“A administração da SAD já deliberou e estou aqui para apresentar o senhor José Mourinho como treinador do Sport Lisboa e Benfica. É um treinador que tem tido uma escola muito interessante”, dizia naquele estilo bonacheirão João Vale e Azevedo, presidente dos encarnados que estava a poucos meses de ir a votos naquele que ficou como o ato eleitoral mais concorrido de sempre num clube desportivo português. A relação com Heynckes não era a melhor, as exibições não saíam, a descrença crescente motivou uma troca técnica logo a seguir à quarta jornada. Toni era a opção mais lógica, o líder dos encarnados fintou aquela que era a opinião maioritária entre os seus pares de Direção e apostou em Mourinho. Acima de todos os movimentos que lhe valeram depois a derrota nas urnas com Manuel Vilarinho (e alguns que foram parar à Justiça…), Vale e Azevedo assumia a decisão mais arriscada nos seus três anos de mandato. Ele perdeu. O futebol ganhou.
Ainda assim, a história depois do despedimento de Jupp Heynckes tem muito mais capítulos para contar do que se pensa. Mais: se nos últimos anos o Benfica já tinha tentado algumas aproximações a Mourinho, só em 2001 e 2002 o técnico teve os três “grandes” em marcação cerrada antes e durante a passagem pela União de Leiria. Ganhou o FC Porto, perdeu o Benfica, saiu de jogo o Sporting. Afinal, todos tinham a sua razão, sendo que os astros desalinhados dos encarnados frente ao Qarabag funcionaram como conjugação cósmica para que a história que podia ser mas nunca foi começasse agora a ser reescrita duas décadas depois.
“Tenho um enorme respeito por esta equipa do Benfica. Umas vezes jogando bem, outras vezes jogando mal, umas vezes ganhando, outras vezes perdendo, tenho uma ideia extremamente positiva de um grupo de gente que me parece extremamente profissional e extremamente ambicioso. Se significa que não quero mais jogadores? Significa que as inscrições estão fechadas neste momento e, mesmo que não estivessem, não pediria jogador absolutamente nenhum porque confio no potencial desta gente que é gente jovem, gente com potencial, gente que quer, gente que mostra que quer e gente que merece todo o carinho por parte de todos os associados do Benfica”, apontou na primeira conferência como treinador principal de uma equipa, neste caso o conjunto da Luz, a 20 de setembro de 2000 sentado ao lado de Vale e Azevedo.
“O que nós prometemos é que, logicamente com as nossas limitações de tempo que são normais num momento como este, não nos confrontamos com tudo o que todos os outros treinadores se confrontaram, que foram sete ou oito semanas de preparação até ao primeiro jogo. A nós espera-nos uma semana com três jogos e dois dias para trabalhar mas aquilo que nós prometemos, e quando digo nós é porque se algum dia me esquecer de dizer nós e disser eu é um mero esquecimento porque digo nós por todas as pessoas que vão trabalhar comigo, é que temos como objetivo claro sermos melhores amanhã do que somos hoje”, acrescentou antes do primeiro treino que mostrou bem a diferença de realidades com o passar dos anos, com uma sessão em pleno Estádio da Luz (o antigo), aberto aos sócios e… com corrida logo no início.
Antes, houve uma autêntica rábula até à contratação de Mourinho, que levou Carlos Mozer como adjunto e tinha Álvaro Braga Júnior como diretor do futebol. A temporada de 1999/00 deixou marcas na relação entre João Vale e Azevedo e Heynckes, técnico alemão que ganhara a Taça UEFA pelo B. Mönchengladbach e a Liga dos Campeões pelo Real Madrid em 1998, com o terceiro lugar atrás de Sporting e FC Porto na Liga e a célebre goleada sofrida em Vigo frente ao Celta por 7-0 a deixarem o germânico por um fio. A nova época não trouxe grandes melhorias, com as derrotas frente ao FC Porto e ao Halmstads, a par de um empate com a União de Leiria, a adensarem as dúvidas em torno do futuro. Pierre van Hooijdonk ainda conseguiu dar um triunfo por 2-1 com um bis nos últimos minutos da receção ao Estrela da Amadora mas os adeptos encarnados não perdoavam, despedindo-se da equipa e do técnico com muitos assobios e lenços brancos.
