Havia nos anos 60 uma publicidade muito divertida, já não me lembro a que produto ou empresa, que começava com a frase: “Se um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais”. Postos perante Mickey 17, o novo filme do sul-coreano Bong Joon Ho, o realizador de Memórias de um Assassino e Parasitas, podemos dizer: “Se um Robert Pattinson confunde muita gente, dois Robert Pattinson confundem muito mais”. Ou, parafraseando Vasco Santana na sequência da bebedeira e do candeeiro de iluminação pública em O Pátio das Cantigas, “Tu és dois?”. Confusos? Não vale a pena, eu explico.

Adaptado do livro Mickey7, de Edward Ashton, Mickey 17 é uma fita de ficção científica passada numa Terra cada vez menos habitável, e onde a colonização de outros planetas é uma alternativa à vida nesta velha bola. Neste futuro, foi inventada uma tecnologia que permite a duplicação de um ser humano após a sua morte. Os problemas morais e éticos que implica, impediram que fosse utilizada na Terra, o que já não acontece no espaço, onde pode ser aplicada à vontade. Pattinson interpreta Mickey, um pobre diabo que, com um amigo, Timo (Steven Yuen), pediu um empréstimo para abrir um negócio. Mas este faliu e ficaram a dever um dinheirão ao agiota, que tem o péssimo hábito de mandar cortar aos pedaços com uma serra mecânica os devedores, enquanto filma tudo.

[Ver o “trailer” de “Mickey 17”:]

Para não lhe acontecer o mesmo, Mickey juntou-se a uma missão privada de colonização de um distante planeta gelado, Niflheim, que implica uma viagem de quatro anos, financiada e comandada por Kenneth Marshall (Mark Ruffalo), um corrupto e falhado político e evangelista, e pela sua mulher, Ylfa (Toni Collette). Mas não leu bem o contrato e inscreveu-se no programa dos Descartáveis, como são conhecidas as réplicas da pessoa original. Ou seja, Mickey concordou em morrer e ter o corpo digitalizado e as memórias arquivadas, para serem reproduzidos quantas vezes forem precisas, cada vez que uma das cópias tiver um problema grave.

Uma vez no espaço, Mickey é usado para as tarefas mais perigosas e como cobaia em experiências com vírus, e vai na 17.ª versão de si mesmo quando o filme começa, tendo as 16 anteriores ido parar ao gigantesco incinerador da nave. Após sobreviver a uma situação extrema já no planeta e conseguir voltar à nave, Mickey descobre que foi dado como morto e que já fizeram o Mickey 18. Ora é estritamente proibida a coexistência de dois Descartáveis, e Mickey 18 é um tipo muito mais agressivo e menos contemporizador do que Mickey 17, pelo que a situação vai ficar muito perigosa para este.

[Veja uma entrevista com Bong Joon Ho:]

As duas incursões anteriores de Bong Joon Ho pela ficção científica resultaram em dois dos filmes menos satisfatórios do realizador, Snowpiercer — Expresso do Amanhã (2013), e Okja (2017), em que o espectáculo não consegue ocultar a previsibilidade e o primarismo sentencioso das histórias. O mesmo acontece nesta distopia de personalidade visual grunge e ambiência brutalista, por cortesia do diretor de fotografia Darius Khondji, e em que Joon Ho dispôs de um orçamento próximo do de um filme de super-heróis da Marvel ou da DC, com que decerto nunca tinha sonhado quando estava na Coreia do Sul.

Até certa altura, Mickey 17 parece ir singrar na via do cinismo satírico e do humor negro com toques niilistas que o cineasta manifestou em Parasitas (as várias sequências em que os sucessivos Mickeys vão sendo sacrificados, fora da nave ou no seu laboratório, e reproduzidos, ante o desinteresse ou a impassibilidade dos seus companheiros de viagem). Mas o filme vai-se tornando cada vez mais adivinhável e básico, os vilões feitos de cartolina (ver a caracterização “trumpista” de Marshall) e as peripécias pré-fabricadas. E quando Bong Joon Ho começa a debitar a mensagem “humanista” de carregar pela boca e a ladainha anti-capitalista de babar na camisa, e a expor a agenda “inclusiva”, está o caldo intergaláctico entornado.

[Veja uma sequência do filme:]

Robert Pattinson até se desembaraça, desdobrando-se a interpretar o Mickey 17 papalvo mas bom rapaz e o seu gémeo Mickey 18 de maus fígados, e as atmosferas e as condições de vida na nave, e depois no planeta, estão bem concebidas, tal como os extraterrestres que o habitam. Só que não chega para compensar as deficiências da fita, que traz um sermão colado à vontade de entreter e apresenta ainda um óbvio ululante de implausibilidade. Uma sociedade tecnologicamente tão avançada como a que é aqui descrita decerto teria desenvolvido androides ou robôs tão sofisticados, que não seriam precisos os Descartáveis e as suas máquinas de reprodução para nada. Pela boca morre não só o peixe como também a ficção científica medíocre. Categoria em que Mickey 17 fica arrumado para a posteridade.