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Stephen Graham (à esquerda) é um dos argumentistas da série e interpreta o pai ("Eddie") de Jamie, à direita (papel desempenhado pelo estreante Owen Cooper)
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Stephen Graham (à esquerda) é um dos argumentistas da série e interpreta o pai ("Eddie") de Jamie, à direita (papel desempenhado pelo estreante Owen Cooper)

Courtesy of Netflix

Stephen Graham (à esquerda) é um dos argumentistas da série e interpreta o pai ("Eddie") de Jamie, à direita (papel desempenhado pelo estreante Owen Cooper)

Courtesy of Netflix

"Adolescência": uma tragédia familiar devastadora em quatro episódios

A nova minissérie na Netflix retrata uma família destroçada por um crime. E é também um caso sério de como um drama avassalador pode ser tratado com dolorosa subtileza.

Lembrete para a Susana do futuro: aplicar a regra da ingestão de álcool ao visionamento de séries dramáticas. “Não começarás antes do meio dia.” Depois de uns dias a trabalhar fora de casa e a apanhar com a ocasional chuva nas trombas, acordei com ganas deste trabalho-lazer que é ver coisas e escrever sobre elas. Vai daí, carreguei no “play” para ver Adolescência pelas dez e meia da manhã. Resultado: ainda mal tinha começado a digestão do galão e da torrada, já estava a levar um soco no estômago.

Passadas meia dúzia de horas, aqui estou sentada à secretária, a digerir a pescada cozida com legumes do almoço (prato que comi, não por estar com uma gastroenterite, mas porque gosto genuinamente. sou excêntrica, eu sei) e esta minissérie que, em apenas quatro episódios, me atropelou com a força de um TGV. Daqueles que hão-de ligar Lisboa a Madrid e revolucionar a relação entre as capitais, pelo menos é o que ando a ouvir para aí desde os 13 anos. Quem também tem 13 anos é o adolescente Jamie Miller que justifica o título da série, interpretado pelo estreante Owen Cooper. Gostaram desta ponte à radialista? Mais um tijolinho na minha yellow brick road rumo à RFM. Estou a brincar, zero hipótese desta menina e uma manhã da rádio darem match. Até porque, como o próprio nome indica, é gravado de manhã e eu tenho intolerância a pessoas até ao meio-dia. Não gozem que é uma condição, tenho um atestado médico. Quer dizer, não tenho, mas isso arranja-se.

Chega de graças, porque vou mergulhar convosco em Adolescência, disponível desde 14 de março na Netflix. Porque não só o tema é sério, como Adolescência é um caso sério de como uma tragédia avassaladora pode ser tratada com subtileza e como isso não só não lhe tira força, como a torna ainda mais devastadora.

[o trailer de “Adolescência”:]

O primeiro episódio começa com um pai a ouvir um áudio do filho adolescente “Bom dia, pai. Dói-me a barriga outra vez. Posso faltar à escola?”. Esse pai é polícia, o inspetor Bascombe (Ashley Walters de Top Boy, que não vi, mas de que ouvi boas críticas). Partilha com a parceira Franck (Faye Marsay que na 5ª e 6ª temporada de Guerra dos Tronos passava a vida a dar com um pau na Arya) que o filho só lhe manda mensagens a ele e não à mãe, porque ele é o “good cop” da parentalidade. Esta do “good cop” não é dita por ele, fui eu que acrescentei “pun intended”. Bascombe partilha também que está a deixar de fumar e, por sugestão da mulher, está a substituir os cigarros por maçãs, o que lhe causa algum refluxo e procede a arrotar, o que deixa a parceira bastante agoniada. E depois deste início  corriqueiro e leve, a dupla arromba a porta de uma casa de família, em conjunto com uma brigada de intervenção armada até aos dentes, para deter Jamie por suspeita de homicídio.

