueses em 2014.

Permanecem também ainda “muito significativos” os anos potenciais de vida perdidos — número de anos que, teoricamente, uma determinada população deixa de viver se morrer prematuramente (antes dos 70 anos) — por neoplasia maligna. Os tumores malignos da traqueia, brônquios e pulmão foram responsáveis por 19.380 dias de vida perdidos em 2013, sendo mesmo a principal causa de anos de vida perdidos, de acordo com o relatório anual da Direção Geral de Saúde (DGS).

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Em comparação com outros países europeus, verifica-se que a mortalidade por doença oncológica situa-se abaixo da média europeia, beneficiando Portugal de “um histórico menor consumo de tabaco, a que corresponde uma menor taxa de cancro do pulmão e de mortalidade associada”. Também os padrões genéticos, os estilos de vida e a acessibilidade a tratamentos e qualidade dos mesmos contribuem para esta posição.

Cancro do pulmão e colo-retal preocupam mais

Os especialistas da área consideram existir “duas áreas de intervenção prioritária, nomeadamente no cancro do pulmão e colo-retal, pelo impacto relativo na mortalidade precoce”.

Os tumores malignos da traqueia, brônquios e pulmão foram os que mais mataram em 2014 – 3.927 portugueses. O cancro do pulmão, em específico, “é o que mais mata em Portugal”, o que leva a DGS a falar em “epidemia do cancro do pulmão”.

Neste relatório é referida uma “assimetria associada à mortalidade por cancro do pulmão na Região dos Açores”. Isto porque é lá que este cancro mata mais. “Nesta região temos o dobro da mortalidade do observado no resto do país, dados que correlacionamos também com a menor carga fiscal sobre o tabaco”, escrevem os autores do relatório.

Já no que diz respeito ao cancro colo-retal, e visto que este tem revelado uma maior incidência, os elementos que integram o Programa Nacional para as Doenças Oncológicas defendem “a generalização do programa de rastreio a todo o país”, escreve a DGS, em nota enviada às redações.

Melhorou a acessibilidade dos doentes aos tratamentos

Frisa ainda o documento que, de uma forma global, em 2014, se registou uma melhor acessibilidade dos doentes aos tratamentos oncológicos, bem como um ligeiro aumento do número de cirurgias efetuadas.

Em 2014 houve 275.770 doentes a ter alta dos tratamentos de quimioterapia e imunoterapia, mais 4,4% do que no ano anterior. No que diz respeito às cirurgias, foram efetuadas perto de 44.900 cirurgias a neoplasias malignas, mais 1% do que no ano anterior. E nesse ano inscreveram-se ou foram inscritas quase quatro mil pessoas com cancro para cirurgia.

Ainda assim, apesar de se terem realizado mais cirurgias, a percentagem de doentes prioritários operados a neoplasias malignas que foi operada para lá do tempo recomendado aumentou de 15,8% para 16,8%, tendo o tempo médio de espera aumentado também um dia.

Mas se é verdade que o número de cirurgias e sessões de quimio voltaram a aumentar, em 2014, e devendo-se olhar com a devida cautela pelo facto dos números serem provisórios, “assistiu-se, pela primeira vez, a uma discreta diminuição da produção hospitalar associada ao cancro, tanto em internamento como em ambulatório”. No primeiro caso, por exemplo, registaram-se 89.984 episódios, menos 1,8% do que em 2013.

Na globalidade o SNS tem conseguido acomodar as necessidades dos doentes, com mais produção cirúrgica e mais tratamentos oncológicos. Há a registar um discreto aumento da mediana do tempo de resposta para cirurgia, mas com melhor resposta nos extremos, ou seja, melhoria da resposta global.”

A incidência de novos casos de tumores malignos tem vindo a aumentar ao longo dos anos. Entre 2009 e 2010 assistiu-se a um aumento de 4% dos casos registados em Portugal. O aumento de incidência deve-se maioritariamente aos ganhos de esperança de vida da população portuguesa.