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A música, a política e a vida: as palavras reunidas de José Mário Branco

É uma das mais importantes figuras da música popular portuguesa dos últimos 50 anos. Que o novo livro que lhe reúne as entrevistas seja um primeiro passo para que lhe reconheçamos o extremo valor.

Algures em 2008 desloquei-me a casa de José Mário Branco (1942-2019) para o que era suposto ser uma entrevista não sobre ele, mas sobre a sua relação musical com Camané, que acabava de lançar o espantoso Sempre de Mim, produzido, como de habitual, por JMB. Estava um pouco intimidado, em parte porque a ideia que tinha era a de um homem fechado, pouco dado a partilhar a sua intimidade, talvez um pouco anti-social, eternamente zangado com o estado do mundo – enfim, alguém que se tornara uma espécie de monumento que era preciso abordar com delicadeza e distância.

Isto apesar de ter assistido às gravações do disco e de ter ficado impressionado com a doçura com que JMB falava com Camané, e a inteligência com que guiava Camané de modo a obter dele o que imaginara – nunca o repreendia, nunca lhe dizia que errara. Antes perguntava o que o fadista achava de determinado verso, qual a sílaba que acreditava dever ser acentuada – até que Camané, por si mesmo, acabasse por entregar cada vocábulo tal como ele soara na imaginação do produtor.

Na minha inocência — talvez porque a dupla já trabalhava junta há anos e porque Camané falava publicamente com muito carinho do seu produtor — imaginara que os dois tivessem uma relação extremamente próxima, como pai e filho. Qual a minha surpresa quando José Mário Branco, ao ouvir-me perguntar-lhe que relação é que mantinham quando não estavam a gravar a discos, atirou, com a maior tranquilidade (e cito de cabeça): “A gente é como os amantes. Junta-se para o que é bom. Não discute quem é que tem de lavar a loiça”.

▲ A capa de "José Mário Branco: Entrevistas para a Imprensa 1970-2019". Organização de Ricardo Andrade, Hugo Castro e António Branco. Edição: Tinta da China

A surpresa regressou há dias, quando estava a ler José Mário Branco – Entrevistas Para a Imprensa 1970 – 2019 (um livro cuja função está explicitada no título) e me deparei com a seguinte citação de uma entrevista conduzida por João Gobern, para o jornal Se7e, a 8 de maio de 1985: “Quero manter com a música uma relação de amante”, dizia JMB quase vinte anos antes de o ouvir dizer algo semelhante.

Obras como José Mário Branco – Entrevistas Para a Imprensa 1970 – 2019 permitem-nos aferir de como uma pessoa mudou, pelo menos nas suas declarações públicas, e do que nelas se manteve constante. Na sua última entrevista, a 16 de abril de 2019, ele fala de, a dado momento, ter começado a recolher e arquivar tudo o que dizia respeito à sua carreira – a propósito de ter acabado de produzir um disco de Katia Guerreiro, diz: “Compro cartolina, faço pastinhas e escrevo ‘Katia 2018’. Qualquer papelinho, qualquer recibo de táxi, qualquer coisinha (…) está aqui”.

1971. José Mário Branco e a revolução da canção portuguesa gerada a partir de Paris

Ele não está a brincar – em 2008, no fim da nossa conversa sobre Sempre de Mim, ele ofereceu-me a pastinha que criara para o disco e estava tudo ali, os poemas, a divisão silábica de cada verso, as sílabas que queria ver acentuadas. Um dos papéis era uma espécie de Excel (no sentido de ter colunas e linhas) e uma das colunas intitulava-se Respiração, isto é: se era necessário ouvir a respiração de Camané na canção – e no estúdio vi-o dar voltas e mais voltas até levar Camané a respirar profundamente antes de começar a cantar, como se aquelas palavras estivessem há muito guardadas dentro de si e tivessem agora de sair, como uma inevitabilidade fisiológica.

Essa conversa era suposto ser curta e com um único assunto – mas acabámos por ficar três horas à conversa, falando de tudo, política, as amizades, a forma de arranjar uma canção. JMB lacrimejou quando falou de Fausto a cantar no Canto dos Torna-Viagem e do seu sonho de conseguir voltar a estar em palco com ele e com Sérgio Godinho – no que mais tarde se tornaria o espectáculo Três Cantos.

Não há praticamente uma entrevista em que JMB não seja inquirido sobre o estado do mundo, o significado do comunismo, se se cumpriu o 25 de Abril. E a tudo JMB responde, com uma paciência de santo, que permite criar uma espécie de retrato do que nele se manteve e do que nele se foi alterando – a matriz humanista de esquerda ficou, a proximidade ao PCP não.

