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O espetáculo imersivo pode ter até 100 espectadores a circularem pelo espaço
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▲O espetáculo imersivo pode ter até 100 espectadores a circularem pelo espaço

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

▲O espetáculo imersivo pode ter até 100 espectadores a circularem pelo espaço

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

18 cenários, 20 personagens e um assassino à solta: o que revelam os bastidores de "A Caça ao Estripador de Lisboa"?

O espetáculo imersivo, baseado no podcast do Observador sobre o assassino de três prostitutas nos anos 90, estreia-se a 28 de outubro, em Lisboa. Fomos ver os ensaios e perceber como tudo funciona.

Há uma espécie de cápsula do tempo escondida na Comunidade Hindu de Portugal, no Lumiar (Lisboa) — mais precisamente, no parque de estacionamento subterrâneo. O acesso, feito pela rampa da garagem, é austero e frio, acabando por ditar logo o tom do ambiente. Entramos diretamente em 1992 e é aqui que começa A Caça ao Estripador de Lisboa.

Com mais ou menos detalhes, a sabedoria popular sobre o caso é vastga: a história de um assassino que, nos anos 90, matou e mutilou três prostitutas na região de Lisboa. Nunca foi apanhado. O caso é real, originou inúmeras teorias ao longo das décadas e, no final de 2024, foi o tema de um dos podcasts Plus do Observador. Baseado no guião e nas entrevistas da jornalista Tânia Pereirinha, nasce agora um espetáculo imersivo com texto e encenação de Simão Biernat e produção Kilt e Observador. A estreia acontece a 28 de outubro.

Num open space de 1500m², a ação decorre em 18 cenários, muitas vezes em simultâneo, e cabe ao público escolher por onde quer circular e o que quer acompanhar. O elenco de dez atores (Carolina Burnay, Ema Fonseca, Joana Ruela, Mariana Lencastre, Mariana Sardinha, Celso Pedro, Hugo Mestre Amaro, Hugo Nicolau, Leonardo Dias e Sérgio Moura Afonso) desdobra-se em mais de 20 personagens, mostrando os pontos de vista das vítimas, dos familiares, da Polícia Judiciária (que chegou a aplicar novas técnicas de investigação em colaboração com o FBI), da psicóloga que tentou traçar o perfil do serial killer ou da médica legista que acompanhou o caso.

A uma semana da estreia, o texto está mais do que decorado, embora o elenco esteja reunido com o encenador a definir detalhes. Enquanto isso, a equipa técnica faz testes de luz e de som. Quando o público entrar aqui, passando as cortinas pretas, as luzes estarão reduzidas e o primeiro foco de ação estará na oficina de metais, à direita. Aí, uma manhã de trabalho normal, pontuada pela discussão futebolística de quatro homens, indo de Balakov a Bobby Robson [jogador e treinador do Sporting, respetivamente], é rapidamente interrompida pelo alerta de um corpo inanimado descoberto num barracão. “É manhã de sexta-feira do dia 31 de julho de 1992. Os agentes da PSP de Odivelas atendem o telefone. Só ficam a saber que houve um crime. Sem mais detalhes”, anuncia Inês Castel-Branco, através da voz off retirada do podcast do Observador. A narração da atriz voltará em vários momentos da peça, contextualizando o que está a acontecer.

▲ O espaço tem 1500m², precisamente o que o encenador Simão Biernat queria para haver sempre visibilidade; a história começa na oficina de metais, após ser descoberto um corpo num barracão

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

A partir daqui, este espetáculo tem muitos caminhos. Cabe ao público decidir qual. À esquerda, uma corda tem um sutiã e uns collants pendurados. Num dos pilares onde está presa, uma folha A4 afixada com fita cola indica “fachada rua (com projeção)”. É aqui que as imagens de Lisboa de 1992 estarão a passar repetidamente. Logo a seguir está estacionado um Renault 5, creme, e há outro na extremidade oposta do espaço. Segue-se o quarto de uma pensão. Tem uma cama com almofadas vermelhas e colcha verde, uma cadeira de papa, um sofá com peluches, uma televisão, uma cómoda com maquilhagem e um baú. Maria Fernanda, a segunda vítima, estará muitas vezes aqui, de olhar vazio.

Há cenários que não são mais do que pequenos retângulos, como o gabinete da psicóloga ou a sala de interrogatório. Uma mesa, duas cadeiras, um gravador, um cinzeiro e um telefone são suficientes para situar a ação. A luz e os vários intervenientes que por aqui passam fazem o resto.

Há um barracão e, na sala da médica legista, estão um corpo tapado por um lençol branco, móveis, microscópio e recipientes da época. Praticamente tudo aqui foi repescado aos anos 90. “O cenário da médica legista tem utensílios antigos e os carros são autênticas relíquias. Um deles ainda trabalha, foi conduzido até aqui. Veio a andar até aqui. A tombola [do Bingo, onde decorre uma das cenas] ainda está presa na alfândega, mas é original”, diz Julieta Chaves, uma das produtoras.