Jamie, um inglesinho pálido e franzino, com ar de que só deixou de usar sapatos de velcro e aprendeu a atar os atacadores a semana passada, está aterrorizado e urina-se pijama abaixo. Tudo isto por volta das seis da manhã. Os pais e a irmã mais velha, também ela adolescente, num misto de medo, confusão e descrença naquilo que lhes estás a acontecer, agarram-se ao salva-vidas do equívoco: enganaram-se na pessoa, só pode. O adolescente é levado para a esquadra, onde acompanhamos o passo a passo do procedimento rotineiro para quem tem a farda vestida e aterrorizador para o acusado e para o seu pai. Processo que vai culminar na detenção de Jamie, acusado de ter esfaqueado Kate, uma colega de escola. Acusação que ele nega, apesar de a polícia ter provas irrefutáveis. Só lhe falta a arma do crime e, acima de tudo, o motivo. Porque é que Jamie, com o seu ar virginal, insuspeito e inofensivo esfaqueou Kate e foi para casa dormir?

Enquanto que no primeiro episódio, o pai Eddie afirmou de forma dogmática “Ele é um bom miúdo e eu sou um bom pai.”, passados 13 meses e com julgamento à porta, o mesmo homem pergunta à mulher e mãe dos filhos (Christine Tremarco, que não conhecia. Mais uma que entrega um papel do caraças): “Será que o herdou de mim?”.

E antes de prosseguir, há duas coisas que precisam de saber. A primeira é: o que descrevi até agora não é o enredo mais inovador de sempre. É a forma crua como o caso é tratado que esbofeteia o espectador. E isto não é spoiler, é gestão de expectativas. A segunda: esta minissérie é um portento de realização. Philip Barantini (Boiling Point, Enola Holmes) filmou os episódios em plano-sequência real, sem cortes ocultos. Cada episódio é um take único, executado de forma exemplar, que sublinha a angústia latente. Não é masturbação artística, é a forma a servir o conteúdo. E é difícil como o raio de fazer. Fun fact: eles gravaram cada episódio 10 vezes e depois escolheram o melhor. E que bem que escolheram.

O primeiro episódio dá-nos a premissa da história e retrata algo que parece dantesco como mais uma terça-feira na esquadra. Jamie vai passando pelas burocracias e procedimentos entre a estupefação e o medo. E o pai Eddie, que o acompanha no processo, junta a isso uma camada de impotência avassaladora. No momento em que Jamie é sujeito à revista corporal, apesar dos protestos. o plano está na cara de Eddie e a dor é palpável. Os músculos da cara tremem, o peito arfa, o olhar desesperado leva-nos ao abismo do desconforto e, obviamente, isto só é possível graças a uma interpretação magistral de Stephen Graham (Snatch, This is England, Peaky Blinders, Boiling Point, Mil Golpes), que também dividiu a escrita com Jack Thorne (Wonder, Enola Holmes).

Os autores fugiram com sucesso aos estereótipos cansados do abusador que foi abusado, do trauma decorrente da pobreza, do criminoso produto de um lar disfuncional

Courtesy of Netflix

O segundo episódio centra-se na investigação, o que nos leva à escola do acusado e da vítima. Nas paredes estão cartazes com frases bonitas como “You are a rainbow of possibility” ou “Liberté, Egalité, Fraternité”, mas o diretor da escola lida com o facto de ter na sua alçada um homicida e uma aluna morta como mais uma dificuldade administrativa. A dada altura, o inspetor pergunta a um professor se Jamie era infeliz e ele responde-lhe: “Sou apenas um educador. Ensino História. Ele não é meu paciente”. O sítio onde adolescentes se deveriam estar a preparar para o futuro que tantas possibilidades lhes oferece é, aqui, o lugar mais desesperançado do mundo. Segundo o inspetor “parece um curral”. Acrescento apenas que o final deste episódio, onde se ouve uma versão de Fragile de Sting, cantada por um coro infantil, é das coisas mais bonitas e mais tristes que vi nos últimos tempos e mais umas palminhas para o realizador por isso.

O terceiro episódio passa-se 7 meses após a morte e é um duelo entre Jamie e a nervosa, mas empenhada, psicóloga que lhe vai fazer uma avaliação. São 50 minutos, dos quais cerca de 45 se passam numa sala onde estão apenas os dois. A psicóloga é interpretada por Erin Doherty, a princesa Anna em The Crown —  que eu nunca vi, não me insultem. Como referido anteriormente, ‘tou nem aí para famílias reais no geral, a inglesa em particular. Dito isto, os protagonistas deste episódio merecem uma vénia das grandes. E não podemos esquecer que o ator que faz de Jamie não só tinha apenas 14 anos à data, como este é o primeiro papel da vida dele. Houve momentos em que ele me assustou mais que o Hannibal Lecter em frente à tremelicante Clarice. E sejamos honestos: ele não tem cara para levar um estalo.

