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Alain Pérez LAV Bingo!
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▲Acompanhado por uma orquestra de "muchachos", Alain Pérez divulga o mais recente álbum, "Bingo", "um disco de confirmação, onde encontrei maturidade, a minha cor e continuei a aperfeiçoar o traço, como numa pintura", admite

▲Acompanhado por uma orquestra de "muchachos", Alain Pérez divulga o mais recente álbum, "Bingo", "um disco de confirmação, onde encontrei maturidade, a minha cor e continuei a aperfeiçoar o traço, como numa pintura", admite

Alain Pérez: "Dizem que a juventude não liga às raízes, mas o Bad Bunny faz um álbum com os ritmos da sua terra e é um deus"

Cresceu e fez-se músico na ilha, partilhou o palco com Paco de Lucía e é hoje uma referência. Entrevistámo-lo antes da estreia a solo em Lisboa. Sexta-feira, dia 17 de julho, a "Fiesta" é garantida.

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A carreira musical de Alain Pérez começou na voz de um grupo de música popular cubana, que percorria a ilha no mar das Caraíbas de um extremo ao outro. Tinha apenas nove anos quando integrou os Cielito Lindo, mas o ritmo já lhe corria no sangue. Em Cuba, os corações batem ao som da parranda, do punto guajiro, do bolero, da guaracha, da timba, do son, do guagancón e da rumba — foi à boleia deles que Pérez conheceu outras latitudes, onde climas temperados e pessoas menos cálidas coexistem com o fado, o flamenco ou o jazz.

Entre as colaborações com músicos europeus destaca-se o participação de dez anos na banda de Paco de Lucía, “rei do flamenco”, que combinava virtuosismo com o sentimento despojado daqueles que cantam e bailam nas ruas. A seu lado, Alain aprofundou o amor pelas cordas do baixo e amadureceu um estilo que depois explorou a solo, sempre com um pé em Madrid e outro em Havana. Outras referências absolutas partilharam o palco com o intérprete, maestro e compositor, como Celia Cruz, Omara Portuondo ou Estrella Morente.

Bingo (2025) é um grito de sucesso, um dardo que cai em cheio no alvo e no goto da crítica. O álbum mais recente do músico demonstra uma ligação rara com a terra onde nasceu e com a banda que o acompanha na atual digressão pelo mundo — a La Fiesta Tour. O artista regressou a Cuba em 2014, onde vive desde então, apesar dos cortes de abastecimento que se intensificaram no país com os embargos e as sanções mais recentes, aplicadas pelos EUA.

“Assim não dá”, admite, com os olhos toldados de preocupação. É a partir de Espanha que conversa com o Observador, enquadrado pela objetiva da câmara frontal. Apesar disso, enquanto os instrumentos e a voz soarem em Cuba, admite ficar no país. Afinal, “a luz da música” orienta todos os gestos de Alain, tanto quanto a religião, a família ou os amigos. O músico tem corrido o mundo e a próxima paragem é Portugal: Alain Pérez y La Orquestra estreiam no LAV — Lisboa ao Vivo já esta sexta-feira, dia 17 de julho.

O lugar da música em Cuba, é um cliché? Ou é uma realidade?
É um país de música. Qualquer coisa é um pretexto para fazer uma festa, para ouvir música, para dançar, para cantar. Cresci rodeado de música, de tal modo que em minha casa, na vila de Manaca-Iznaga [centro-sul do país], os tempos livres eram passados de volta dos instrumentos. A parranda estava presente, o son, o punto guajiro, os trovadores… Essa era a tradição, o legado que recebi dos meus pais e avós. A dada altura, o meu pai, Gradelio Pérez, deu-se conta da minha inclinação e talento para a música e incentivou-me a entrar na escola da Casa da Cultura de Trinidad. Aos nove anos, juntei-me ao grupo Cielito Lindo. E assim começou a minha carreira.