Heynckes estava saturado, sentiu que não era defendido, atirou-se aos jornalistas pela perceção errada que era criada para fora sobre aquilo que era o seu trabalho e o bater de porta era uma questão de tempo. “Assim vou-me embora, não aguento isto”, atirou. Vale e Azevedo viu nisso uma “boleia” para mudar, começando a estudar o sucessor. Seguindo aquela que era a ideia da maioria da Direção, o líder das águias reuniu com Toni, tentou convencer o técnico que tinha sido campeão pelo Benfica (como jogador e como treinador) e ficou à espera de uma resposta. Em paralelo, e neste caso sem que ninguém soubesse, entrou em contacto com José Mourinho, que era adjunto de Louis van Gaal. Vale e Azevedo tinha ficado impressionado com o primeiro contacto que tivera com o antigo membro das equipas técnicas de Bobby Robson no Sporting, no FC Porto e no Barcelona, num tributo que os catalães promoveram em homenagem a Johan Cruyff.
A primeira abordagem feita ao técnico tinha sido ainda em 1999, neste caso para passar a pertencer à equipa técnica de Heynckes. Mourinho recusou. A segunda, mais de um ano depois, trazia outro convite mas para ser o número 1 dos encarnados no banco. Aí, a resposta foi outra. A vontade existia mas, antes, teria de haver conversas com o Barça e com a família. Van Gaal anuiu ao desejo, a mulher Matilde fez até força para que não pensasse duas vezes, o acordo foi fácil de alcançar. O treinador viajou para Portugal, jantou em casa de Vale e Azevedo, fechou todos os pontos do contrato, ficou por definir com os catalães a desvinculação. Jupp Heynckes já tinha entretanto rescindido com as águias mas o presidente tinha um outro problema em mãos: explicar aos companheiros da Direção que o próximo treinador era José Mourinho e não Toni.
▲ Mourinho foi apresentado esta quinta-feira no Seixal por Rui Costa como novo treinador do Benfica
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Entre todos os raides e vaivéns, esse acabou por ser o capítulo que quase fez ruir tudo. Porquê? Alguns dos vice-presidentes e demais órgãos sociais ameaçaram demitir-se perante aquilo que Vale e Azevedo acabara de anunciar. Ninguém queria Mourinho, todos defendiam Toni até numa ótica eleitoral – sendo que o agora vice-presidente da Federação admitiu uns dias depois, em entrevista ao jornal A Bola, que nem teve tempo para pensar e responder a esse convite. O clima estava cada vez mais complicado, Vale e Azevedo decidiu seguir em frente e ir contra a corrente com a ideia de que o sucesso desportivo que Mourinho poderia trazer era o melhor cartão de visita para chegar à reeleição umas semanas depois. Mais tarde, já com tudo mais sereno, acabou por confidenciar aos seus pares que a hipótese Toni foi uma manobra de “distração”.
Havia renitência interna, havia desconfiança externa, os primeiros resultados também não ajudaram. A estreia teve uma derrota no Bessa frente ao Boavista com um golo madrugador de Duda, seguiu-se o empate na Luz com os suecos do Halmstads que ditou a eliminação da Taça UEFA, houve mais uma igualdade para o Campeonato em casa com o Sp. Braga consentida em cima do minuto 90 com golo de Artur Jorge, o agora técnico que foi campeão sul-americano e brasileiro pelo Botafogo. Só mesmo na quarta partida chegou a primeira vitória, também no Estádio da Luz com o Belenenses e pela margem mínima com golo de Carlos Marchena. Mais do que isso, havia sinais de tempos diferentes no Benfica que chegavam aos adeptos.
Alguns dos habituais titulares começaram a ter menos oportunidades, de Karel Poborsky a Sabry, passando pelos centrais Paulo Madeira e Ronaldo, outros começaram a jogar a mais como Diogo Luís (promovido da equipa B pela falta de laterais esquerdos), Fernando Meira, Miguel, Carlitos ou Maniche – e o médio tornou-se um exemplo paradigmático daquilo que Mourinho podia ser como treinador, do castigo que deu por não gostar de ver a forma como não acatou a decisão do técnico em ficar a correr à volta do relvado enquanto a equipa A fazia um jogo treino com a formação secundária à forma como voltou a aceitar o internacional e o colocou mais tarde, no FC Porto, com um dos melhores médios na Europa. Até o capitão mudou, com Calado a ficar mesmo sem braçadeira. Os resultados, com apenas duas vitórias em sete jogos, não ajudavam. As conferências, sem papas na língua e receio de ir ao choque a bem da equipa, criavam empatia.
