1245,5kWh poupados 1245,5 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Entre Pessoa, Sá Carneiro e Poe, num antigo hospital que quer ser um novo espaço cultural em Lisboa

Nove intérpretes, quase duas horas e teatro imersivo para inaugurar a House of Neverless, que a partir do antigo Hospital Militar quer ter protagonismo na cidade. Fizemos a primeira visita à casa.

Ouvem-se as badaladas de um sino de igreja como sinal de começo. Num ambiente escuro e esfumaçado de um antigo hospital – edifício que foi em tempos parte do complexo do Hospital Militar da Estrela, em Lisboa – um conjunto de personagens transporta-nos para o passado. Estamos em 1924. À nossa frente Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, a musa pessoana Ofélia Queiroz e o poeta norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849), entre outras figuras que surgem nas sombras de um espetáculo imersivo que conjuga teatro, performance e mistérios por desvendar. Ficção de um passado, com traços históricos evocáveis, ressaltam Pessoa e Poe que, mesmo não sendo contemporâneos, se encontram numa relação tensa, feita de ciúmes e traição. São estes os elementos principais de “A Morte do Corvo”, peça que estreia esta sexta-feira, dia 13, no espaço cultural e criativo que agora ocupa estas instalações, intitulado House of the Neverless – lá iremos.

Com direção artística de Nuno Moreira, encenação de Ana Padrão e coreografia de Bruno Rodrigues, a criação comporta um elenco de nove atores e atrizes que, ao longo de quase duas horas, irão vaguear por um espaço com cerca de dois mil metros quadrados, que cada visitante (espectador, diga-se) pode explorar livremente. Pelo meio, surgem alguns momentos em que a interação entre público e intérpretes se desenvolve – muitos deles à revelia da escolha de cada personagem. O que sucede? O mistério não se deixa revelar por completo. É preciso ver para crer.

Mas voltemos à história que se conta: Pessoa convida o seu amigo Mário para o ritual de iniciação à Ordem dos Corvos, uma sociedade que procura o segredo da vida para além da morte. A Ordem, liderada por Edgar Allan Poe, esconde-se no andar de cima do edifício, a “funerária” Nevermore. Vários acontecimentos vão precipitar o autor de “Mensagem” num ciclo depressivo que terminará da pior forma, e tudo parece orquestrado por Poe, movido por uma incontrolável inveja da genialidade de Pessoa.

▲ Toda a arquitetura desta complexa experiência é da responsabilidade dos fundadores deste espaço, os sócios Nuno Moreira, Pedro Batalha, Hugo Nóbrega e Filipa Caldeira

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Sem texto falado, mas com um sofisticado sistema de luzes e som, a narrativa aprofunda-se entre cenários distribuídos por 30 salas, onde as diferentes cenas sucedem em simultâneo. Os detalhes pensados ao pormenor, desde o imobiliário de época, às fotografias, os livros, os quadros e até os cheiros que são diferentes de divisão para divisão. Entre incenso, um odor a diferentes infusões de chá ou um reconhecível cheiro a lavanda. Cabe ao público escolher o que vê e sente, sendo que o espetáculo se repete duas vezes, em loop, para que haja oportunidade de experienciar numa maior plenitude a narrativa proposta. O seu final – dizem os criadores – será para todos, num momento também ele de imersão do qual não se sai indiferente.

Toda a arquitetura desta complexa experiência é da responsabilidade dos fundadores deste espaço, os sócios Hugo Nóbrega, Filipa Caldeira, Nuno Moreira e Pedro Batalha – os três últimos estiveram na produção do espetáculo “E Morreram Felizes para Sempre”, de moldes semelhantes, decorrido em 2015, no Hospital Júlio de Matos.