Nessa altura saiu da casa dos seus pais?
Sim. Depois de fazer audições, fui admitido como cantor do grupo, que andava em digressão pela ilha e tocava em festivais, carnavais e eventos de bandas infantis. Não fazíamos música para crianças, mas canções cubanas para dançar e, por isso, desde os nove anos que estou fora de casa e trabalho na indústria. Enquanto os meus pais estavam em casa, eu subia ao palco e andava de autocarro pelo país.

Quem era o adulto responsável pela sua educação?
Durante esse período, fiquei a viver em casa do diretor do grupo, Enrique Pérez. Não vivia na casa dos meus pais, os ensaios e a escola eram noutra província do país. Como se o meu pai tivesse ficado em Madrid e eu tivesse ido para Granada cantar.

Como ficou a conhecer a banda e os respetivos membros?
O grupo já existia e estavam à procura de um vocalista. Tinham um diretor musical, um adulto que era músico profissional e responsável por todos os miúdos. Era o tal Enrique Pérez — que descanse em paz. Em Cuba, nessa altura, existiam muitos grupos infantis deste género, era uma moda, e os Cielito Lindo — originários da província de Cienfuegos — eram um dos que mais se destacava. Estavam à procura de um cantor, fizeram audições e encontraram-me. A partir daí mudei-me para a casa de Enrique Pérez e deixei de viver com os meus pais.

Alain Pérez LAV Bingo!

▲ Alain Pérez: "Cresci rodeado de música, de tal modo que em minha casa os tempos livres eram passados de volta dos instrumentos."

Durante a sua formação, estudou na Escola Nacional de Artes, em Havana.
Sim. O tempo no grupo distribuía-se entre os concertos e aulas no conservatório de Cienfuegos. Depois, preparei-me para entrar na Escola Nacional de Arte (ENA), onde fiz o ensino secundário.

O que é que a experiência de ser artista em criança influenciou a sua carreira musical?
É uma experiência marcante para o resto da vida, porque começar a viver como um profissional e como um homem ainda em miúdo traz responsabilidades, horários de ensaio, viagens, e a autonomia necessária a quem vive fora de casa dos pais. Fica sempre um vazio, porque não se passou tanto tempo com a família como se gostava, mas, ao mesmo tempo, eu estava a caminho dos meus sonhos, da música.

Já falou muitas vezes do binómio rua e escola (“calle” e “escuela”), como os principais fatores que influenciaram o seu estilo musical. Entre a cultura urbana e a aprendizagem adquirida num meio institucional, qual é a mais importante?
Creio que a escola dá a disciplina, a técnica, a teoria necessária para ler música e compreender a sua história. A música clássica é muito importante para a formação, independentemente do instrumento, porque tocar um repertório clássico exige uma técnica muito elevada. Mas, ao mesmo tempo, a rua é o que dá o sabor, a voz, a energia e o sentimento contido na nossa música [cubana] e naquela que eu faço. A minha música vem da rua, não vem da escola, mas a escola dá a formação para elevar os sons tradicionais a outro nível e poder interpretá-los com maior qualidade, afinação e cuidado no som. Por isso é que eu falo da rua e da escola, são equivalentes ao binómio coração e cabeça. A rua é o coração, a escola a cabeça.

Formar as novas gerações é uma prioridade, já o disse várias vezes. Qual é a abordagem que adota quando ensina? Procura incorporar as duas vertentes, o coração e a cabeça, na educação que oferece a novos músicos?
Por muitos sentimentos e por muita cultura urbana, isso não chega para tocar bem. Com os músicos da minha orquestra, por exemplo, tento sempre manter esse equilíbrio — como quando tocava com o Paco de Lucía, que exigia um nível de interpretação muito elevado, mas ao mesmo tempo primava pelo sentimento da rua. Essa linguagem é a maneira que tenho de fazer música, é a que têm os grandes: a música é inspirada pelos sons da rua desde Johann Sebastian Bach, Mozart, Beethoven, etc. Existia na rua e eles elevaram-na para outro patamar. É possível tocar música tradicional muito bonita, mas para elevá-la importa ter a disciplina que se aprende na escola.