Outro exemplo foi a forma como Mourinho, numa conferência de imprensa, “respondeu” a Sabry depois das críticas que o egípcio fez em termos públicos ao treinador. “Diz que não joga, em sete jogos foi titular em quatro e suplente em três. Não é fácil um treinador gostar de um jogador que tem uma média de foras de jogo absurda por jogo, que não sabe que quando a bola está no adversário do outro lado ele tem de fechar o espaço interior e não ficar aberto, que não sabe o que é relação posicional e ocupação do espaço, que quando lhe mostram os dentes foge, que ao intervalo quando sou mais agressivo vai fazer queixas ao secretário técnico… Depois diz que nunca falou comigo. Tenho um livro onde aponto todas as reuniões com jogadores, os locais, as datas, os motivos e as reações. Com o Sabry tive sete reuniões individualizadas, dessas três foram nos últimos quatro dias… De todos os jogos, só jogou 20 minutos num, em Paços de Ferreira, onde esteve oito minutos a preparar as botas e as caneleiras”, atirou. Os sócios e adeptos ficaram do “seu” lado.
Quando se podia pensar que esse tipo de discurso iria perturbar o balneário, o Benfica conseguiu a melhor fase da época (e da era Mourinho) a partir daí. Por um lado, era mais uma equipa. Por outro, conseguiu ser mais fiável no plano defensivo. Por fim, jogava e marcava. Ganhou ao Farense (2-1), ao V. Guimarães (4-0), ao Campomaiorense (1-0), ao Sporting (3-0). Nessa altura, Manuel Vilarinho tinha contrariado por completo todas as sondagens dos jornais desportivos e batera João Vale e Azevedo nas eleições com 60%, ficando no ar essa promessa eleitoral do novo líder em fazer regressar à Luz o técnico Toni. Cansado desse “fantasma”, e numa fase em que estava em alta no Benfica, José Mourinho tentou forçar a “barra” para ganhar uma legitimidade acrescida enquanto treinador, explicando a Vilarinho que tinha propostas e que pretendia renovar contrato para ter estabilidade para prosseguir o projeto. Não aconteceu, saiu mesmo.
Hoje, as duas partes admitem que teriam posições diferentes – ou seja, Mourinho não teria feito as coisas como fez, pedindo a renovação de contrato ou uma saída imediata, assim como Vilarinho teria mantido o treinador que conseguira bons resultados a partir do momento em que consolidou uma ideia de jogo. Aí, estávamos em dezembro. No início da temporada seguinte, em 2001/02, assinou pela União de Leiria. Nesse ano, tudo poderia ter acontecido. O técnico iria para o FC Porto, podia ter seguido para Sporting ou Benfica.
▲ Mourinho, que entrou no Benfica com Mozer como adjunto, deixou a Luz três meses depois na sequência de uma vitória no dérbi com o Sporting
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A possibilidade de rumar a Alvalade surgiu logo em dezembro de 2020, quando Augusto Inácio acabou por não resistir à derrota no dérbi e acabou por ser dispensado. Nessa altura, e perante essa hipótese de saída, os dirigentes verde e brancos contactaram Mourinho, que se mostrou aberto a trocar para o outro lado do rival perante o projeto de uma equipa que tinha sido campeã uns meses antes. Problema? Quando já se falava na imprensa nessa possibilidade, alguns adeptos do Sporting, daqueles que passavam grande parte do dia em Alvalade e assistiam a todos os treinos abertos, invadiram a sala de conferência de imprensa para confrontar Luís Duque, presidente da SAD verde e branca, dizendo que Mourinho, pela forma como tinha festejado os golos e a vitória na Luz frente aos leões, não poderia entrar em Alvalade. Houve um recuo, não entrou.
Seguiu-se o início de campanha na União de Leiria, a colocação do conjunto da cidade do Lis no top 4 da Liga e mais interesse de clubes grandes. Aí, a luta foi entre FC Porto e Benfica. Em janeiro de 2002, Mourinho foi “fechado” pelos dragões de Pinto da Costa, que preparava a saída de Octávio Machado perante os resultados aquém das expetativas. Por essa altura, o Benfica soube que os dragões se tinham adiantado e tentou de tudo para desviar o técnico de novo para a Luz, com José Veiga a procurar o treinador por um lado e Carlos Janela a deslocar-se em Setúbal por outro. Os encarnados estavam dispostos a ultrapassar tudo o que tinha sido oferecido pelos azuis e brancos mas chegaram demasiado tarde, tendo em conta que Mourinho estava em Espanha incontactável à espera que Octávio fosse dispensado para depois rumar às Antas. Mais de duas décadas depois, quando estava também em Espanha, Mourinho estava contactável e voltou mesmo à Luz, numa incursão que já tinha sido tentada antes por Luís Filipe Vieira e ponderada por Rui Costa sem sucesso.