Da experiência à formação

O que aprenderam dessa experiência e a inspiração do que viram noutras cidades, como Londres ou Nova Iorque, motivou-os na busca de um espaço semelhante na capital portuguesa, que lhes permitisse repetir a premissa e sustentar o arranque de um projeto mais abrangente, que ali irá ganhar forma ao longo dos próximos meses. Ao Observador, Nuno Moreira explica que no cerne da ideia estava a vontade de voltarem a fazer uma experiência de teatro imersivo “ainda maior” e “complementar com uma parte de formação que consiga tirar igualmente partido dessa mesma experiência artística”. “Tal como o teatro imersivo é experiencial, também a formação tende a ser cada vez mais… as áreas cruzam-se e conseguirmos aplicar esta linguagem artística a uma realidade mais corporate é uma das mais valias que se pretende atingir”, sintetiza.

"O atual acordo está fixado por um período de um ano e meio podendo ser extensível até três anos. Tempo suficiente, sublinham, para que se pudesse criar um projeto que funcione como polo de atração e de dinamização para o bairro e a cidade. “O próprio nome já perfaz essa ideia experiencial, não só do ponto de vista da sua vertente imersiva e cultural, mas também de ser potenciado por este eixo de inovação."

Com diferentes backgrounds profissionais, Filipa, Nuno e Pedro foram durante duas décadas parte da direção da agência criativa Fullsix Portugal. Já Hugo Nóbrega fez carreira como produtor de espetáculos, sendo responsável por oferecer ao público português momentos como o festival de storytelling Grant’s Stand Together, espetáculos do comediante britânico Eddie Izzard ou do grupo brasileiro Porta dos Fundos. A ligação de diferentes áreas profissionais, como a publicidade ou a produção cultural, abriu também caminho para um pensamento mais amplo sobre as valências que o atual espaço pode acolher. “Para nós, rentabilizá-lo de quarta-feira a domingo, durante duas horas, não faz sentido, daí termos a necessidade de que ele adquira outras vertentes, mais próximas do mundo empresarial ou da formação”, realça Nuno Moreira.

Pegar no passado para inspirar o futuro

O edifício onde assentam arraiais – com este espetáculo imersivo e os projetos que hão de vir –, é um antigo hospital militar pertencente à Santa Casa da Misericórdia e para o qual está previsto (ainda sem data definida) uma unidade hospitalar de cuidados continuados. Até lá, será um espaço transitório para a cultura e as indústrias criativas. “Tudo isto foi possível graças a um protocolo que estabelecemos com a Santa Casa da Misericórdia, que tem por hábito apoiar a vertente cultural e de talento nacional”, explica Pedro Batalha. A oportunidade surgiu depois de meses de procura por um espaço amplo, com capacidade para acolher centenas de visitantes.

▲ Uma história imersiva que une Fernando Pessoa, Mário Sá Carneiro e Edgar Allen Poe é a porta de entrada para esta House of Neverless, que abre em Lisboa esta sexta-feira, dia 13

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Ao Observador os responsáveis explicam que o atual acordo está fixado por um período de um ano e meio podendo ser extensível até três anos de duração. Tempo suficiente, sublinham, para que se pudesse criar um projeto que funcione como polo de atração e de dinamização para o bairro e a cidade. “O próprio nome já perfaz essa ideia experiencial, não só do ponto de vista da sua vertente imersiva e cultural, mas também de ser potenciado por este eixo de inovação. É tudo isso queremos que seja a House of the Neverless”, sublinha Pedro Batalha.

Entre as várias propostas em cima da mesa, pretendem avançar com um conjunto de eixos formativos e workshops, em parceria com a Nova School of Business and Economics (Nova SBE). Entre estas apostas está um curso dedicado a digital trends, outro à experiência do cliente e um de comunicação eficaz.

Será certamente, realçam, um espaço dedicado ao storytelling e à importância que o marketing sensorial tem na atualidade, sobretudo na forma criativa de desenvolver projetos culturais, turísticos e de fruição. E muito embora o futuro do projeto esteja orientado para a sua componente formativa, a intenção de ter uma experiência imersiva e criativa (a primeira narrada em 1924) não deixa de se conjugar com a mensagem que pretendem passar. “Pegar no passado para inspirar o futuro. É por isso, que escolhemos esta época, este passado e estas personagens, ainda que o espetáculo já seja também ele marcado pela utilização de tecnologias recentes”, refere Pedro Batalha. Em “A Morte do Corvo”, além dos elementos cénicos já mencionados, utilizou-se inteligência artificial para produzir parte do cenário e no futuro serão realizadas mais experiências como diferentes tipos de tecnologia.

