48 horas depois de um dos países mais pacíficos do mundo ter ponderado um ataque militar a São Marino devido à eliminação de Conan Osiris, eis-nos de volta para a segunda meia-final do Festival da Eurovisão. Nada melhor para afogar as mágoas do que passar os ouvidos por dezoito canções ao longo de duas horas e meia de espectáculo que passam a correr como um amputado sem uma prótese. Não se aprendeu muito, a não ser que o modelo eurovisionário mantém uma capacidade prolífica de elevar o mau gosto a novos patamares. Talvez seja melhor assim. O nível global das actuações permite aos portugueses concluírem que a nossa superioridade nesta matéria se mantém intacta, apesar de um amplo corpo de provas demonstrarem o contrário.

Arménia

Srbuk, “Walking Out”

Voz pujante, canção capaz de encher a arena, espectáculo de luz saído de uma noite no Terreiro do Paço, e um nome artístico – Srbuk – que parece uma onomatopeia usada quando alguém arrota. Esta miúda parece saber ao que vai, pelo menos até ao momento em que a canção lhe pede umas notas mais altas e a coisa começa a descambar. Já perto do final da actuação, vemos a jovem arménia cercada por chamas mas não percebemos se fazem parte do espectáculo ou se são uma tentativa de expulsar a intérprete do palco.

Irlanda

Sarah McTernan, “22”

Imaginem que Maria Leal fazia um extreme makeover, concorria à Eurovisão e vencia com uma esmagadora maioria de votos irónicos. Não andará longe. Há pessoas que parecem nascidas para o estrelato pop, e há individualidades como esta Sarah McTernan (ou Mary Loyal), dona de uma voz que fará dela empregada do ano na Teleperformance e um movimento de anca que a deveria tornar elegível para uma pensão de invalidez.

Moldávia

Anna Odobescu, “Stay”

Sabemos que vem aí coisa boa quando Nuno Galopim nos avisa que os desenhos em areia estão prestes a regressar à Eurovisão. Pergunta o leitor: haverá alguma coisa mais foleira do que desenhos em areia feitos em tempo real? Claro que sim. Basta juntar-lhe Anna Odobescu, jovem que, dizem-nos os apresentadores, teve formação instrumental e vocal em escolas de referência. É caso para dizer que os estudos nem sempre garantem um futuro. Ao longo de 3 minutos e 16 segundos em que o tempo parece parar,  Anna Odobescu permanecerá indiferente ao nosso sofrimento, ululando como se a sua vida dependesse disso. O pior é que, quando se trata de vozes e composições como esta, depende mesmo.

Suíça

Luca Hanni, “She Got Me”

Mais um aviso de Nuno Galopim que desperta a minha curiosidade. “Vem aí uma canção perto do território Ricky Martin”, explica. Que ímpeto territorialista será este? E onde fica exactamente? Presumo que seja uma espécie de Triângulo das Bermudas musical em que o bom gosto desaparece sem deixar rasto. Felizmente, esta especulação acaba por se revelar desajustada e o intérprete suíço surge em palco absolutamente convicto de que tem a primeira canção pop decente da noite. Não será nem por sombras o melhor momento da noite, mas o público efervesce, a coreografia e cenografia iluminam a noite em Telaviv, e a multidão abandona o parapeito de um décimo oitavo andar onde se encontrava desde a canção da Moldávia.

Letónia

Carousel, “That Night”

Eu já tinha sentido algo semelhante a isto, mas em forma de comida, quando uma vez num buffet vegetariano enchi um prato de quinoa e tofu. É complicado dizer o que correu mal aqui, mas qualquer coisa que esteja remotamente perto de ser descrita como “indie rock letão” é uma ideia que não tem condições para singrar. Há ali boa vontade, mas esta é uma daquelas canções que devia ter ficado nos quartos-de-final da Eurovisão. Sim, eu sei que não existem quartos-de-final na Eurovisão.

Roménia

Ester Peony, “On a Sunday”

A Eurovisão é, entre outras coisas, um compêndio de indumentárias e trejeitos vocais que fomentam o ódio e a intolerância cultural (e vice-versa). Esta canção romena é uma das que melhor cumpre o inevitável desígnio de nos fazer gostar um bocadinho menos uns dos outros. Tentem recuar até à primeira ocasião em que alguém cantou para outra pessoa. Agora imaginem que esse tema era esta canção romena. Provavelmente não estaríamos aqui hoje.

Denmark

Leonora, “Love is Forever”

Esta pop delicodoce de travo nórdico parece ter sido pensada para uma festa de crianças ou para o Sequim d’Ouro, ou seja, estará prestes a garantir a simpatia inesperada de muitas pessoas, reunindo assim condições privilegiadas para levar uma ripada daqui a dois dias, que as crianças não são para aqui chamadas.

Suécia

John Lundvik, “Too Late for Love”

Os primeiros segundos de John Lundvik em palco surgem diante de nós com um plano fechado em que o intérprete sueco pergunta “hey, how you been” mas na verdade parece dizer “já foste”. A sua voz faz todas as interpretações antes de si parecerem saídas de uma fila para um casting do The Voice no Teatro Municipal de Vila Real. O embaraço da concorrência não termina aí, porque a canção vai somando elementos bem conseguidos até um final apoteótico com um indomável coro de vozes femininas que nasceram para isto. Lundvik abandona o palco a repetir, tal como no refrão, que nunca é tarde demais para o amor. Dezenas de pessoas à porta do Teatro Municipal de Vila Real repensam as suas opções de vida.