Segue-se a redação do jornalista, com máquina de escrever e fotos dos casos em cima da mesa e, antes de chegar a um segundo barracão, há uma zona que tem as horas contadas. Aqui ainda convivem manequins, colchões, tintas, uma ventoinha e malas de viagem, à espera de serem distribuídos pelas respectivas casas. Noutro ponto deste imenso open space, uma árvore está à espera de ser terminada. Para já, os três galhos e o tronco são apenas esferovite, mas no chão há meia dúzia de sacos de terra que em breve tornarão tudo realista.

Na sala da PJ há quatro secretárias, estantes com dossiers, telefones, faxes e máquinas de escrever. Aqui é sempre possível perceber em que ponto está a investigação. Ainda assim, garante Simão Biernat, encenador, “há o cuidado de que todas as cenas em simultâneo possam transmitir o mesmo para que as pessoas não percam informação”.

Em certos momentos fulcrais, tudo converge para uma só cena, que acontece muitas vezes num palco central, circular, mesmo no meio do espaço. A iluminação dos diversos pontos e o som vão ser os grandes guias do público, mas ninguém vai perder o que é realmente essencial para perceber o desenrolar da história. “Nos carros haverá cenas de grande tensão, mas elas acontecerão nos dois veículos em simultâneo para que, se estiverem 30 pessoas aqui e 50 ali, todas possam ver”, explica Julieta.

Ainda assim, haver várias perceções também é um dos objetivos deste espetáculo imersivo. “Claro que, se viermos ver duas ou três vezes, vamos sempre ver coisas diferentes, também é essa a ideia. Se vierem em grupo, uns seguem uma coisa, outros seguem outra e, no final, também têm ideias diferentes para trocar. Essa parte também me interessa muito”, clarifica ao Observador Simão Biernat.

▲ Hugo Nicolau é um dos agentes da PJ, cujo cenário é central à ação; o gabinete da médica legista e a sala de interrogatórios têm sempre coisas a acontecer

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O trabalho de adaptação começou há cerca de ano e meio, quando Ricardo Soares, diretor e produtor executivo da Kilt, ouviu o podcast A Caça ao Estripador de Lisboa. Soube que queria fazer um espetáculo de teatro imersivo inspirado nos seis episódios do formato do Observador e partilhou a ideia com Simão Biernat. “Achei que era uma ideia maluca, mas fui ouvir o podcast e apaixonei-me”, recorda o encenador.

Para Simão, a grande questão foi perceber o que podia acrescentar. Fez mais de 20 versões do guião, admite. “Numa peça comum temos uma narrativa contínua. Aqui, é um live action do podcast, mas quero que possam coexistir e estar interligados.”

Focou-se nas três vítimas e nos 13 suspeitos — confessa que não conseguiu deixar nenhum de fora —, mas também nos agentes da PJ que mudaram  a abordagem relativamente às prostitutas e se empenharam em explorar todas as pistas. “A postura da polícia foi mudando ao longo do tempo. Inicialmente uma vítima prostituta tinha menos importância e, com tudo isto, a polícia passou de prender prostitutas a proteger prostitutas. Aquilo que me interessou explorar foi a natureza humana. Como é que podemos representar aquelas três prostitutas? Elas não eram só prostitutas, eram mais do que isso. O espetáculo é sobre as vítimas, não é sobre ele [o estripador]. É sobre elas e tudo o que isso envolveu: o que os familiares sofreram, a frustração da PJ, da médica legista ou da psicóloga por não encontrarem respostas.”

Dress code para o público: preto integral

Para definirem o elenco, fizeram um casting aberto para todos os papéis. Tal como os colegas, Hugo Nicolau divide-se entre várias personagens: empregado da oficina, chefe da PJ e um suspeito. A dinâmica de teatro imersivo não lhe é estranha — fez parte de A Morte do Corvo, peça de sucesso que esteve em cena vários anos em Lisboa —, mas essa é a única semelhança. “Aqui há texto e é uma história de true crime, o que torna tudo mais intenso e sensível.”

Preparar-se para um trabalho destes implica estar alerta em várias frentes. Além do texto e da interpretação, que tem de mudar cada vez que trocam de personagem, os atores enfrentam um elemento que é sempre diferente e inesperado: o público. “Há público que se aproxima mais, há outro que fica com mais medo. Com alguma experiência, vamos sabendo lidar com as várias situações que vão acontecendo.”

Antecipar e estar preparado para não controlar tudo é, sugere Hugo Nicolau, o melhor a fazer. “Temos de falar, temos de ouvir, temos de nos mover, temos de interagir às vezes com o público, temos de nos adaptar às situações que acontecem. A dificuldade acho que está aí, mas é também isso que torna um trabalho destes empolgante.”

