A saúde é um dos pilares fundamentais da humanidade. Não só como setor estruturante da sociedade moderna, mas também como valor que sustenta a dignidade e a qualidade da vida humana. É capaz de envolver sistemas complexos de prevenção, de diagnóstico e de tratamento, sendo crucial para fatores como o desenvolvimento económico, a estabilidade social e, ainda, o bem-estar coletivo. Acima de tudo isto, é o direito universal de cada indivíduo de viver com dignidade, segurança e acesso a cuidados adequados às suas necessidades. Assim, fica claro que investir em saúde é sinónimo de investir no futuro das populações, de olhos postos na longevidade, equidade, sustentabilidade e justiça social.
Contudo, a falta de literacia nesta área ainda é uma realidade. A desinformação em saúde da população, no acesso a medicamentos inovadores, cuidados de saúde, disponibilidade dos profissionais, são temas que impactam a reputação do setor. É com a vontade de impulsionar o talento em saúde, fomentando a literacia e trazendo para o centro do debate todos aqueles que, realmente, fazem a diferença, que nascem os TOP Health Awards. Esta iniciativa, promovida pela Associação TOP Health, tem como objetivo reconhecer e premiar projetos que contribuam para criar mais valor e resultados em saúde, de forma inovadora, colaborativa e com foco na excelência e resultados. Visa desenvolver um ecossistema multidisciplinar que integre diferentes contributos para o setor da saúde, valorizando a cooperação entre competências e o seu impacto direto nas pessoas. Pretende impulsionar um sistema de saúde mais eficiente, inclusivo e sustentável, orientado para a melhoria contínua dos resultados e do bem-estar da população.
3.ª edição dos Top Health Awards, Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, em Lisboa
Depois de duas edições de sucesso, o passado dia 25 de março foi o culminar da 3.ª edição. 110 foram o número de candidaturas recebidas. Dessas, foram escolhidos 14 finalistas para as quatro categorias da iniciativa: Literacia em Saúde; Integração de Cuidados de Saúde; Tecnologia e Dados ao Serviço da Saúde; e Diversidade, Equidade e Inclusão. Para a entrega de prémios, a Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, em Lisboa, encheu-se de finalistas, profissionais e parceiros, para distinguir projetos com impacto transformador e iniciativas que se destacam pelo exemplo.
“É um prazer enorme ter novamente uma sala cheia, pelo terceiro ano consecutivo. Neste momento, recebemos mais de 300 candidaturas na área da saúde, todas provenientes de profissionais que trabalham com propósito, com o objetivo de gerar impacto real na vida das pessoas. Além disso, contamos com mais de 2.000 talentos envolvidos. Podemos afirmar que este é o nosso maior recurso: o acesso a estas pessoas, a estes talentos e a estas organizações, sempre impulsionando a transformação em saúde.” Paula Costa, co-fundadora da Associação TOP Health, foi responsável pelas boas-vindas e, ao lado de Cristina Campos, também co-fundadora da instituição, deram início à cerimónia.
Paula Costa, co-fundadora da Associação TOP Health
E se Paula destacou os números, Cristina sublinhou o futuro. “Sentimos uma enorme responsabilidade. Ao fim de três anos da fundação da associação, já construímos um portfólio com muita qualidade. Imaginem o impacto que estes projetos poderiam ter no futuro do nosso país se conseguíssemos escalá-los a nível nacional. Queremos ir mais longe e transformar esta visão em realidade. Até ao final deste ano, esperamos lançar três novas iniciativas que vão complementar o propósito dos TOP Health Awards: o TOP Health Compass, Knowledge e Growth.. Queremos apostar na capacitação de todos os que trabalham na área da saúde e que querem continuar a crescer e a desenvolver-se. Este é o nosso plano de crescimento para os próximos anos”.