E isto tudo serve para dizer que um homem é muitas coisas e algumas delas contraditórias – ele à partida colocava-nos à distância, mas se depois ganhasse confiança não havia tabus. Talvez tenha sido sempre assim: na página 178, numa entrevista a Baptista Bastos, de 1981, afirma que nunca frequentou prostitutas porque foi “sempre moralista na minha juventude (…). Canalizei as minhas energias para outro lado”. Anos depois, o moralista, quando perguntado sobre o qual a sua opinião sobre o adultério, dirá (na página 178) “Para mim, o casamento não é um sacramento. E a fidelidade não é formal. Quando ela é quebrada é sinal de que o corpo e a alma protestam contra alguma mentira”. Ainda está para ser reconhecida a capacidade de JMB de debitar aforismos.

Que imagem é que se retira de JMB neste livro face à imagem que se tem dele? Antes de mais, a imagem que se tem dele depende da pessoa com quem se fala: as pessoas mais velhas que eu, por norma, ou o odeiam (se são de direita) ou o adoram (se são de esquerda). Na minha geração, os melómanos (de direita ou de esquerda) tinham admiração por ele – pela sua inventidade, a sua capacidade de misturar o tradicional com o “contemporâneo” (o disco-sound, o rock) e, sobretudo, pelos seus arranjos. A ideia que tenho é que algumas pessoas das gerações sub-40 o idolatram por FMI, que nós também admirámos, mas sempre considerámos uma exceção.

Um dado impressionante do livro é a percentagem de conversa política: não há praticamente uma entrevista em que JMB não seja inquirido sobre o estado do mundo, o significado do comunismo, se se cumpriu o 25 de Abril. E a tudo JMB responde, com uma paciência de santo, que permite criar uma espécie de retrato do que nele se manteve e do que nele se foi alterando – a matriz humanista de esquerda ficou, a proximidade ao PCP não.

▲ Quase conseguimos imaginar JMB a labutar nas recolhas de Giacometti, a adaptá-las, a pegar em poemas e criar canções e a desenvolver a sua amizade com Sérgio Godinho

Flama/ Torre do Tombo

Tentar resumir as quase 700 páginas do livro é tarefa dura, mas aqui vai: José Mário Branco claramente admirava os pais – mais que o terem educado a ser de esquerda, deram-lhe (diz várias vezes) “valores”. Fiquei impressionado com o número de vezes que JMB, supostamente pouco dado a partilhar pormenores pessoais, conta a história de como o seu, por norma, pacato pai – perante a prisão do filho – se ter deslocado à PIDE para explicar que da próxima vez entrará naquelas instalações de arma na mão e matará quem encontrar, um a um.

O diabinho vem ao de cima quando fala do Partido Comunista. A aproximação ao PCP faz-se, concluo, por inevitabilidade – era o que restava a quem estava contra o regime. Mas JMB retira claramente prazer de contar que quando voltou do exílio estava no mesmo avião de Álvaro Cunhal e outros altos quadros do partido e ele e outros que se haviam afastado resolveram cantar canções que sabiam que iam irritar vários passageiros (a escolha de reportório tinha um significado mais profundo do que o do mero entretenimento, naquela época).

Não é caso único – quem apanhou este homem que raramente dava entrevistas (note-se: estas 700 páginas referem-se a quase 50 anos de atividade pública) e não passava cartão a ninguém, num momento mais solto sabe que ele podia ser mauzinho – por exemplo, dizer que determinado cantor exagerava a prolongar notas, acrescentando “Podíamos até qualificá-lo como parolinho” (isto não está no livro, foi em conversa). No livro, ele distribui, ocasionalmente, uns mimos: a Francisco Fanhais chama “um amador” (não consegui evitar rir), de Ary dos Santos diz que lhe falta profundidade e de qualquer pessoa do PCP diz coisas quase piores do que de capitalistas.

José Mário Branco tinha ideias fascinantes sobre qual o papel da canção (ele não estava claramente do lado de quem vê uma canção como mero entretenimento), sobre as várias fases que atravessou em termos líricos (adaptar canções de amigo, adaptar poetas portugueses, escrever os seus próprios textos, etc), ou como mudou a sua impressão sobre o fado (que em jovem odiava).