“Já não vamos para novos e há um momento em que queremos tentar fazer a diferença. Este projeto tem algo que nos apaixona e que vivemos com entusiasmo, mas que ao mesmo tempo acreditamos que pode marcar Lisboa e que fará a diferença”, acrescenta Pedro Batalha.

Nesta casa aberta, tanto para portugueses como estrangeiros, sublinham os fundadores, estão presentes as premissas de inovação e sustentabilidade e uma plataforma de parcerias, como as que já estão a desenvolver com diferentes marcas e grupos económicos. “Queremos transformas as pessoas através do teatro, mas também com as outras valências que iremos consolidar a partir de fevereiro”, diz Nuno Moreira, no terceiro piso do edifício. “Ninguém pode sair indiferente desta peça, pelo menos assim esperamos. É uma experiência multissensorial, mas que tem um propósito mais elevado que é o de dar às pessoas uma oportunidade de viver mais intensamente a vida, mesmo que tenham de andar como crianças à procura das portas secretas que temos.”

Os novos “loucos anos 20”

De regresso à peça “A Morte do Corvo”, salienta-se a evocação aos “loucos anos 20” do século passado como período de efervescência cultural, de aprofundamento tecnológico e de prosperidade económica, sobretudo nas grandes metrópoles. Um século depois, o projeto House of the Neverless quer manter vivos os elementos disruptivos que caracterizaram esse período, marcado pelo modernismo e por outras vanguardas estéticas. Para isso, dizem, é preciso manter um nível de audácia, convicção e risco – “é a única forma de fazer isto bem feito” – e nada como olhar diretamente para o que foi esse período que ainda ecoa na atualidade. Por outro lado, e já com um olhar sobre os próximos anos, o grupo de fundadores não rejeita o termo empreendedorismo e querem mover-se contra a passividade.

▲ O espaço revela áreas que já estão prontas e integradas no espectáculo que é agora estreado e outras que continuam em preparação

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

“Queremos, acima de tudo, motivar as pessoas a não se contentarem com o dia-a-dia e queremos que elas próprias vivam mais intensamente o tempo. Todos nós vivemos um período muito duro nos últimos anos, que também nos serviu para acordar e dar valor às coisas que são estimulantes. O que queremos é que as pessoas sintam, ao entrar num espaço como este, uma vontade grande de contrariar a inércia e de se esforçarem para viver a vida de forma ativa”, explica Nuno Moreira. Olhando para o tempo como o recurso mais escasso que temos, a experiência que ali vai estar até ao próximo mês de março demonstra também como há pessoas mais e menos ativas, algo que, dizem, pode ser útil para qualquer lógica de grupo, como uma empresa.

Parece que tudo afinal se complementa, entre um olhar de passado e outro de desejo para o futuro. Serão os novos anos 20? “Já não vamos para novos e há um momento em que queremos tentar fazer a diferença. Este projeto tem algo que nos apaixona e que vivemos com entusiasmo, mas que ao mesmo tempo acreditamos que pode marcar Lisboa e que fará a diferença”, acrescenta Pedro. Até ver, esta casa parece incitar a uma experiência criativa onde cada um pode tomar caminho.

Os bilhetes para “A Morte do Corvo” estão à venda na Ticketline a partir de 38€; Por 60€, os espectadores-participantes têm direito a entrada VIP, bengaleiro e estacionamento exclusivo e acesso quer a uma sala VIP, aberta 30 minutos antes do espectáculo com oferta de bebida, quer a uma cena adicional exclusiva. O espetáculo pode ser visto até 31 de março.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.