"A música clássica ajuda muito à formação dos músicos, porque tocar um repertório clássico exige uma técnica muito elevada. Mas, ao mesmo tempo, a rua é o que dá o sabor, a voz, a energia e o sentimento contido na nossa música [cubana] e naquela que eu faço. A minha música vem da rua, não vem da escola, mas a escola forma-te para elevares os sons tradicionais a outro nível."

Primeiro aprendeu a tocar guitarra clássica, mas depois profissionalizou-se no baixo. Como é que isso aconteceu?
A guitarra é como a mãe do baixo elétrico — a guitarra tem um baixo —, pelo que a técnica é semelhante. Por exemplo, no flamenco, reproduzi o que já fazia na guitarra e isso ajudou-me muito na transição entre instrumentos.

E qual dos dois é o seu favorito?
Para acompanhar canções, a guitarra oferece uma amplitude muito maior, mas o baixo é o instrumento principal para mim — além da voz.

Em que circunstância começou a tocar baixo?
Comecei com Isaac Delgado.

Com quem tem uma faixa no álbum mais recente, além de um disco de música tradicional.
Já colaborei várias vezes com ele, como produtor e arranjador — temos um trabalho de muitos discos. Há muito tempo que faço música com o Isaac e, quase sempre, ele chama-me para produzir as suas faixas. É um trabalho que adoro, sempre uma inspiração e oportunidade para crescer na indústria.

Mas como foi a vossa primeira colaboração, essa em que começou a tocar baixo?
Ainda estudava nessa altura, não tinha concluído o ensino secundário. Estava no terceiro ano da ENA, e o Isaac chamou-me para tocar baixo na sua banda. Essa foi a nossa primeira colaboração, a primeira oportunidade que tive para me converter num baixista profissional. Começo com o Isaac em 1995 ou 96.

Ele já tinha uma carreira sólida, era um artista consagrado, com um êxito nacional e internacional tremendo. Foi um grande passo para mim, porque já tinha acompanhado os Irakere e o Chucho Valdés a solo antes, como cantor, mas aí dou o salto para o lugar do baixista — e nunca mais me separei do instrumento. Trabalhei com o Isaac e fiz digressões e concertos pelo mundo fora durante quatro anos, na banda. Depois fiquei com ele como diretor musical e também produtor de muitos discos. Temos uma história, sem dúvida. Sem contar que o Isaac é meu cunhado, sou casado com a irmã dele. Já há 30 anos.

E porque é que foi viver para Espanha?
Também foi culpa do Isaac. No ano de 1998, a editora dele, que se chamava RMM — Ritmo Mundo Musical —, fez uma estratégia de marketing dirigida ao público europeu e incentivou o Isaac a vir para Espanha. Eu acompanhei-o como baixista e ficámos cá a gravar o disco e a fazer digressão. Quando ele regressou a Cuba, decidi ficar em Espanha para começar a minha carreira a solo.

Viver na Europa foi emancipatório — tendo em conta o totalitarismo e inflexibilidade do regime que imperava em Cuba — ou sentiu a mudança como uma obrigação?
Nunca faço nada obrigado, nada. A música é a minha vida, o meu caminho. Vim a Espanha para fazer música, não com o objetivo de emigrar. Quando o Isaac me aproximou da editora, que me propôs um contrato para produzir e começar a minha carreira a solo, decidi ficar em Espanha, mas a minha cabeça nunca saiu de Cuba. Nunca saio completamente de lá. A música é o meu guia, assim como me trouxe para Espanha, levou-me de volta para Cuba. Fui atrás dela.