Áustria

Paenda, “Limits”

https://www.youtube.com/watch?v=GZtbCvPyxaQ

— Boa noite, Saúde 24.
— Olá, estou a sentir uma dor lancinante nos ouvidos.
— Há quanto tempo começou a sentir a dor?
— Começou há pouco mais de 1 minuto.
— Tem a TV ligada?
— Sim.
— Na RTP?
— Como é que sabe?
— Desligue o som e volte a ligá-lo quando a canção austríaca terminar.
(gritos)
— Está aí?
(ouvimos o refrão da canção austríaca em som de fundo)

Croácia

Roko, “The Dream”

É o primeiro grande momento irónico da noite. O intérprete croata surge deitado, envolto naquilo que parece ser lava, levanta-se como se fosse um mero banho de imersão e impõe o vozeirão num idioma estranho, sendo subitamente ladeado por dois indivíduos que descem dos céus munidos de asas postiças. Nisto, os dois indivíduos dançam um pouco até colocarem asas postiças no intérprete da canção. A coisa termina com o intérprete croata a olhar para o céu, visivelmente satisfeito consigo mesmo.

Malta

Michela, “Chameleon”

Qualquer concorrente que é apresentada com a frase “chamou a atenção quando entrou no Factor X maltês” deve ser encarada com o máximo de cautela auditiva. Se o próprio Nuno Galopim acha que esta canção está mal arrumada, é possível que eu não sobreviva à experiência. A canção é uma mescla de ritmos ditos urbanos congeminada num beco em Valleta e, ao contrário do que actualmente acontece, devia pagar imposto.

Lituânia

Jurij Veklenko, “Run with the Lions”

Um tipo de barba excessivamente desenhada desunha-se para chegar a um refrão que fala em correr com leões mas merecia ser assassinado por eles.

Russia

Sergei Lazarev, “Scream”

Nesta canção o intérprete está fechado numa caixa de vidro ou PVC, mas infelizmente levou consigo um microfone, por isso conseguimos ouvir tudo o que ele diz. A maioria das pessoas terá gostado mais deste tema do que eu, mas foi para isso que inventaram o Twitter ou a caixa de comentários deste artigo. Podem ir lá queixar-se.

Albânia

Jonida Maliqi, “Khetju Tokes”

O tema albanês, interpretado por Jonida Maliqi, contém multitudes, não como o poema de Walt Whitman mas como, digamos, uma caixa de compostagem. É uma mescla de géneros, de um folk balcânico até à pop, passando pela electrónica, em amena cavaqueira como meia dúzia de bêbedos às 2 da manhã na Madragoa. Enfim. Como em tudo na vida, o segredo passa por gerir bem as expectativas para assim evitar desilusões, e eu nunca esperei vir a gostar da canção albanesa. Podia tentar explicar-vos porquê de uma forma que pareça respeitável, mas estaria apenas a esconder o meu preconceito de longa data em relação à nação albanesa, que utilizo como uma espécie de adjectivo quando preciso de nomear um país que representa o auge do subdesenvolvimento na Europa. E não era hoje que ia escolher outro. Ainda assim, o público não pareceu concordar comigo.

Noruega

KEiiNO, “Spirit in the Sky”

A versão original deste tema não terá sido criada num estúdio, mas sim num lagar.

Holanda

Duncan Laurence, “Arcade”

À primeira nota de piano tocada por Duncan Laurence, o público reage como se fosse a volta de honra do vencedor, e só não será se a malta engraçar com o rapaz da Suécia. O intéprete holandês não tem a mesma mestria vocal, mas tem tudo o resto, que é menos, e neste caso menos é mais. Em vez de usar as mãos para um tique estranho, o Salvador Sobral holandês toca piano lindamente e acompanha com uma interpretação que serve de contraponto ao maximalismo que nos faz amar, odiar ou simplesmente ignorar a Eurovisão. É uma canção pop com elementos de electrónica utilizados com bom gosto, capazes de convencer no palco de Telaviv e no mundo real, onde as canções tentam sobreviver sem o aparato quase rídiculo que caracterizou muitos dos temas apresentados nesta meia-final.

Macedónia do Norte

Tamara Todevska, “Proud”

Todo o país tem a sua Mila Ferreira e a Macedónia do Norte não é excepcão.

Azerbaijão

Chingiz, “Truth”

A canção do Azerbaijão é uma das melhores e mais bem interpretadas da noite, mas reproduz uma fórmula já ouvida hoje e chega quando eu já estou a rogar pragas a tudo isto. Ficaria chocado se não passasse à final.

GRAÇAS A DEUS isto tem intervalos.

O melhor momento da noite, e também o mais comovente, surge com uma banda chamada Shalva, composta por uma série de miúdos com deficiências. A canção é não só uma das mais bonitas da noite, como nos oferece um exemplo poderosíssimo de integração social que raramente se vê num grande palco ou no pequeno ecrã. De resto, já disse mal que chegue. Adorei estes miúdos.

Os finalistas são Holanda, Macedónia do Norte, Suécia, Rússia, Azerbaijão, Dinamarca, Noruega, Suíça e Malta. Dizem as probabilidades, com elevado grau de certeza, que o vencedor será o intérprete holandês. Mais provável ainda será acabarmos todos felizes e embriagados nesta divertida piscina de azeite que é a Eurovisão.

Vasco Mendonça é publicitário e co-CEO da associação recreativa Um Azar do Kralj