A Guerra dos Tronos: mamas, dragões… e, apesar de tudo, feminismo? /premium

Agora que tudo acabou, e Daenerys não se transformou na mulher-símbolo que prometia ser, é tempo de fazer as contas, e talvez as pazes, com uma leitura feminista da série.

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[ATENÇÃO: este texto tem SPOILERS sobre a oitava temporada da Guerra dos Tronos. Se não quer saber mais, não leia]

Era uma vez uma menina pré-adolescente muito bonita, de cabelos ruivos, que vivia num reino muito distante do Norte, ou seja, em Winterfell. A menina, que era muitas vezes atormentada pela irmã maria-rapaz por ser muito cliché, só sonhava com vestidos bonitos, uma vida faustosa na capital do reino, um casamento de antologia e tornar-se a mulher de um Rei loiro e (aparentemente) garboso.

Podia isto ser o início de um qualquer conto infantil tipicamente sexista na distribuição das expectativas femininas, não fosse dar-se o caso de esta menina ser Sansa Stark, e de tudo isto ter de facto acontecido na história, mas apenas na altura de lançar os dados do jogo logo no início de “A Guerra dos Tronos”, a série que chegou agora ao fim deixando muita gente realizada, muita gente triste, e outro tanto de gente muito contrariada com esta mania que as histórias escritas por outras pessoas têm de não acabarem exatamente como cada um quer.

Como se sabe (ou, pelo menos, como sabem aqueles que não partilham aquele-meme-que-parece-original-mas-não-é de “eu nunca vi A Guerra dos Tronos”), a vida de Sansa teve muito pouco de conto de fadas. Mas terá tido muito de sexista? Ou será mesmo possível falar de feminismo quando se fala de uma série do fantástico que decorre numa era pelo menos pseudo-medieval? É que além de Sansa, há (claro, e apesar de tudo) Dany, há Arya, Cersei, Brienne, Yara, Ygritte, lady Oleanna, Missandei e muitas outras que têm inspirado teorias, ensaios, artigos, merchandising e discussões sobre questões de género num mundo de bordéis, dragões e homens que se fartam de produzir sound bites sobre os seus pénis e chavões reflexivos sobre poder sexual.

Arya Stark

“Esta série é só mamas” – a frase que pode ser um Cavalo de Troia

Como é que uma série que muitos associam apenas a imagens de mamas, violência sexual constante e a notícias sobre como as atrizes começaram por receber muito menos do que os atores pode ter alguma coisa a ver com feminismo? A pergunta é legítima, sobretudo tendo em conta o longo historial do fantástico com personagens femininas utilitárias, pouco relevantes, nada dadas a afirmações de género.

Mas a resposta não é tão óbvia, sobretudo numa série que sempre teve tanta noção da existência da injustiça que nunca deixou de a apresentar como a maior das constantes da vida – basta pensar na decapitação de Ned Stark, o mais justo dos homens, que estabeleceu este tom de “é feio, é mau, mas é como o mundo é, e é por isso mesmo que vai acontecer”.

Dany não tinha de ser uma heroína, nem tinha de se converter na melhor e mais piedosa das rainhas da história de Westeros para lançar a questão do género. É possível que a tenha lançado de forma ainda mais estrondosa (para não dizer explosiva) por não o ter feito. Ela era assim, intempestiva e violenta, desde sempre, algo que os livros expõem de forma mais clara do que a série, o que talvez explique a surpresa final.

As famosas sequências de nus femininos, o ambiente medieval de favorecimento dos homens primogénitos (com honrosa distinção para Dorne, o mais liberal dos Sete Reinos) e tudo em redor acaba então por funcionar como uma espécie de Cavalo de Troia, de onde depois, quando menos se espera, sai uma Daenerys Targaryen, condenada pela história da família e condenada pelo próprio irmão a ser uma mera moeda de troca entre selvagens – mas só até tomar consciência de si própria. E até esta Daenerys começar a acender o rastilho (pun intended) que, como aconteceu em Troia, faz arder todas as fundações e mostra que estas mulheres, afinal, têm algo mais para nos mostrar do que mamas bonitas. Mesmo que no fim tenha de ficar tudo reduzido a cinzas, até porque já sabemos qual é a relação entre “A Guerra dos Tronos” e a Justiça.