Mas viver na Europa proporcionou um choque de realidades?
Mudou a minha forma de conviver e de me integrar na sociedade. Obviamente há uma diferença entre o ritmo de vida dos cubanos e o dos europeus. Os latinos e caribenhos são mais abertos, mais próximos e sociais. Carinhosos, pegajosos até. Mas adaptei-me, fui-me adaptando gradualmente. Agora, a Europa e Espanha são mais “latinas”, muito mais cosmopolitas do que em 1998, 2000, em que a sociedade estava mais fechada. Mudaram muito, toleram uma maior mestiçagem e mistura, apesar de continuar a haver uma rejeição em relação a certas etnias, raças e cores. Senti isso desde que cheguei, mas agradeço a Espanha, e acho que mais de metade daquilo que sou o devo ao país — e a Cuba, claro.

"'Bingo' é um disco de confirmação, um disco onde encontrei maturidade, a minha cor e continuei a aperfeiçoar o traço, como numa pintura. [...] Fui mais cuidadoso em todos os aspetos e recebi o devido reconhecimento: nos Grammys latinos e americanos, mas também em Cuba, onde o álbum venceu um Cubadisco."

Sentiu-se desadequado na Europa e apreensivo diante das notícias que chegavam de Cuba?
Sempre tive saudades, sempre. Ninguém pode dizer o contrário. Há muita gente que sai de Cuba e esquece, mas, no meu caso, a minha essência está sempre enraizada naquela terra, no meu povo. Sempre que estou fora, inclusive agora que estamos em tour, Cuba continua a preocupar-me. Anseio estar com a minha família, acordar na minha casa, cumprimentar os meus amigos. Sentimos sempre falta de como as coisas eram. Negar isso, seria mentira.

E por isso regressou ao país?
Não, regressei pela música. Como disse, é o meu guia, o meu farol. Sempre. Olho sempre para a luz da música para me orientar, é ela que dita o meu destino. Oscilo entre Deus e a música, a família e a música, os amigos e a música. O trabalho é a minha música. Regressei a Cuba porque senti que era o lugar e o momento adequado para continuar a produzir o som que queria nesse momento. E regressei um ano depois da morte de Paco de Lucía, com quem estava a tocar na época. Ele morreu em 2014 e eu estava a gravar um disco e pensei, “vou me embora, vou levar a música de volta à minha terra, à minha gente”. E por causa desse disco, conectei-me outra vez com os meus compatriotas, com o público e os sons locais. A música voltou a tocar no seu habitat natural, música cubana em Cuba. A música cubana no mundo nunca foi, pela experiência que tive, recebida e apoiada a cem por cento, e por isso, regressei à minha terra.

Alain Pérez LAV Bingo!

▲ Alain Pérez: "A Orquestra não é mais um grupo constituído na Europa, foi também por esse motivo que regressei ao país, porque queria ter a minha banda, com a minha gente [de Cuba]"

JAIME MASSIEU

Durante quanto tempo foi baixista do Paco de Lucía?
Dez anos, até à sua morte.

O que aprendeu com ele?
O Paco praticava a honestidade e o sentimento puro, mas simultaneamente elevava a música como ninguém a nível intelectual e técnico. No fundo, é aquilo que dizíamos sobre a escola e a rua — o Paco tinha isso. Era um princípio que defendia constantemente: tocava com os músicos mais reconhecidos do mundo, mas tinha traços de artista popular. Para mim, transformou-se numa escola, numa forma de vida e voz interna que me ensina a fazer música honesta e tocar afinado, com imaginação e ritmo.

Quando é que foi convidado para pertencer à banda de Paco?
Estava a tocar com o cantor Enrique Morente, que me apresentou ao Paco num festival em Palma de Maiorca. Foi a primeira vez que conheci o Paco em pessoa. Ele estava ali a ver o nosso concerto, a ouvir-nos, e nessa noite falei com ele. Uns meses depois, chamou-me para gravar o seu disco Cositas Buenas, que saiu em 2004.

No dia em que fui gravar, aproximámo-nos muito. Ele gostava que existisse um músico cubano no grupo, apreciava o facto de eu ter a minha raíz, o meu som e a minha rumba. Como criámos uma conexão forte, convidou-me para tocar com a sua banda. Deu-me a oportunidade do século. Nessa altura eu já conhecia o flamenco, estava apaixonado pelo género, e ser contactado pelo “rei” foi uma confirmação muito importante do meu valor. Trabalhar com uma lenda viva, um guitarrista de topo a nível mundial, nesse momento só pensava: “É incrível tudo o que me está a acontecer graças à música.”