A separação face ao PCP deve-se a uma questão de fundo – o partido achava que se devia aproveitar a guerra para converter os soldados ao comunismo ali no meio das trincheiras, algo que JMB não só achava ridículo (coitados dos soldados, já não bastava estarem a levar com tiros em cima, como ainda terem de ser endoutrinados) como impossível em termos práticos. Ele era contra a guerra colonial, contra o colonialismo e é por isso (e pela perseguição da PIDE) que se exila em Paris, sem um tostão no bolso.

Nas entrevistas dos primeiros 15 anos pós-25 de Abril não há uma que não dedique 90% do seu tempo a falar do PCP e do exílio – do trabalho em fábricas, dos espectáculos para os portugueses emigrados em França. É uma parte particularmente bonita porque quase conseguimos imaginar JMB a labutar nas recolhas de Giacometti, a adaptá-las, a pegar em poemas e criar canções e a desenvolver a sua amizade com Sérgio Godinho. Valha a verdade, muito poucas perguntas se demoram na música.

José Mário Branco (1942-2019): professor, amante de música, subversivo, “muito mais vivo do que morto”

E é pena, porque José Mário Branco tinha ideias fascinantes sobre qual o papel da canção (ele não estava claramente do lado de quem vê uma canção como mero entretenimento), sobre as várias fases que atravessou em termos líricos (adaptar canções de amigo, adaptar poetas portugueses, escrever os seus próprios textos, etc), ou como mudou a sua impressão sobre o fado (que em jovem odiava).

Uma das ideias mais interessantes de JMB, que sempre achei pouco explorada (e confirmo a ideia no livro), é de que ele não via os arranjos como simplesmente algo para embelezar a canção – um arranjo, diz, é “sonoplastia”, no sentido teatral do termo: tal como no teatro, há determinados sons que se têm de ouvir em determinados momentos para criar tensão ou realçar uma dinâmica da peça. Para ele, uma canção era uma peça de teatro e todos os sons que se ouviam tinham de servir o sentido última da peça – e esta é uma ideia que ele repetiu incessantemente ao longo das décadas.

▲ Como todos os grandes artistas, José Mário Branco é um misto de obstinação e contradição e este livro reforça todas essas dimensões

D.R.

O teatro sempre foi importante – a sua carreira divide-se entre os seus discos em nome próprio (que são apenas meia-dúzia), a produção para outros (José Afonso e Camané como nomes mais mediáticos) e os seus trabalhos para teatro – o magnífico A Mãe, por exemplo, foi criado para a peça com o mesmo nome, levada à cena pelo Teatro da Comuna, em 1978. A isto acresce o trabalho com o extraordinário GAC (Grupo de Acção Cultural, mais focado na música tradicional portuguesa). Um lado menos explorado era o dos seus espectáculos a solo, que produziam pérolas – FMI, por exemplo, que ele classifica como “um vómito” (no sentido de catarse) nasceu de um desses espectáculos.

Outro dos temas recorrentes destas entrevistas é o afastamento mediático durante a década de 80: JMB achava que a indústria o tinha propositadamente posto de parte, o que é capaz de ser verdade. A nascente indústria, após a explosão da canção de protesto, procurava capitalizar na canção popular, fosse lá isso o que fosse. Se foi a indústria que o afastou ou se foi o artista que fez por não se incluir nela é difícil dizer – mas a forma que teve de resolver os seus problemas foi editar os próprios discos. Lentamente, pelo seu ocasional trabalho a solo e pelo seu trabalho de produção, JMB foi sendo recuperado (também pelas gerações mais novas), mas sejamos honestos: ele não tem um décimo do reconhecimento que merece.

A inquietação de uma vida inteira: 13 canções para recordar José Mário Branco

Como todos os grandes artistas, JMB é um misto de obstinação e contradição: o moralista que não acredita que o casamento seja um sacramento é também o esquerdista que nunca deixou de acreditar que os trabalhadores são explorados, mesmo tendo-se afastado do PCP. E é, também, o tipo que depois de odiar fado se tornou no mais exímio produtor do género, e que partindo da música popular portuguesa a insuflou de rock e de disco-sound e da noção de que uma canção é uma peça de teatro.

É muito possível que José Mário Branco seja a mais importante figura da música popular portuguesa dos últimos 50 anos – se não o for está ali na contenda. Que este livro seja um primeiro passo no sentido de lhe reconhecermos o seu extremo valor musical e, também, uma lupa que amplie a complexa teia de ideologia, dúvida de si mesmo, crença nos seus valores e puro génio que o movia.

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