Cristina Campos, co-fundadora da Associação TOP Health
Dado o pontapé de partida, a noite seguiu com a intervenção de Maria Manuel Mota, CEO do GIMM-Gulbenkian Institute for Molecular Medicine, responsável por lançar o tema que deu depois lugar a uma breve mesa-redonda: como transformar a saúde com impacto? E aqui, a keynote speaker foi decisiva, afirmando que a saúde não é um sistema, mas sim um ecossistema extremamente complexo. “Os ecossistemas não se explicam, vão-se construindo. No fundo, há uma floresta inteira que é necessária para fazer uma árvore especial. A pergunta que acho importante fazermos constantemente é: que tipo de floresta queremos ser? Para mim, o problema da saúde não é falta de inovação, é falta de conexão. Já temos alguma ciência de excelência, temos muitos profissionais, tecnologia avançada, mas continuamos a falhar no impacto, porquê? Se queremos transformação com impacto a sério precisamos de quatro coisas: a primeira é paciência, a ciência não funciona em ciclos políticos nem em trimestres financeiros, mas a saúde também não. Temos de apostar e de ter paciência para ver essa aposta desenvolver-se. A segunda é diversidade. Todos os sistemas são mais frágeis quando são mono-diversos, a inovação nasce da interceção de ideias. O seguinte é o diálogo. Aqui precisamos de médicos, de indústria, que se falem. O último é a coragem. Para investir sem retorno imediato, para assumir risco, para usar financiamento, para apostar em coisas que ainda não sabemos se vão resultar”. Para a cientista, não é claro que soluções irão transformar a saúde nos próximos 10 anos. O que é evidente é que essas transformações apenas acontecerão “se a floresta lá estiver. As novas ideias só surgem se tivermos um ecossistema que está lá a permitir que a árvore cresça. A floresta não é o sistema, somos nós. Só depende de nós termos uma floresta que crie impacto”, remata.
Maria Manuel Mota, CEO do GIMM-Gulbenkian Institute for Molecular Medicine
Com o discurso de Maria Manuel Mota ainda a ecoar por toda a sala, juntaram-se à conversa Adalberto Campos Fernandes, Chairman do Fórum Saúde XXI, e Sofia Couto da Rocha, Head of Innovation na Lusíadas Saúde, numa breve mesa-redonda conduzida pela host da cerimónia, e jornalista, Fernanda Freitas. Aos três, foi colocada a pergunta: numa palavra, qual será o fator decisivo para transformar a saúde em Portugal?
Adalberto escolheu o compromisso. “Um compromisso que envolva todos, no sentido em que ninguém tem uma solução mágica em nenhuma parte do mundo. Nós estamos a viver um período de imprevisibilidade. Estamos a confrontar-nos com uma instabilidade estratégica. É preciso um compromisso que nos leve mais longe, que não estejamos uns contra os outros. Nós não podemos aceder ao melhor do que a ciência nos traz, e aporta, se não formos sustentáveis”. Já Sofia Couto da Rocha optou por um verbo – acreditar. Nas palavras da profissional, quando estamos a viver momentos imprevisíveis, os sistemas que não estão bem cimentados acabam por ruir. Assim, este “acreditar, daqueles que fazem parte dos vários sistemas, é crucial. Nós estamos a viver uma época onde a medicina está a ganhar uma dimensão muito diferente. Começamos a ter imbuído, em tudo o que é o nosso dia a dia, aquilo que é saúde. Seja com a IA, com a tecnologia, seja de um modo mais preventivo com dados que têm de trabalhar a nosso favor. Se a nossa geração não for a geração que acredita que é possível juntar tudo isto – pessoas, sistemas – e a potenciação entre todos, quem será?”, deixa no ar a Head of Innovation naLusíadas Saúde. Maria Manuel Mota junta-se aos colegas com a palavra “sonhar”, mas sempre com os pés bem assentes na terra. “Temos que sonhar, mas planear. Há um lado que nos falta muito, estamos sempre a apagar fogos, a resolver os problemas imediatos, mas temos que ter equipas capazes de, enquanto uns são os bombeiros de serviço, outros estão a planear como vamos fazer as coisas para o futuro. Planear com a visão: como é que vamos chegar a todos de uma forma sustentável?”. Na perspetiva da profissional, isto só será possível através de uma união de esforços.
Fernanda Freitas, jornalista; Maria Manuel Mota, CEO do GIMM-Gulbenkian Institute for Molecular Medicine; Sofia Couto da Rocha, Head of Innovation na Lusíadas Saúde; e Adalberto Campos Fernandes, Chairman do Fórum Saúde XXI
Ideias em cima da mesa, foi altura de entregar os prémios
Porque a noite da passada quarta-feira teve como principal motivo a celebração de projetos de excelência, foi depois do jantar que os vencedores subiram a palco para a entrega de prémios. Este ano, para além da distinção de um vencedor por cada uma das quatro categorias, sobrou ainda espaço para duas menções honrosas, um Prémio Personalidade TOP e uma novidade: o Prémio TOP Revelação, um reconhecimento para os talentos emergentes e líderes inspiradores que coordenam ou influenciam projetos com resultados concretos.