Suponho que deu a volta ao mundo ao lado de Paco e dos seus músicos.
Todos os anos viajávamos. Digressões pelos Estados Unidos, América Latina, pela Europa inteira, até ao Japão fomos. Eram temporadas muito exigentes. Às vezes, para ser músico profissional é preciso ter a mentalidade de um atleta de alto desempenho.

Estiveram em Portugal.
Sim, claro.

E agora regressa sozinho.
É a primeira vez que visito o país em nome próprio.

De que forma é que o flamenco mudou a sua música? O novo álbum, por exemplo, foi influenciado por esse género musical?
Sinto agora, mais do que nunca, a influência do flamenco. O meu estilo foi absorvendo os sentimentos predominantes na minha vida, mas também a música que ouvi e toquei ao longo do tempo. E claro, os meus discos (como Bingo ou El Cuento de la Buena Pipa, de 2020) foram enriquecidos pelo flamenco, por esse detalhe ou aroma melódico, harmónico e rítmico.

"Nascer em Cuba e ser cubano é o aspeto mais importante da minha vida, porque nasci nesta terra cheia de história e num contexto familiar humilde. Essa é a minha essência, aquilo que fez de mim o homem que sou, mas também o músico."

Conhece o fado?
Sim, e adoro. A forma e sentimento que tem é algo que me move a alma. É a voz de um povo, um sentimento muito puro e bonito.

A música cubana também tem uma melancolia latente, apesar de menos explícita…
Sim. Temos o bolero, que é triste. A guaracha, o son e a timba são para dançar e têm um espírito mais alegre. Mas apesar de dançáveis, há muitas canções tristes — como acontece às vezes no flamenco. Há canções feitas para dançar mas cujas letras são um desalento. E isso é bonito, porque às vezes também se baila por tristeza. No guagancó, por exemplo, ou na rumba cubana, também se dança a tristeza.

Toca música tradicional cubana num mundo dominado pela pop. É um desafio?
Em certa medida. Dizem que a juventude não liga às raízes, que está a esquecer as origens e a identidade, mas o Bad Bunny faz um álbum com o ritmo da sua terra e toda a gente fica impressionada, é um deus, dizem. A juventude está a esquecer os seus antepassados, a família? De onde vêm? É algo que exige um trabalho social e cultural intensivo, para manter a identidade. A música dita moderna ou a eletrónica podem seguir muitos caminhis. Mas também pode ser feita com inteligência artificial. Com isso, perde-se o sentimento.

E porquê? Porquê essas preferências de que fala?
É música fast-food, mais fácil de digerir e superficial. Há uma tendência para isso, para andar rápido pela vida e vazio. Sem tempo para pensar, para nos sentarmos e ouvirmos, meditarmos… Mas eu sinto que vai sempre haver um espaço para as pessoas que querem escapar ao ruído, às coisas superficiais e tóxicas que povoam este mundo.

Mas fazê-lo é um ato de resistência, não?
Sim, não é fácil.

Como se encontra esse espaço de reflexão no meio de tantos estímulos?
A velocidade da vida é muito acentuada, hoje vive-se em contra-relógio. A música rápida e banal é sedutora para pessoas neste estado de agitação. Nem todos temos a capacidade de evasão — que permite afastarmo-nos do grupo e salvaguardar a nossa paz enquanto ouvimos fado ou um bolero. Ou pop bom, rock bom, flamenco bom. E nós, artistas, músicos, criadores, produtores, cantores, intérpretes, temos a obrigação de continuar a fazer este trabalho de purificação e limpeza constante para que a música não desapareça.

Alain Pérez LAV Bingo!

▲ Alain Pérez: "Desde os nove anos que faço música e, neste momento, sinto a responsabilidade de continuar a levar a música cubana ao mundo, de coração, com uma entrega sincera e transparente."