“A Mãe de Dragões pode ser vista como um modelo de experimentação criativa, e até como modelo de autodeterminação feminina e libertação”, escreveu a académica Rikke Schubart num dos ensaios da antologia Women of Ice and Fire: Gender, Game of Thrones, and Multiple Media Engagements. Não por acaso, seguindo o arco heroico da sua personagem, Dany foi aprendendo, ao contrário de outros heróis que tipicamente recebem lições de humildade, que para reinar num mundo de homens, ou apenas para ter o direito de ser quem queria ser (e, pelo caminho, fazer o mesmo pela liberdade de outros também em posições frágeis), tinha de se afirmar cada vez mais.

“Women of Ice and Fire: Gender, Game of Thrones, and Multiple Media Engagements”

Isso acaba por explicar o apelo feminista que transformou o nome Khaleesi – um dos seus muitos títulos, que significa rainha em dothraki – num símbolo e num produto comercial sobre empoderamento feminino, replicado em canecas, t-shirts e outros artigos. Explica também o tamanho da deceção de tantos que apostaram nela todas as suas fichas de esperança numa possibilidade de afirmação de género, de reescrever a história, de ter algum impacto na dualidade de critérios – afinal, ela podia, ela merecia, ela fez tudo o que podia para ser a primeira rainha dos Sete Reinos por direito de sucessão e não apenas por casamento. O que mais teria de fazer uma mulher para receber o título que homens menos competentes e ainda mais autocratas já tinham tido? Seria justo que Dany prevalecesse, ela que nem podia ser mãe, contrariando logo a exclusividade desse desígnio feminino, mas pôr um povo inteiro a chamá-la de mhysa (a palavra para mãe no dialeto ghiscari). Mas lá está de novo a negação da justiça enquanto forma de tornar a injustiça ainda mais gritante, ao bom estilo Ned Stark ou Casamento Vermelho.

A questão é que Dany não tinha de ser uma heroína, nem tinha de se converter na melhor e mais piedosa das rainhas da história de Westeros para lançar a questão do género. É possível que a tenha lançado de forma ainda mais estrondosa (para não dizer explosiva) por não o ter feito. Ela era assim, intempestiva e violenta, desde sempre, algo que os livros expõem de forma mais clara do que a série, o que talvez explique a surpresa final. E isto é plenamente assumido por George R.R. Martin, o autor da saga (que, para os que querem mais, está publicada em Portugal pela editora Saída de Emergência), não acontece por acaso.

Segundo o próprio autor disse, numa entrevista ao The Telegraph em 2013:

“Quem odeia as personagens femininas, odeia-as pelas pessoas que são, pelas coisas que fizeram, e não porque são personagens mal desenvolvidas… Com homens ou mulheres, acredito em pintar vários tons de cinzento. Todas as personagens devem ter defeitos, todas devem ser boas e más, porque é isso que eu vejo. Sim, é fantasia, mas as personagens têm de ser reais. Para mim, ser feminista é tratar homens e mulheres da mesma forma. Claro que há diferenças, mas muitas delas são criadas pelo contexto em que vivemos, seja na cultura medieval de Westeros ou na cultura do século XXI ocidental.”

Mais do que estas mulheres nunca terem existido apenas para servir a narrativa dos homens, o mais marcante e mais raro é a sua plena consciência – e verbalização frequente – da injustiça do lugar que ocupam no mundo apenas por serem mulheres.

Dany, herdeira de toda a violência que sempre a rodeou (e talvez da questão genética tantas vezes referida, uma vez que os Targaryen sempre procriaram entre irmãos para manter a pureza da linhagem), é uma mulher assim – o que não significa que as mulheres são assim no geral. Uma guionista-mulher teria pelo menos resistido à tentação de a colocar perante a rejeição do amado antes de decidir destruir tudo, porque, convenhamos, ela teria destruído tudo na mesma. Missandei, a doce e razoável Missandei, já tinha dado o mote com as suas últimas palavras antes de morrer: Dracarys.