Atribuição das menções honrosas: João Condeixa, representante da Convenção Nacional da Saúde; Márcia Assunção, representante do Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira
Os premiados
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Comecemos pelo vencedor na categoria de Literacia em Saúde:
- Susana Viana, da Burson Portugal e APDP (Associação Protetora dos Diabéticos), com a campanha “O seu filho tem um dedo que adivinha”. Esta é uma iniciativa que tem a missão de detetar, de forma precoce, a diabetes tipo 1 em crianças e jovens, entre os 3 e os 17 anos, através de um simples teste – uma picada no dedo -, capaz de identificar se já existe, ou não, um processo de destruição das células que produzem insulina no pâncreas. O projeto já atingiu 10 mil crianças em 15 meses e avança agora para a integração no rastreio nacional;
Na categoria de Integração de Cuidados de Saúde, venceu:
- Ana Varges Gomes, da ULS Algarve EPE – Serviço de Oncologia Médica -, com o Projeto de Proximidade de Cuidados Oncológicos no Algarve, o OncoSEGUE. Trata-se de um projeto focado na prestação de cuidados em oncologia médica, incluindo a realização de consultas especializadas e a administração de tratamentos oncológicos, tanto por via injetável como oral. Integra ainda a discussão de casos clínicos com médicos de Medicina Geral e Familiar, promovendo uma abordagem colaborativa, e assegura a articulação entre os cuidados paliativos hospitalares e comunitários, garantindo uma resposta mais integrada e contínua ao doente. Graças a equipas multidisciplinares móveis, descentralizou consultas, tratamentos e exames para cinco concelhos do Algarve, tornando possível que doentes oncológicos recebam cuidados especializados perto de casa. Até agora, conta já com 14.300 consultas e o acompanhamento de quase 5.000 doentes;
Já na categoria de Tecnologia de Dados ao Serviço da Saúde:
- O vencedor foi Jorge Miguel de Sousa Carvalho, da ULS de Santo António, com o projeto Digital & Robotic Care: with everyone and for everyone. Revolucionou o percurso cirúrgico ao implementar um modelo integrado que alia cirurgia robótica, monitorização digital do doente e partilha de conhecimento em tempo real. A ULS Santo António tem vindo a consolidar a cirurgia robótica como um modelo digital escalável, integrando telemonitorização, análise de dados e inteligência artificial, contando já com cerca de 1.800 cirurgias realizadas e 43 profissionais formados;
Por fim, na categoria de Diversidade, Equidade e Inclusão, a vencedora foi:
- Eugénia Brandulo, com o projeto DAT – Dança Arte e Tango Terapia: Inclusão, Bem-Estar e Expressão Comunitária. Aqui, a utilização do tango, em todas as suas manifestações artísticas, assume-se como uma ferramenta educativo-terapêutica. Esta abordagem terapêutica complementar atua tanto na prevenção primária como no acompanhamento de diferentes situações, promovendo o bem-estar global e reforçando a saúde física, mental e emocional ao longo de todas as fases da vida. O projeto integra atividades regulares em Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI), centros de dia e universidades seniores, articuladas com iniciativas intergeracionais que estimulam os laços sociais, a autonomia e a capacidade de adaptação. Conta já com 46 grupos ativos e mais de 800 participantes semanais.
As menções honrosas pertenceram à Convenção Nacional da Saúde, através do seu representante João Condeixa, com o projeto RADIS – Relatório de Avaliação de Desempenho e Impacto do Sistema de Saúde -, uma ferramenta pioneira em Portugal para avaliar, de forma integrada e independente, o desempenho do sistema de saúde, colocando a pessoa no centro da análise; e a Márcia Assunção, do Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira, com o Projeto Cuidadores de Apoio ao Domicílio (CAD) – SESARAM, EPERAM. Promove a capacitação de cuidadores, através de uma parceria inovadora entre os setores da saúde e do emprego, e assegura a prestação de cuidados temporários no domicílio, possibilitando que pessoas em situação de dependência regressem a casa de forma segura, digna e acompanhada.
Com o evento a chegar ao fim, o Prémio TOP Revelação foi entregue a Rita Veloso, Vogal Executiva do Conselho de Administração da ULS Santo António e Professora Universitária ICBAS-UP, e o vencedor da Personalidade TOP foi Ricardo Baptista Leite, CEO da Health AI – Agência Global para a Inteligência Artificial Responsável na Saúde -, sucessor de Paulo Gonçalves, vencedor da 1ª edição, e Rui Santos Ivo, vencedor da 2.ª edição.
Prémios entregues, foi altura de dar por terminada a cerimónia, mas não sem antes deixar no ar a vontade de rumar com destino a uma 4.ª edição. Com vontade de continuar a celebrar o talento e as organizações que todos os dias trabalham com o propósito de criar impacto real na saúde. Afinal, este não é um ponto de chegada, mas sim o início da transformação do impacto na saúde em Portugal.