Onde entra a inteligência artificial nesta equação?
Não a uso, estudei. Estou eternamente à procura da música, em Deus, na terra, nos meus antepassados — não na inteligência artificial [IA].

Mas como vê o futuro da indústria agora que estas ferramentas existem?
Há gente que trabalha só com esta tecnologia. Ninguém sabe se a canção foi escrita por uma pessoa, por um autor real, de carne e osso, ou por IA.

Quem faz música desse modo quer, de facto, fazer música e arte? Ou apenas responder à procura do mercado?
Quem gosta de escrever poesia, escreve poesia, não pede a um modelo de IA para copiar os versos de Neruda. Quem gosta de fazer música, quem estudou e tem uma biblioteca à disposição — uma cabeça cheia de ferramentas, de formas musicais e harmonias, uma espécie de disco rígido intrinsecamente humano —, não tem necessidade de IA. Porque a IA não tem coração, tem algoritmos repetidos. Deixa-me louco, porque a mesma voz canta em todos os idiomas, em todos os géneros. Há uns dias, um amigo enviou-me uma canção e eu disse-lhe “isso é IA”, é uma mentira, nada disso é real, ninguém canta isso.

"A velocidade da vida é muito acentuada, hoje vive-se em contra-relógio. A música rápida e banal é sedutora para pessoas neste estado de agitação. Nós, artistas, músicos, criadores, produtores, cantores, intérpretes, temos a obrigação de continuar a fazer este trabalho de purificação e limpeza constante para que a música não desapareça."

E o que alimenta a sua biblioteca pessoal? Que coisas inspiram o seu trabalho na música?
Ligo tudo à música. O amor, obviamente, é a primeira coisa, a família, a atualidade, literatura, dança, um amigo, tudo para mim tem música. Como se fosse um filme — saio à rua e ponho música na vida. O ritmo da vida das pessoas também me inspira muito, a graça, as terras, a gente das esquinas, a noite, a natureza. E manter-me humilde. Isso é importante, manter-me humilde diante da música, de Deus e das pessoas.

Em 2025 lançou o seu último álbum, Bingo, que agora apresenta em Portugal. 
Cada álbum é um filho, um momento novo na vida de um artista, pela criação, inspiração, música e linguagem nova que traz. Quando termina a gravação e o disco fica completo — depois de fechar a última canção, o arranjo, a mistura e a masterização —, esse momento é especial, mágico até.

E como descreve este último “filho” que pôs na Terra?
Bingo é um disco de confirmação, um disco onde encontrei maturidade, a minha cor e continuei a aperfeiçoar o traço, como numa pintura. A orquestração, as canções, a interpretação vocal estão muito mais desenvolvidas do que em discos anteriores, porque resultam de um processo de amadurecimento, uma soma de anos e experiências. Fui mais cuidadoso em todos os aspetos e recebi o devido reconhecimento: nos Grammys latinos e americanos, mas também em Cuba, onde o álbum venceu um Cubadisco. Com Bingo pude chegar a outras latitudes, e novos mercados, pelas mãos de Gilberto Santa Rosa, Tito Neves e Luis Enrique, colaborações muito pensadas e amadurecidas.

Que importância dá aos prémios?
No meu caso é o reconhecimento da música independente, produzida sem o apoio da indústria. Bingo não tem um suporte cem por cento comercial na sua base e o facto de ser nomeado para os Grammys é positivo porque significa que também prestam atenção a outras coisas, não se limitam à música mainstream. Eu ganhei o Grammy latino em 2021 com o Bingo e esse foi um momento muito bonito da minha vida, porque fiz o álbum com honestidade. Não é o Grammy de um disco apoiado pela Sony Music, não tem a Warner ou a Universal por trás. Esta música está despida, foi feita de coração. Se for ouvida e receber prémios, só tenho que agradecer.

E chama-se Bingo por ser esse momento de confirmação. Finalmente acertou no alvo?
Fiz bingo, certamente.