Mais do que mulheres fortes, mulheres conscientes da injustiça

Além de Dany, é inquestionável que há muitas mulheres fortes em “A Guerra dos Tronos”, mulheres daquelas que vão mesmo para combate; como Yara Greyjoy, que lidera uma frota de barcos de guerra; Brienne of Tarth, a primeira mulher a ser condecorada “Cavaleiro” (Sir, o que não deixa de ser irónico), ainda que na calada da noite e meio à revelia; Lyanna Mormont, a mulher-criança que assume a liderança da sua casa e até luta com um gigante; Ygritte, que era selvagem, sim, uma fatia da população mais “inclusiva”, mas onde ainda assim nem todas as mulheres lutavam ao lado dos homens; e, claro, Arya, que quis aprender a lutar como os irmãos desde pequena, se tornou uma assassina profissional e foi a verdadeira chave para a derrota do Exército dos Mortos.

Só isso, em si mesmo, seria refrescante o suficiente numa série tão sangrenta e dada a confrontos físicos. Não deixam de ser uma exceção, e a noção feminista da série não é intocável, mas estas mulheres também não são secundárias, nem perto disso, e isso já gera material suficientemente merecedor de análise. Até porque, mais do que estas mulheres nunca terem existido apenas para servir a narrativa dos homens, o mais marcante e mais raro é a sua plena consciência – e verbalização frequente – da injustiça do lugar que ocupam no mundo apenas por serem mulheres.

Veja-se o exemplo de Cersei, que era uma mulher cruel, uma verdadeira vilã, ainda para mais condenada à partida pela sua condição de mãe, julgada pelos erros ou fraquezas dos filhos e tendo sempre cometido os seus maiores erros em nome deles. Apesar de tudo, Cersei, que chegou a tomar o poder à força, porque ainda que fosse mulher do rei teve primeiro de passar a liderança aos filhos menores, foi sempre uma das vozes mais ativas a denunciar o machismo que a esmagou desde a infância.

Sansa Stark

“Jaime [o irmão gémeo] foi ensinado a lutar com espadas e lanças, e eu fui ensinada a sorrir e a dançar e a agradar. Ele era o herdeiro de Casterly Rock, e eu fui vendida a um desconhecido como um cavalo para ser montada sempre que ele quisesse”, disse uma vez a Sansa. Mais claro ainda foi o momento em que confrontou o pai na terceira temporada: “Alguma vez te ocorreu que eu sou provavelmente a única merecedora da tua confiança e do teu legado… e não os teus filhos?” Nestes momentos, e em muitos outros, Cersei permaneceu absolutamente consciente da injustiça da sua condição.

De outras formas, e tendo todas as mulheres que se tornam aqui relevantes sido sujeitas a tratamentos traumáticos, terríveis, desiguais, todos eles obstáculos suficientemente expostos pela narrativa da série, muitas das protagonistas verbalizaram esta noção e assumiram uma negação feroz do papel de vítima.

Arya fê-lo desde pequena, quando disse que não queria ser uma Senhora e se tornou o mais solitário dos lobos da matilha Stark – mesmo até ao final; Ygritte lembrou Jon Snow de que não havia motivo para as mulheres desmaiarem à vista de sangue, porque as raparigas estão mais habituadas a ver sangue do que rapazes – e foi especialmente libertadora ao dizer diretamente ao namorado que tinha gostado do cunnilingus durante a sua estreia sexual; e lady Oleanna, memorável matriarca dos Jardins de Cima, deu ainda uma outra perspetiva a esta questão: “Conheci muitos homens inteligentes ao longo da minha vida. Sobrevivi-lhes a todos. Sabes porquê? Porque os ignorei”, contou uma vez a Dany, muito tempo depois de já ter assumido que todos os homens da sua família eram inúteis e que as mulheres arranjaram a sua forma de conduzir os jogos de poder, uma delas sendo a solidariedade de umas com as outras.