Mariana Lencastre concorda. “O público está muito próximo, portanto se fala, se comenta, se nós falamos, etc, são tudo fatores com os quais temos de jogar sem perder a concentração.”

Ela é Maria Fernanda, a segunda mulher assassinada, psicóloga e agente da PSP. Nunca tinha feito teatro imersivo e uma das coisas que percebeu é que o entendimento entre o elenco é fundamental. “Perceber que corre tudo bem entre nós e que as coisas estão alinhadas é o principal porque aqui não temos uma cena depois da outra, temos muita coisa a acontecer ao mesmo tempo.”

▲ Os bastidores estão repletos de caixotes identificados porque os atores mudam várias vezes de personagem; Mariana Lencastre é, entre outras, Maria Fernanda, a vítima que vive numa pensão

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A Caça ao Estripador de Lisboa dura cerca de 1h45 e pede-se a participação do público ainda antes da chegada ao local. Indumentária aconselhada: preto total. Primeiro, é uma solução cénica. “O público vir todo de preto e as personagens estarem com cor distingue logo quem é ator e quem não é ator. É fácil para todos identificarem o que é o quê”, explica Simão Biernat. Segundo, de preto todos são semelhantes e podem, todos, ser suspeitos. “O estripador pode estar a caminhar entre nós”, acrescenta Ricardo Soares.

Há fumo no ar, cigarros acesos, cenas de nudez, conteúdo sexual e violência. O ambiente é inóspito e, por vezes, arrepiante. “Viste a Tina?”, pergunta-me o pai da primeira vítima enquanto me agarra firmemente o braço. “É a minha irmã”, acrescenta uma jovem enquanto exibe uma foto pequena um palmo da minha cara. O público está perto da ação que quer, mas a ação também agarra o espectador em cada detalhe, da música à iluminação, passando pelas perguntas retóricas, olhos nos olhos, que as personagens nos dirigem. “Tás a olhar? Também pagas para olhar?, atira-me Maria Fernanda enquanto se encosta a um pilar.

Junto a outro pilar, uma cabine telefónica ainda não está presa à parede, mas isso não impede que uma prostituta ligue para casa da mãe a pedir dinheiro. Mais à frente, Maria João tenta levantar-se, claramente a tentar recompor-se de mais uma dose de droga.

A lotação por sessão poderá chegar às cem pessoas, mas as primeiras datas contarão com menos público para testar como se circula no espaço. O facto de o espectador poder ver tudo de uma ponta à outra vai tornar o espetáculo muito mais fluído, acredita o encenador. “Pedi ao Ricardo uma coisa que nunca tinha visto no imersivo, ter um espaço amplo com visibilidade a 360 graus. Ao estarmos fechados numa sala pode ser claustrofóbico e parece que estamos sempre a perder alguma coisa na divisão do lado.”

O estacionamento da Comunidade Hindu de Portugal não tinha absolutamente nada, nem sequer instalações elétricas, mas depois de muito procurar, Ricardo soube que era perfeito. “Sempre tivemos a ideia de um open space e, quando aqui chegámos, percebemos que se encaixava na nossa visão. Tem este lado inusitado e underground.”

▲ Há centenas de adereços saídos dos anos 90: do Renault 5 onde decorrem algumas cenas violentas às máquinas de escrever, passando por uma cabine telefónica que ainda falta fixar à parede

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Os ensaios mudaram-se para aqui a 6 de outubro e uma das preocupações nos ajustes finais é respeitar sempre as mulheres assassinadas. “Não queríamos transformar os contornos macabros das mortes em entretenimento. As famílias ainda estão vivas e era preciso ter essa sensibilidade. Queria também mostrar a força e resiliência que estas mulheres tinham. Muitas eram violadas e no dia a seguir estavam a trabalhar. A Fernanda tinha tido um filho há um mês, por cesariana, e já estava a trabalhar”, diz Simão Biernat.

Atentos ao respetivo texto, mas também a tudo o que se passa à volta, os atores sabem que nenhuma transição pode falhar. Há deixas que indicam trocas de cena ou de roupa, assim como a música, que funciona como outra marcação.

O som aumenta significativamente, as luzes passam à cor azul, ouve-se a contagem decrescente da mudança de ano, há abraços, risos e a euforia é geral. Estamos em 1993, mas a festa dura pouco. A segunda mulher está morta. “Vítima número dois: Maria Fernanda Matos”, anuncia Inês Castel-Branco. Pelo espaço multiplicam-se as vozes a chamar por ela. O público pode juntar-se às buscas a partir de 28 de outubro.

“A Caça ao Estripador de Lisboa”, com texto e encenação de Simão Biernat, está em cena até 19 de dezembro de 2026. As sessões acontecem de quinta-feira a sábado, às 21h. Os bilhetes podem ser comprados online. Custam entre 49,50€ (entrada individual) e 420€ (pack de dez).

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