Cada episódio é um take único, executado de forma exemplar, que sublinha a angústia latente. Não é masturbação artística, é a forma a servir o conteúdo. E é difícil como o raio de fazer. Fun fact: eles gravaram cada episódio 10 vezes e depois escolheram o melhor. E que bem que escolheram.

No último episódio, do qual ainda me estou a refazer, testemunhamos o lado da família de Jamie e não da vítima, como é mais recorrente. Como é que um acontecimentos destes violenta a estrutura familiar de alguém? Como é que um pai e uma mãe sobrevivem a isto, lidam com isto, como é que se adaptam a isto. Enquanto que no primeiro episódio, o pai Eddie afirmou de forma dogmática “Ele é um bom miúdo e eu sou um bom pai.”, passados 13 meses e com julgamento à porta, o mesmo homem pergunta à mulher e mãe dos filhos (Christine Tremarco, que não conhecia. Mais uma que entrega um papel do caraças): “Será que o herdou de mim?”.

Além do julgamento de terceiros, que olham para o restante agregado familiar como criminosos por osmose, há a culpa auto-infligida. Eddie está preso por arames, Manda empurra para o lado a própria dor, assumindo o papel de cuidadora de um marido destroçado, como a boa e velha sociedade patriarcal nos ensina e espera de nós. Numa cena que me vai ficar na memória, o casal faz uma revisão da matéria dada em que vão saltando entre memórias felizes, atos de contrição pelos erros, uma troca de garantias de que foram bons pais e a dolorosa impossibilidade de não poder voltar atrás. Em simultâneo, tentam fingir normalidade para proteger a filha, Lisa, (a também estreante Amelie Pease), a quem já basta ter “perdido” o irmão. Por isso, Lisa faz o que pode para manter os pais à tona de água. A certa altura, Eddie diz à mulher “Como é que a fizemos?”, que lhe responde, serena: “Da mesma forma que o fizemos a ele”.  Se isto não vos partir o coração, é coisa para marcar consulta com o cardiologista.

Os pormenores da série pintam um fresco — bastante negro no geral, embora cheio de nuances e rendilhado de pormenores — daquilo que será a adolescência naquele ambiente, naquele país

Courtesy of Netflix

Os autores fugiram com sucesso aos estereótipos cansados do abusador que foi abusado, do trauma decorrente da pobreza, do criminoso produto de um lar disfuncional. É um excelente trabalho por este e outros motivos. As personagens estão soberanamente construídas, todas com um propósito, dos mais protagonistas aos mais secundários ou quase figurantes, como é o caso de um puto irritante com um péssimo corte de cabelo da turma de Jamie, que terá apenas meia dúzia de falas. Numa cena em que o inspetor Bascombe vai à sala de aula e informa a turma que uma colega foi assassinada, o tal puto responde “Têm o vídeo?” e dá uma gargalhada, enquanto se exibe à turma. Quando o mesmo inspetor pede à melhor amiga de Katie para lhe falar sobre ela, a adolescente responde-lhe “Tem um filho na escola? Pode falar-me sobre ele?”. E o olhar denuncia a distância do filho e o pouco que o pai teria para dizer.

Pormenores como estes pintam um fresco — bastante negro no geral, embora cheio de nuances e rendilhado de pormenores — daquilo que será a adolescência naquele ambiente, naquele país, que gera situações como as que são retratadas. E chego ao fim desta maratona de lambadas emocionais a dar graças ao Universo dos meus filhos terem ultrapassado a adolescência com sucesso e de eu não ter estragado tudo no processo. Aliás, fica aqui a dica: não querem ter filhos e os vossos familiares não vos largam da mão? Ponham-nos a ver isto. Quase que aposto que vai devolver serenidade aos vossos almoços de domingo.

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