A cultura da violação que não é só medieval

Não é fácil gerir, e muitas vezes digerir, a utilização da violência sexual feita pela série – é, aliás, o maior obstáculo para as mulheres, ou pelo menos a ameaça que mais vezes paira sobre elas, seja na viagem de Brienne com Jaime, nas ameaças veladas feitas a Dany em muitas das cidades livres por onde passa e em quase todas as afirmações de poder de Joffrey, isto para mencionar apenas alguns casos mais óbvios.

Não se deve aceitar sem questionar a “inevitabilidade” de as mulheres terem sempre de passar por situações de violência sexual, mas, ainda assim, "A Guerra dos Tronos" assume um certo papel de veículo para se falar da cultura da violação, tanto no passado como nas sociedades atuais.

Na última temporada, um diálogo envolvendo Sansa Stark, em que possivelmente se sugeria que sem todos os abusos que sofreu ela não se teria tornado aquela pessoa tão forte, disparou a revolta. E a atriz, Sophie Turner, acabou por tentar explicar numa entrevista ao The New York Times:

“O que se quer dizer é que ela se tornou forte apesar de todas as coisas horríveis por que passou, e não por causa dessas coisas. Ela é, na sua essência, uma mulher resiliente, corajosa, forte, e isso não tem nada a ver com as pessoas que abusaram dela.”

Não se deve aceitar sem questionar a “inevitabilidade” de as mulheres terem sempre de passar por situações de violência sexual, mas, ainda assim, e sobretudo no caso de Sansa, em que a narrativa não deixou de acompanhar a construção da personagem e o impacto do que esta viveu, “A Guerra dos Tronos” assume um certo papel de veículo para se falar da cultura da violação, tanto no passado como nas sociedades atuais.

Daenerys foi violada por Khal Drogo logo na primeira temporada, ou pelo menos ofereceu o seu consentimento de forma muito condicionada. Cersei foi violada por Jaime na temporada quatro, ao lado do caixão do filho, tendo repetido várias vezes a palavra “não”, e ouvindo a resposta: “Não quero saber.” E Sansa foi violada por Ramsay na temporada cinco. Contudo, apenas num dos casos a série deu o devido “retorno” de empoderamento, personificado na vingança violenta de Sansa perante o seu agressor, e na sua superação do trauma, feita à sua maneira. Ainda assim, Sansa ainda enfrentou a sua quota parte de culpabilização da vítima – nomeadamente quando Lyanna Mormont questionou se, com todos os casamentos que teve, ela ainda era uma Stark, como se esses casamentos forçados lhe pudessem ser de facto imputados.

Cersei Lannister

HELEN SLOAN / HBO

Talvez o respeito pelo arco narrativo da agressão a Sansa não chegue para compensar a falta de acompanhamento dada às marcas, naturais e necessárias, deixadas pelo crime da violação nas vidas de Dany ou Cersei, mas não deixa de ser um triunfo. E Tyrion, o sábio, já tinha avisado na segunda temporada:

“Lady Stark, ainda nos vai sobreviver a todos.”

E aí está, talvez, a redenção feminista possível num mundo desequilibrado, numa sociedade medieval, numa série sempre laborada na fronteira das injustiças – o final de Dany, o grande símbolo da força feminina, não tem de ser anti-feminista, como muita gente sugeriu nas redes sociais. Até porque nunca seria justo pedir à Quebradora de Correntes que fosse mais misericordiosa e mais suave do que a sua natureza de facto era só por ser mulher.

Assim, apesar de tudo, “A Guerra dos Tronos” ainda parece estar à frente do seu tempo (e do nosso, já agora) na atribuição de papéis de autoridade concreta às mulheres. E no fim das contas até houve uma mulher coroada, desfazendo as regras da sucessão do seu próprio reino. E logo ela, a menina que, lá no início, só queria ser uma princesa de um conto de fadas, e logo ela que atravessou o Inferno durante praticamente seis temporadas: Sansa Stark, a Rainha do Norte. Longa vida à Rainha.

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