▲ Alain Pérez: "A forma e sentimento que [o fado] tem é algo que me move a alma. É a voz de um povo, um sentimento muito puro e bonito."

A colaboração com Isaac Delgado já é antiga, como explicou. Mas Luis Enrique, Gilberto Santa Rosa, Tito Neves: já tinham trabalhado juntos?
Não, nunca tínhamos feito nada, mas estávamos desejosos. Foi uma coisa muito bonita. Partiu do desejo de partilhar ideias entre nós.

E é também uma colaboração entre vozes latinas e caribenhas com origens diversas.
O que é muito positivo. E estamos a falar de artistas consagrados, não são colaborações com um “muchacho” que começou a trabalhar ontem. Também é bonito ajudar os novos artistas, mas estes nomes catapultam a minha carreira e estão inscritos na história da música e da salsa. Isso aproxima-me de um novo público, o público desses artistas, e vice-versa.

Mas também gosta de acompanhar e ensinar os jovens músicos. A Orquestra, a banda que o acompanha em tour, por exemplo, tem muitos jovens.
Sim, esta é a segunda geração de jovens que passa pela Orquestra. A Orquestra tem dez anos, alguns membros da primeira geração vingaram, chegaram a estudar na faculdade de Berklee [em Boston] e estão nos Estados Unidos. Esta nova geração da Orquestra tem miúdos muito jovens, à volta dos 20 anos, o mais novo tem 19. Acolhemos gente com idades situadas entre os 19 e 35.

E são todos cubanos?
Sim, todos são de Cuba, de Havana, mais especificamente. A Orquestra não é mais um grupo constituído na Europa, foi também por esse motivo que regressei ao país, porque queria ter a minha banda, com a minha gente. Queria viver com eles, passar o tempo, viajar com eles. Tudo isso pesa na hora de subir ao palco e fazer música.

Sim, na mesma linha daquilo que disse sobe Paco de Lucía, que o convidou para ser baixista porque o Alain tinha alma cubana. Estes jovens também têm essa alma, que transportam para a música, que lhes confere um sentimento especial?
Exato, a sua energia, a forma de viver e sentir, de onde vêm, a família, o seu bairro. É importante trabalhar com esses músicos cem por cento cubanos.

"Se há alguma solução para o problema em Cuba? A curto prazo terá de haver, porque não assim não dá, deste modo não creio que o povo e o país resistam. É uma vida tão estreita, tão decadente e apertada... mais dia menos dia, a bolha vai rebentar."

Como está a situação em Cuba neste momento?
Muito má. Vivemos um colapso energético quase a cem por cento. As pessoas estão a viver uma situação de escassez, de falta de abastecimento quase total. Quase todos os setores estão a colapsar, todos os ministérios, da Saúde, dos Transportes, o setor da energia, a educação. Estamos à beira do abismo. O povo cubano sobrevive a uma crise nunca antes vista.

A sua família está na ilha?
Sim, a minha mulher. Se há alguma solução para este problema? A curto prazo terá de haver, porque assim não dá, deste modo não creio que o povo e o país resistam. É uma vida tão estreita, tão decadente e apertada… mais dia menos dia, a bolha vai rebentar. Ou rebenta a bolha ou se arranja uma alternativa para o bem do povo.

Sente-se uma espécie de embaixador de Cuba no estrangeiro?
Sim, sinto essa responsabilidade. Há artistas cubanos a atuar em todo o mundo, é certo. Mas eu sou um deles, a vida trouxe-me aqui. Desde os nove anos que faço música e, neste momento, sinto a responsabilidade de continuar a levar a música cubana ao mundo, de coração, com uma entrega sincera e transparente, desde as profundezas da minha alma.

E o que podemos esperar da Fiesta?
A Fiesta vai ser uma noite mágica. Todos os concertos são diferentes, porque depende de como canalizamos e partilhamos a energia e o espírito da música com o público. Com cada audiência, vibramos de forma especial.

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